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Depois de dois álbuns – “At First Sight” (2015) e “Less Ain’t More” (2019) – e de um EP –  “Neon Gods”(2017) -, os Affäire estão de volta com um novo trabalho de originais.

Lançado em outubro de 2024 pela Lions Pride Music, “En Route” traz consigo a maturidade de quem sabe o que faz e mantendo a identidade que caracteriza a banda, apresenta agora Tawny Rawk, na voz tendo o baixo passado para as mãos de Jonathan Bogard.

Por “En Route” desfilam, ao longo de 45 minutos, doze potentes temas, dois deles instrumentais e uma versão de “Take a Bite (Outta Me)” dos Alleycat Scratch’s, faixa disponível apenas na edição física.

Para nos falar deste novo álbum e das novidades que nos traz, falámos com J.P. Costanza (bateria e backing vocals) dos Affäire.

Os Affäire, após uma fase de busca de vocalista, optaram por ter na voz Tawny Rawk, que anteriormente assegurava as quatro cordas da banda. Porquê esta opção? É mais fácil encontrar baixistas que vocalistas?

Viva! Quando tivemos de procurar novo vocalista, decidimos inicialmente manter em aberto todas as possibilidades, incluindo de aparecer alguém novo que encaixasse bem na banda. Houve vários candidatos, mas nunca sentimos ter encontrado a pessoa certa. Já sabíamos que o Tawny tinha sido vocalista noutras bandas, o que nos dava algum à vontade em todo o processo, mas não o quisemos pressionar para assumir o posto. Isso foi algo que acabou por acontecer naturalmente, tendo a iniciativa partido dele, já que percebeu que seria a opção que melhor garantia que a identidade dos Affäire seria mantida, além de não ter de aprender as músicas dos discos anteriores. Para nós, nunca foi fácil encontrar baixistas nem vocalistas, mas a verdade é que isso nunca nos fez parar e, com alguma paciência e não abdicando de valores que caracterizam a banda, acabámos sempre por encontrar quem encaixasse bem. Neste caso, com a vantagem de ser um amigo de anos, o Jonathan Bogard,

Estas mudanças de line-up impactaram de que forma na composição e sonoridade da banda?

Desde o início que as músicas são praticamente todas compostas por mim ou pelo Rick (guitarrista). Por isso, não se pode dizer que tenha afetado esse processo, que foi avançando em paralelo com as mudanças de line-up, mesmo quando este estava incompleto. Se há algo que sentimos de diferente na atual formação é termos arriscado mais do que nunca na composição e nos arranjos. Mantivemos o nosso estilo que podemos resumir a hard rock inspirado nos 1980’s mas explorando áreas por onde nunca nos tínhamos aventurado antes, nomeadamente alguns “extras” como solos de saxofone e interlúdios instrumentais que remetem para o imaginário de genéricos de séries e filmes dessa década. Há quem diga que neste disco, os refrões são todos orelhudos e isso será “apenas” consequência do amadurecer da banda, que talvez nos tenha tornado mais sólidos nesse aspeto, apesar de eu achar que era uma característica que já existia.

Ao ouvir “En Route” fiquei com a sensação de percorrer uma autobiografia da banda, e ao mesmo tempo uma declaração de intenções: “Somos Affäire e estamos aqui para ficar”. É isto?

Não sinto que sejamos uma banda que tenha tido várias “fases” e, nesse sentido, há uma consistência desde sempre, evitando sermos repetitivos ou soarmos a um tributo a uma ou duas bandas. Dentro dessa consistência, concordo que existe alguma variedade – uns temas mais crus e diretos, outros mais imprevisíveis – e diferentes dinâmicas propositadamente encaixadas ao longo de “En Route”. O disco é, realmente, um percurso com momentos em que aceleramos e outros em que abrandamos e a ordem das músicas não é aleatória. Pensando que passaram cinco anos desde o álbum anterior, com uma pandemia pelo meio (que nos arruinou uma tour europeia que estava a ser preparada para 2020), as mudanças de line-up referidas e todas as dificuldades que uma banda deste género sente no mercado (não só em Portugal), é justo afirmar que este álbum – o nosso terceiro, falando apenas de discos de longa-duração – é uma prova de vida inequívoca.

O hard/glam rock sempre foi um dos géneros mais subvalorizado no nosso país, e talvez por isso tenhamos poucas bandas com esta sonoridade. Atualmente, esta realidade constitui um obstáculo ou encaram esta “escassez” como uma oportunidade?

