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Falar de hard rock ou de glam rock espanhol implica falar dos Sangre Azul. E quando se fala de Sangre Azul, “El Silêncio De La Noche” é, para mim, o álbum! Talvez porque foi com ele que eu conheci os Sangre Azul, através das rádio-pirata que escutava nos anos 80 e até meados dos 90, do milénio passado. Lançado em 1989, supera todos os anteriores em termos de produção revelando uma banda mais madura e apresentando algumas particularidades, quer ao nível visual, quer musicalmente: é o único álbum que não tem foto da banda na capa, sendo esta composta por um fundo azul com o nome da banda e do álbum num tom quase dourado. Uma edição limitada, numerada e com as letras em relevo, é ainda hoje, procurada pelos coleccionadores (edição da qual eu tenho o exemplar nº 005010). Musicalmente é o único álbum que inclui teclas, com a participação especial de Miguel Collado e é o primeiro (e único) a ser gravado com Juanjo Melero nas guitarras.

Mas “El Silêncio De La Noche” é o terceiro e último LP dos Sangre Azul, banda que, como tantas outras viu o seu fim ditado pelos interesses editoriais, que na época, matavam tantas e tão promissoras bandas.

Pouco conhecidos por cá, vou contar-vos um pouco a história desta banda.

Estávamos em 1982 e, no conhecido bairro madrileno de Pinto, em Madrid, uma banda, inicialmente de covers, começava a dar os primeiros passos da que seria uma das mais influentes bandas de glam / hard rock de Espanha. Nasciam os Sangre Azul, com Lili (nome pelo qual é conhecido José Castañosa) na voz, Carlos Raya e J.A. Martín nas guitarras, Julio Díaz no baixo e Luis Santurde na bateria.

Em 1985, participam no VIII Troféu Rock Villa Madrid, conquistando o primeiro lugar, o que lhes garante a gravação de um álbum conjunto com as bandas Esfinge e Furia Animal. Sangre Azul grava quatro temas ocupando todo o lado A do álbum, e as outras duas bandas dividem o lado B, com dois temas cada uma. Não ficando contente com o resultado final, a banda decide editar um EP com as quatro faixas desse álbum: “Rey de la Ciudad” e “Chicas, Whisky y Rock and Roll” do Lado A, “Todo Mi Mundo Eres Tú” e “Rock and Roll Es Libertad” do Lado B.

A banda começa a suscitar curiosidade e a despertar o interesse da indústria discográfica, pois com apenas quatro temas, enchia as salas onde era anunciada, contagiando o público com a energia da sua performance em palco.

Pouco tempo depois acontece a saída de Lili e a voz dos Sangre Azul passa a ser da responsabilidade de Tony Sölo que, com o seu timbre melodioso, a sua beleza e a sua postura em palco, não demora muito a catapultar o quinteto para o sucesso.

No entanto, a banda atravessa uma fase de luta litigiosa pelo nome, uma vez que este tinha sido registado por Castañosa, que continua a deter os direitos sobre o mesmo (e dos quais nunca abdicou), o que não impede o colectivo de assinar contracto com a editora Hispavox.

Estávamos em 1987 e sai “Obsesión”, o primeiro álbum dos Sangre Azul, com nove temas. “Todo Mi Mundo Eres Tú”, um dos temas do EP é incluído. Como curiosidade e ilustrando a notoriedade que banda já tinha em Espanha, na contracapa do álbum aparece já a referência ao Club de Fans Oficial da banda, sediado em Madrid, com indicação da sua morada para contacto. Marketing (como dizem alguns) ou não, a verdade é que, ainda hoje, existe um grupo de fans fiel à banda, com actividade diária num grupo de facebook, do qual fazem parte alguns ex-membros dos Sangre Azul. Outra curiosidade, é o facto de, na capa do álbum, o centro da foto da banda ser ocupado pelo guitarrista Carlos Raya.

Deste álbum saem dois singles: um com os temas “America “e “Invadiendo Tu Ciudad” e o outro com “Todo Mi Mundo Eres Tu” e “Maestro Del Crimen”.

A banda está em alta e um ano depois surge o segundo álbum “Cuerpo A Cuerpo”, revelando composições mais melódicas. Uma melhor produção e uma banda mais segura, consagram os Sangre Azul como a melhor banda de hard / glam rock espanhol. Como chave para o sucesso está a inegável qualidade instrumental e vocal, associada à imagem da banda, que é capa do álbum e onde Tony Sölo já ocupa o lugar central – cabelos compridos, calças justas, camisas leves e desabotoadas, casacos de couro com franjas e tachas, cintos e lenços animal print. Não fosse a banda cantar na sua língua materna, e teriam certamente cruzado fronteiras.  Uma edição limitada, com a capa autografada por todos os membros é ainda hoje uma das relíquias que os fãs (como eu) guardam com saudade.

Mais uma saída na sua formação altera novamente a dupla de guitarras: sai J.A. Martín, que é substituído pelo ex-Marshall Monroe, Juanjo Melero que grava então o terceiro álbum da banda “El Silêncio de la Noche”, do qual falo no início deste texto.

