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No passado dia 18 de Julho, os Sôber lançaram E-L-E-G-Í-A, o seu décimo álbum de originais. Conheço esta banda madrilena há já alguns anos e o que me captou a atenção e me levou a ir escutá-la foi a atitude do seu vocalista e baixista, Carlos Escobedo. A forma como Carlos se posiciona em frente ao micro, como se cada vez que o fizesse fosse a última, a forma carregada como pronuncia os erres e o modo como coloca o seu baixo, que numa primeira e desatenta “mirada” pode parecer que o faz com algum desprendimento, mas que rapidamente nos revela como um é o prolongamento do outro numa relação de cumplicidade, foram os ingredientes que chamaram a minha atenção para esta banda, que é hoje uma das minhas preferidas. A intensidade lírica e instrumental é daquelas que nos abana emocionalmente, nos faz rir, chorar, reflectir e nos arrepia até à medula. Com guitarras irrepreensíveis, é na força da bateria e na intensidade do baixo que eu encontro a profundidade de Sôber, aliado à voz e dicção tão características de Carlos Escobedo, que viaja do suave sussurrar ao grito de dor emocional, mantendo-nos em suspenso.

Mas afinal, quem são os Sôber?

Nascidos em Madrid no ano de 1994, os Sôber mantêm a sua formação inicial, excepção feita no domínio das baquetas, que estão actualmente nas mãos de Manu Reyes (desde 2010) depois de terem passado por Elias Romero e Alberto Madrid, este último falecido em 2006 num trágico acidente de viação.

Começaram a cantar em inglês, mas é já em espanhol que o primeiro álbum, “Torcidos” (1997), é gravado, ainda com o nome inicial da banda, Sôber Stoned. Com este álbum conseguiram ser conhecidos, o que os levou à realização de um dos grandes marcos na sua carreira: a gravação do tema “La Prisón del Placer” para uma compilação da revista Heavy Rock. O conhecimento alcançado e o sucesso deste tema, conduziram ao lançamento do EP “Condenados” (1998) e ao segundo álbum, “Morfologia”, do qual faz parte o tema “Donde Está Mi Paz”, que voltará a surgir, com arranjos mais poderosos, no seu terceiro álbum “Synthesis” (2001), um dos melhores álbuns de rock alternativo de Espanha. Desde 1999 que a bateria é agora dominada por Alberto Madrid.

O seu quarto trabalho, “Paradÿsso” surge em 2002 e com ele uma tourné de mais de 100 concertos em 2 anos. “Paradÿsso” chegou a disco de platina e é o maior êxito da banda. Os Sôber, que sempre fizeram música na profundidade sentimental, conseguem neste álbum, escavar mais fundo com temas como “Arrepentido”, “Eternidad”, “Paradÿsso” ou “Diez Años” que foi o tema que na altura mais sucesso alcançou.  Eu, no entanto, escolho o tema que dá título ao álbum e “Arrepentido”, este último com o vídeo da versão com orquestra.

Segue-se um EP, “Backstage 02/03”, com cinco temas gravados ao vivo e o quinto álbum de estúdio “Reddo” (“reflexo”, em latim) é lançado em 2004. Este álbum, com temas como “El Hombre de Hielo”, “La Nube” ou “Blanco y Negro” marca, não só a primeira fase de Sôber, como todo o rock e metal alternativo de Espanha.  A seguir ao seu lançamento, todos os membros decidem fazer uma paragem na banda e dedicarem-se a outros projectos, também eles merecedores de destaque: Carlos Escobedo e Alberto Madrid formam os “Savia”, enquanto que Jorge Escobedo e Antonio Bernandini formam “Skizoo”, banda que terá como vocalista Morti, um outro grande nome do rock e metal espanhóis.

Como se de um encerramento de uma história se tratasse, Sôber lança a colectânea “Grandes Êxitos 1994 – 2004” gravado ao vivo, para a qual, a própria banda seleccionou os temas mais marcantes dos seus primeiros dez anos de carreira. O resultado final é um cd + dvd com dezassete temas, tendo o dvd um extra de doze videoclips (dez de Sôber, um de “Savia” e um de “Skizoo”) e o making of da tourné de “Reddo”.