Tem sido, acima de tudo, um obstáculo. E é um assunto que tanto nos cansa abordar, como já nos deixa quase indiferentes. Já nos aconteceu depararmo-nos com críticas ou artigos em publicações nacionais que começam por fazer uma espécie de “disclaimer” sobre este ser um género mal visto pelas “elites” do metal e do rock e de o seu auge já ter acontecido há umas décadas. A crítica até pode ser boa, mas começa logo por queimar a banda e o género, algo que não vejo acontecer em mais nenhum estilo, mesmo que seja inspirado em correntes ainda mais antigas do que os anos 80. E é algo que nunca nos aconteceu em críticas vindas do estrangeiro. Parece haver alguma insegurança ou complexo nalgumas “camadas” de críticos e mesmo fãs que vêm o hard rock como um “guilty pleasure”, talvez por receio de parecerem menos metal ou menos sofisticados. Por outro lado, 90% dos fãs do género querem ouvir os mesmos Scorpions, Guns’n’Roses ou AC/DC de sempre – sem tirar mérito às bandas e ainda bem que continuam no ativo! – e não têm o mínimo interesse em conhecer bandas boas que surgiram depois deste género ser moda. E há bastantes, sobretudo na Europa. Para nós, o hard rock não é uma moda e a boa música não tem prazo de validade. Quem pensa o contrário, não sente aquela paixão genuína pela música. Felizmente, há os 10% que gostam a sério de hard rock e que não desprezam tudo o que surgiu nos últimos 30 anos. Não sinto que a escassez de bandas de hard rock em Portugal seja uma oportunidade. Preferia mais bandas e uma cena mais forte, com mais sinergias.

Como surge a editora dinamarquesa Lions Pride Music neste percurso e quais as mais valias que trouxe à banda?

Em 2023 decidimos gravar 3 músicas novas e lançá-las ainda nesse ano como singles separados, como sinal de vida, como apresentação do novo line-up e também para nos recolocarmos no mercado tendo em vista um novo álbum. Após lançarmos o 2º. desses singles, a Lions Pride Music contactou-nos e quis assinar contrato connosco, mesmo sem conhecer mais músicas! Eles disseram que ter ouvido a “Joke’s On You” tinha sido suficiente para perceberem o que podíamos valer. Nós não tínhamos pressa em assinar logo por uma editora, mas eles foram insistentes e convincentes com as condições que nos ofereceram. Voltámos a estúdio já com um contrato nas mãos, o que foi algo inédito para nós. Isso proporcionou um bom planeamento, sem necessidade de decisões tomadas em cima do joelho. E também é verdade que, depois de dois álbuns lançados por editoras norte-americanas, com muitos problemas alfandegários pelo meio, a nossa vontade era que o novo disco fosse editado por um selo europeu. Dito isto, só temos bem a dizer da Perris Records, que lançou o álbum anterior.  Por outro lado, a Lions Pride Music está em crescimento e tem uma presença forte no mercado asiático, sempre interessante para este estilo. E é um orgulho saber que o nosso disco está nas prateleiras da Tower Records no Japão!

Como está a ser a reação ao álbum?

De alguma surpresa, pelo facto de a voz do Tawny encaixar tão bem no nosso som. Era uma incógnita para quem está de fora! Há quem diga que estamos um pouco mais melódicos, quem diga que estamos um pouco mais heavy metal… Eu aceito tudo isso, já que foram sempre influências bem-vindas para nós. Também temos ouvido que é um album sem músicas para “encher chouriços”; todas podiam ser singles, o que nos deu alguma dificuldade na hora de os escolher, mas tudo aconteceu naturalmente, como a preparação do video oficial que lançámos já após a edição do álbum. Neste caso, escolhemos a “Never Grow Old” por ter um ambiente muito próprio – que se percebe no video -, talvez menos habitual nos Affäire por ser ligeiramente mais obscura, sem dúvida pelo facto dessa música ser inspirada no filme “Lost Boys”, um clássico de 1987 que adoramos.

Com “En Route” os Affäire fecham um ciclo ou abrem uma nova etapa?

Com “En Route”, retomamos o nosso caminho da melhor forma, após alguma turbulência. A verdade é que nunca parámos, fomos sempre trabalhando na sombra e a continuidade da banda não esteve em causa nem por um segundo. Nunca tivemos a vida facilitada, nunca procurámos o “hype” ou piscar o olho a estilos mais bem acolhidos pela crítica ou pelo mercado e sabemos viver com isso, seguindo em frente.

O que estão a preparar para 2025?

O novo álbum saiu já em finais de 2024 por isso ainda estamos em fase de promoção. Ainda tem que chegar a muita gente. Ao vivo, decidimos dar menos concertos do que fizemos em momentos semelhantes no passado, também pela realidade do mercado, o que não significa que estejamos menos ambiciosos, apenas mais criteriosos e realistas. Começámos a trabalhar com uma agência de booking, a Electric Chaos Productions, e um dos objetivos para 2025 é promover o disco ao vivo com algumas datas nacionais e também na Europa. Conhecendo-nos, calculo também que comecemos brevemente a compor nova música para um próximo trabalho.

Entrevista por Rosa Soares (Caminhos Metálicos).