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Raging Planet
Fevereiro 2022

Rosa Soares

As baleias não voam. É verdade. Mas os sonhos podem transformar a realidade. E é o que acontece com os Whales Don´t Fly, banda de Bragança, que através do seu contexto metafórico, ganharam asas e voaram, musicalmente falando.

“The Golden Sea” é o primeiro álbum desta banda, nascida no interior norte do país, onde por vezes, tal como acontece com as baleias, não se voa. Mas na música tudo é possível e os Whales Don´t Fly estão aí para derrubar as barreiras do distanciamento do interior de Portugal. E fazem-no com este “The Golden Sea”, álbum conceptual, que conta a história de um peregrino, assolado pela doença que o definha, que inicia a sua busca pelo mar dourado, cuja lenda diz que quem o encontrar, encontrará um estado de pura realização.

Ao longo das nove faixas que compõem o álbum, vai-se contando a viagem que o peregrino faz em busca desse Golden Sea, até que, ao atingir o seu objetivo, encontra um deserto de areia onde seres espectrais vagueiam, seres que outrora foram os habitantes do Golden Sea que ali existiu.

Mas a viagem de “The Golden Sea” não é a viagem solitária de um peregrino. Desde a primeira faixa, “Ancient Mystery”, uma espécie de prólogo, que somos envolvidos num misto de emoções em que nos transformamos nós no peregrino, numa busca interior do nosso próprio mar dourado.

“The Golden Sea” é um álbum introspetivo, em que a música assume o papel de guia da descoberta do Eu. Não é um álbum fácil, é intenso, profundo, todo ele envolvido numa sensação de sufoco e urgência, de obscuridade e necessidade de “vir ao de cima respirar”.  A audição do álbum termina com a sensação de que não respirámos durante 55 minutos, se bem que na verdade não temos consciência de quanto tempo passou.

Se a voz que nos conduz para o sufoco e para a urgência do vivido tem momentos menos “arranhados”, o instrumental não nos deixa sair e fecha-nos numa espiral de velocidade e energia, abrandada apenas com a melancolia de “Dream Walker”.

“The Golden Sea” é um álbum complexo, repleto de ambiências sonoras diversas, caracterizado pela intensidade e pelos momentos quase transcendentes que nos proporciona. A complexidade sonora e a metáfora lírica deste disco não se esgotam numa nem em duas audições. Este é um álbum para se degustar ao longo dos tempos, repetindo o deleite.

Whales Don’t Fly – “The Golden Sea”

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