O dia 1 de Janeiro de 2010 é um dia que os fãs de Sôber nunca esquecerão, pois foi o dia em que a banda anunciou o seu regresso, agora com Manu Reyes na bateria. O regresso de Sôber celebra-se com uma tourné pelas principais cidades espanholas e pela América Latina. Um ano mais tarde, em 2011 surge “Superbia” o primeiro álbum de estúdio desta segunda fase (o sexto da sua discografia), que não deixa dúvidas sobre o crescimento da banda e sobre a força trazida pela bateria de Manu Reyes. Temas como “La Araña”, “Tic-Tac” ou a balada “Naufrago” mostram que Sôber regressou ainda mais intenso e que nos promete arranhar os sentimentos.

O ano 2014 traz-nos “Letargo”, um álbum forte, cuja capa foi elaborada pelo próprio guitarrista da banda, Antonio Bernardini representando um urso polar, o que se relaciona directamente com a letargia associada à hibernação. No entanto, a imagem remete-nos mais para um urso que sai dessa letargia e grita ao mundo, à semelhança do que aconteceu com Sôber. Com este álbum, a banda assume uma composição lírica muito mais metafórica, contrastando com a realidade mais directa que caracterizou a banda até aqui, sem que nunca perca a sua identidade.

O oitavo álbum “Vulcano” (2016) está repleto de riffs e solos de puro heavy metal, aos quais Manu Reyes acrescenta uma bateria entrondosa, que se associa ao baixo tão característico de Carlos Escobedo. Tal como um verdadeiro vulcão, oscila entre temas estrondosos e outros mais calmos, sendo sempre uma calma tensa que nos remete para a expectativa de uma nova erupção.

E chegamos a 2021, a E-L-E-G-I-A e a uns Sôber cuja musicalidade revela a maturidade de uma banda que desde sempre se tem mostrado num crescendo. Uma elegia é um poema triste ou obscuro, essencialmente dedicado à perda, existindo neste álbum, uma permanente sensação de despedida, de adeus, mas simultaneamente uma aura de recordações e memórias que oscilam entre o amor materno em “Mi Heroína”, a dor da saudade de “Elegia”, o sofrimento de quem ama, mas não pode viver esse amor retratado em “Verona” ou a realidade do bullying de “El día de la liberación”. É um álbum em que Sôber regressa ao seu lado mais gótico, mais obscuro, lírica e graficamente, onde as guitarras arrepiam, a bateria marca o compasso do coração e o baixo se entranha na alma acompanhado pela voz que arranca as emoções.

São estes os Sôber, uma banda de Madrid, que toca com a alma na alma de quem os ouve.

Os Sôber são:

Carlos Escobedo – baixo e voz

Antonio Bernandini – guitarra

Jorge Escobedo – guitarra

Manu Reyes – bateria

Discografia
(excluindo os singles)

1997 – Torcidos
1999 – Morfología
2001 – Synthesis
2002 – Paradÿsso
2003 – Backstage 02/03 (EP com gravações ao vivo)
2004 – Reddo
2005 – Grandes Éxitos 1994–2004 (compilação)
2008 – Synthesis (reedição)
2010 – De aquí a la eternidad (compilação CD+DVD com dois temas inéditos)
2011 – Superbia
2011 – Reddo + Paradysso (reedição BOX)
2014 – Letargo
2014 – 20 ‎(gravação ao vivo do concerto de comemoração dos 20 anos (2Xcd + 2xDV)
2016 – Vulcano
2018 – La sinfonía del Paradÿsso (Paradÿsso com orquestra)
2020 – La sinfonía del (ao vivo en Las Ventas – Blu-ray + CD)
2021 – E-L-E-G-I-A

Rosa Soares
02.07.2021

Contratiempos # 2 | Sôber – “E-L-E-G-I-A”

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