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“A genialidade de um camaleão musical”

Se existe um pai do rock português esse é, sem dúvida, José Cid, que já em 1955 integrava os Babies, em Coimbra.

Famoso pela sua abrangência musical e pelas múltiplas participações no Festival RTP da Canção, quer enquanto intérprete/compositor a solo, quer enquanto compositor para outros artistas, venceu o certame em 1980, em nome próprio; e em 1998, com uma composição sua para a banda Alma Lusa.

Na verdade, da música ligeira ao rock, passando pelo rock progressivo e pela pop, até ao hard rock, José Cid explora há mais de seis décadas múltiplas linguagens musicais (a solo, nos Green Windows ou no Quarteto 111), sendo difícil imaginar-lhe bloqueios criativos.

E é em alguns temas mais pesados que figuraram pontualmente na discografia do artista que irei centrar-me este mês.

Voltarei a esta figura ímpar noutra altura.

“Doce e Fácil Reino do Blá Blá Blá” [labo B do single “Cantiga Portuguesa”, Decca, 1973]

Tema pesadão, com um balanço inigualável, reminiscente da herança Black Sabbath ou Grand Funk Railroad, e pejado de fantásticos solos do escocês Mike Segeant. Um absoluto clássico, cuja versão de estúdio de 2015 (com menos 00’59”) não é tão bem conseguida.

A letra analisa crítica e sarcasticamente um país em que muito se falava e nada se fazia (e não é ainda assim, embora sem comparação possível entre regimes e período histórico?). Portugal vivia afundado no total marasmo e sufoco da ditadura salazarista e, depois, marcelista.

“Deus Inventou o Rock” [?]

Com estrutura e arranjos ao estilo big band, o refrão deste tema remete-nos imediatamente para uma ambiência Deep Purple. Por si só, o título, profano q.b., tinha potencial para abalar as estruturas de uma sociedade profundamente alicerçada nos dogmas da Igreja.

Foi reeditado em 2007 no duplo álbum “Pop Rock e Vice-versa”.

“No tempo em que o Toninho lanchava com os amigos na pastelaria «S. Bento»” [“Portugal É!…”, Decca, 1975]

Os níveis de sarcasmo da letra deste tema elevam-se ao expoente máximo. Apesar de a ditadura ter terminado um ano antes de este single ficar disponível, e de Salazar ter falecido em 1970, José Cid imita magistralmente, e de forma profundamente humorística, a voz do ditador, no contexto de uma hipotética assembleia em que manifesta todo o seu poder, inegável mas profundamente bacoco.

Musicalmente, este é um tema maioritariamente southern rock.

“Nasci P’rá Música” [“Nasci P’rá Música, compilação, 2003]

Um dos grandes êxitos de José Cid. Iniciado em tom de balada com um piano contagiante, depressa entra num ritmo quase de disco sound, embora com um riff de guitarra bastante pesado e solos irrepreensíveis em fundo. O refrão é um dos mais conhecidos da música portuguesa.

Dico
08.09.2021

Arqueologia Metálica #4 | José Cid

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