Durante 1990 / 1991, a banda toca com os Angeles del Infierno e Manzano em várias cidades de Espanha, concertos integrados na Tour Metal Hammer, patrocinada pela revista homónima. França foi o país de estreia fora de Espanha, seguindo-se mais algumas actuações fora do país, cuja expectativa não foi alcançada. Fizeram a abertura de Angeles del Infierno no México, durante cinco noites. Não regressaram directamente a Espanha, passando uma temporada na costa oeste dos Estados Unidos, repensando o futuro da banda. Quando regressaram a Espanha, levavam menos um guitarrista, já que Juanjo Melero decidiu ficar a residir na Califórnia.

Gravam uma maquete com vinte novos temas que apresentam à Hispavox, a sua editora desde o início. A evolução da banda, o seu amadurecimento enquanto colectivo e indivíduos levou a uma mudança na sonoridade e na imagem dos Sangre Azul, mudança essa que não agradou à editora, quando lhe foi apresentada a maquete, recusando-se a editar um novo álbum dos Sangre Azul. Sem um novo trabalho, a banda via-se forçada a “arrastar” os mesmos temas de sempre, o que não era o pretendido. De acordo com a sua postura, não fazia sentido prolongar o nome da banda sem novidades no mercado, muito menos arrastar o último álbum para mais uma tournée quando este já havia tido o seu tempo.

Em 1991, é lançado, numa compilação da Emissora El Pirata, aquele que seria o seu último registo editado: a canção “Sangre y Barro”, uma homenagem a um grupo de fans que tem um trágico acidente de viação quando se deslocavam a Paris para ver a banda.

O fim foi ditado, em 1992, não por questões de egos nem quaisquer situações internas da banda, mas sim porque a indústria discográfica decidiu que não queria seguir apoiando o que Sangre Azul propunham. O tema do vídeo, é apresentado pelo próprio Tony como um dos que “fará parte do próximo álbum dos Sangre Azul”, álbum esse, que nunca chegou a existir:

No ano 2000, os três álbuns são remasterizados e reeditados em conjunto, na Colecção de cd’s “Imprescindibles”, com a inclusão dos temas extra “El Rey de la Ciudad” e “Todo Mi Mundo Eres Tu”, os temas do lado B do EP “Sangre Azul”

Lili, em 2005 reúne-se com outros músicos e tenta ressuscitar o nome Sangre Azul, o que não é bem recebido pelos fãs, para quem a voz da banda sempre será Tony Sölo.

Depois da dissolução Tony Sölo, Julio Díaz y Luis Santurde afastam-se do meio musical. Carlos Raya faz carreira como músico de estúdio e produtor, tendo-se unido mais tarde a M-Clan e posteriormente a Fito & Fitipaldis e Juanjo Melero viria a formar os Santa Fé.

Em 2008, na apresentação ao vivo do álbum “Filosofia Doméstica” de Juanjo Melero, a formação de “El Silêncio de la Noche” reúne-se pela primeira vez após a sua dissolução, e presenteiam o público com algumas canções do último álbum de Sangre Azul. Tony, já sem a sua imponente cabeleira, mas com o seu timbre inconfundível, e todos os restantes músicos, não deixam dúvidas de que Azul é ainda o Sangre que lhes corre nas veias.

Em 2011, Tony Sölo surge com um álbum a solo “Las fases de la luna” demonstrando uma excelente forma vocal. Este lançamento deixou sempre uma réstia de esperança nos fãs no ressurgimento dos Sangre Azul o que não aconteceu.

Os Sangre Azul sempre foram um exemplo de determinação e disciplina e só assim conseguiram ter o merecido destaque no hard rock espanhol da época, onde nem sempre foram bem recebidos, em especial pelos fãs de sonoridades mais pesadas. Mas isso nunca os demoveu do seu percurso, nem fez, em momento algum, diminuir a sua tenacidade, o que pode ser ilustrado com o seu excelente desempenho, logo a seguir à actuação de Kreator, nas festas de San Izidro, perante um ambiente hostil. Conseguiram mostrar qualidade, onde muitos apenas queriam ver beleza e espectáculo. Conseguiram ser uma das bandas referência do hard rock “ochentero” espanhol, e o seu legado permanece, nos dias de hoje, na memória de alguns e na colecção de discos de muitos.

Discografia

EPs
• “VIII Villa de Madrid” (split) (1985)
• “Sangre Azul” (1985)

Álbums
• “Obsesión” (1987)
• “Cuerpo a cuerpo” (1988)
• “El silencio de la noche” (1989)

SINGLES
• “America / Invadiendo tu ciudad” (1987)
• “Todo mi mundo eres tú” (1987)
• “Cuerpo a cuerpo” (1988)
• “Mil y una noches” (1988)
• “No eres nadie” (1988)
• “Cien años de amor” (1989)
• “El silencio de la noche” (1989)

Rosa Soares
01.08.2021

Contratiempos # 3 | Sangre Azul – “El Silêncio De La Noche”

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