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“Contra a Guerra Colonial marchar, marchar”

Mesmo no contexto do universo musical mais pesado, o nome de Júlio Pereira não é desconhecido. Muito pelo contrário. O multi-instrumentista originário de Moscavide (Lisboa) ganhou fama não só pelo reconhecido virtuosismo no cavaquinho, entre outros instrumentos tradicionais portugueses, mas também por se revelar um influente investigador da Música Tradicional produzida entre portas.

Antes, porém, já tocara nos The Playboys e Xarhanga. É sobre estes últimos que falarei este mês.

Biografia

Os Xarhanga surgem no início dos anos 70 como Xarhanga Beat, grupo de baile residente no Casino das Caldas da Rainha.

Quando, em 1972, alteram a designação para Xarhanga, apresentam na formação a nata do rock em Portugal − Carlos Cavalheiro (voz, ex-5 Napolitanos), Júlio Pereira (guitarra, órgão e piano, também membro dos Petrus Castrus), Carlos Patrício (baixo) e Rui Venâncio (bateria). Instrumentistas excecionais, de musicalidade fora de série.

Em simultâneo com a mudança de nome, orientam-se musicalmente para o heavy rock, compondo temas originais.

As bem assimiladas influências de grupos como Uriah Heep, Atomic Rooster, Black Sabbath, Led Zeppelin, Deep Purple, Grand Funk Railroad ou Cream traduzem-se em canções pujantes, de elevado requinte interpretativo, com abundantes solos de guitarra, que revelam ao público toda uma nova (e então enfurecida) abordagem ao Rock N’ Roll.

Características comuns aos temas gravados pela banda:

• Em todas as canções existe uma breve passagem calma, contrabalançando os andamentos maioritariamente frenéticos.

• Os tons altíssimos alcançados por Cavalheiro remetem-nos para ícones mundiais posteriores como Rob Alford (Judas Priest, em especial a partir “Painkiller”) ou Geoff Tate (Queensrÿche).

• Nas letras do quarteto critica-se o regime autoritário que empobreceu e isolou o país ao longo de praticamente cinco décadas, enfatizando-se ainda a oposição à Guerra Colonial.

Discografia

“Acid Nightmare / Wish Me Luck” [single, Zip-zip, 1973]

O tema de abertura inicia-se apenas com voz, num loop em fade-in, seguindo-se uma breve introdução de bateria quase em jeito de solo.

Com o baixo e a guitarra já fazendo-se ouvir, Pereira usa e abusa do vibrato. Os solos abundam ao longo de toda a canção, mas o desempenho dos restantes músicos afigura-se igualmente arrebatador (como, aliás, na totalidade das canções gravadas pela banda).

Uma paragem abrupta sensivelmente a um terço do tema permite-nos respirar e recuperar do andamento frenético, que logo é recuperado.

N lado B, “Wish Me Luck”, maioritariamente em mid-tempo, apresenta uma impressionante passagem com guitarras gémeas, deixando antever uma das grandes características do heavy metal.

“The Great Goat / Smashing life (in a City)” [single, Zip-zip, 1973]

“The Great Goat” inicia-se com guitarra, que logo se faz acompanhar de uma secção rítmica galopante (na qual figura Zé da Cadela em substituição de Venâncio) e a voz “lá em cima”, numa exibição heavy metal quando ainda nem sequer existia tal termo.

A passagem calma a seguir ao solo serve de ponte para o riff principal e os versos, cuja urgência precipita o final do tema.

“Smashing Life (In a City)” alterna uma abordagem mais puramente rock com passagens em andamentos mais rápidos, com a bateria sempre endiabrada.

Nos breaks, o nome do malogrado Keith Moon (The Who) vem-nos frequentemente à memória.

Em 1975, sob a nomenclatura Xarhanga – Carlos Cavalheiro/Júlio Pereira, é editado o álbum “Bota Fora”, um disco conceptual sobre a Guerra do Ultramar, numa perspetiva de apoio aos movimentos independentistas das então recentes ex-colónias africanas.

Não analiso aqui esse álbum dado que a sua estética musical, sustentada na música popular portuguesa e na música de intervenção, foge à linha editorial dos Caminhos Metálicos.

Curiosidades

– Os Xarhanga chegaram a ensaiar em locais como a Praça de Touros da Nazaré ou o Pinhal de Leiria.

– O riff principal de “Acid Nightmare” pode também ser ouvido em “País Relativo”, canção integrada no álbum “Mestre”, dos rockers progressivos Petrus Castrus. Nesta versão, o órgão Hammond evidencia-se, remetendo-nos para os Deep Purple.

– Em 2007 a Portuguese Progressive Pearls reedita o álbum “Bota Fora” em vinil, reunindo como faixas-extra os temas incluídos nos dois singles.

Dico
08.08.2021

Arqueologia Metálica #3 | Xarhanga

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