Banner Top

Os Spiralist são um projeto musical originário do Porto, fundado em 2018 por Bruno Costa — compositor, multi-instrumentista e produtor cuja visão artística serve de âncora a toda a identidade sonora da banda. Inicialmente concebida como um projeto a solo, Spiralist foi ganhando forma e dimensão através da colaboração com outros músicos, sem nunca perder o foco criativo centrado na mente inquieta de Bruno. A proposta musical da banda navega entre paisagens densas e emotivas, tendo-se estreado em 2018 com o álbum “Nihilus” e cimentado o seu nome com o “Eternal Recurrence” de 2022.

Com o recém-lançado “Violent Feathers”, os Spiralist dão mais um passo firme na consolidação da sua linguagem própria — um disco que revela maturidade, ambição estética e uma produção cuidada, onde a brutalidade emocional convive com momentos de delicadeza melódica. À conversa com o Caminhos Metálicos, Bruno Costa partilhou o processo criativo por detrás deste novo trabalho, as influências que o moldaram e o caminho que tem vindo a trilhar desde os primeiros passos do projeto.

Como caracterizas a evolução sonora e lírica deste “Violent Feathers” em relação aos seus antecessores, nomeadamente o LP “Eternal Recurrence” e o EP “The Future EP”?

Temos designado o “Violent Feathers” como o nosso defining statement desde o momento em que anunciamos o lançamento do álbum. Tens, simultaneamente, muitos dos elementos que criaram os álbuns e EPs anteriores agregados num só trabalho, e também sonoridades novas e um foco muito maior em canções e a arte do songwriting no geral. Mas a maior diferença entre o “Violent Feathers” e os trabalhos anteriores é a honestidade das canções. Os álbuns anteriores já abordavam temas pessoais, mas protegi-me bastante através de metáforas e conceitos filosóficos que permitissem fugir ao desconforto que admitir que havia bastante trauma e situações não-resolvidas a alimentar esses trabalhos. Desta vez, dei por mim a fazer psicoterapia para finalmente abordar tudo isto e como isso estava a afetar as minhas relações pessoais, a minha visão do mundo e a minha autoestima, e poder finalmente ser brutalmente honesto levou-me a escrever canções brutalmente honestas.

Fala-nos um pouco sobre o teu processo criativo nos Spiralist.

O meu processo criativo teve dois períodos distintos até ao momento. Para os primeiros dois álbuns, o meu modus operandi consistiu em trancar-me em casa durante duas semanas e escrever e gravar um álbum em simultâneo, e aceitar o resultado final dessa abordagem. Para o “Violent Feathers”, passei dois anos a escrever e a gravar as canções, e diria que 30% do material que escrevi não entrou no álbum. Juntamente com mistura e masterização, trabalho audiovisual, e mais uma série de coisas, o processo de criação do “Violent Feathers” durou 3 anos.

Acima de tudo, no que toca ao processo criativo, começo pela questão mais importante e à qual tenho de responder com sinceridade: “o que tenho a dizer?”. E intuitivamente penso no universo do álbum e das canções: “o que quero que o ouvinte sinta?”; “como posso tornar isso autêntico?”; “estou a ser honesto nesta canção?”. Se tiver respostas claras para estas questões, o restante processo criativo torna-se muito mais claro.

O álbum conta com várias colaborações, inclusive de ex-membros da banda. Como foi trabalhar com estes músicos e porquê as escolhas efetuadas?

O “Violent Feathers” beneficiou de convidados incríveis, sem os quais o resultado final não seria o mesmo. Trouxeram todos uma energia muito característica, e isso elevou o trabalho. Para além da minha química pessoal com eles, é importante que tenham uma sensibilidade que encaixe perfeitamente no trabalho, e preciso de os conseguir visualizar intuitivamente no mesmo.

Tem sido francamente revelador aperceber-me de que comecei Spiralist para poder criar sozinho e nos meus próprios termos, e, no entanto, ter aprendido ao longo dos anos que ninguém é uma ilha.

A diversidade de géneros neste álbum é evidente, desde o alternativo ao industrial, shoegaze, entre outras. Foi desafiante fundir tantas sonoridades? E em termos de produção como foi o processo? O resultado final é o que esperavas?

A escolha das sonoridades, ainda que obviamente influenciada pelos meus gostos pessoais, obedeceu acima de tudo aos parâmetros ditados pelas canções. O meu trabalho é manter-me fiel à ideia do álbum, agir honesta e intuitivamente, e não ser excessivamente analítico nem contranatura.
No que toca à produção, não podíamos estar mais satisfeitos. Pessoalmente, detesto produção clínica e exageradamente polida, ao ponto de não sentir alma nenhuma na música, e sabia que o “Violent Feathers” pedia para ser desafiante, cinemático, e algo surrealista. O Ricardo Borges e o Tony Lindgren compreenderam o álbum perfeitamente, e deram-lhe a mistura e a masterização de que ele precisava para se destacar pela diferença.

Este trabalho foi desenvolvido durante um processo terapêutico. Ele próprio serviu de alguma forma de terapia?

Sim e não. Nada substitui psicoterapia com um/a profissional que saiba exatamente o que está a fazer e te consiga conduzir, ainda que nunca linearmente, da forma certa às questões que procuras. Mas senti também que, a partir de um certo momento, podia parar e deixar as canções e as letras tratar do resto. Por muito difícil que seja vir a público com canções sobre assédio sexual, trauma intergeracional e abuso psicológico e emocional, a psicoterapia permitiu-me resolver internamente estes problemas e ter coragem para escrever canções que são abertamente sobre estes temas.

O título “Violent Feathers” sugere uma dualidade, é isso mesmo que procuraras transmitir nas músicas, tal como é descrito, confortar os perturbados e perturbar os confortáveis?

“Art should Comfort the disturbed and disturb the comfortable” é sem dúvida um sentimento com o qual concordo a 100%. Senti-o mais do que nunca durante a conceção do “Violent Feathers”. Quanto a essa dualidade, é definitivamente intencional.

O álbum foi construído ao longo de três anos e as faixas seguem uma lógica de continuidade como se estivesses a contar uma história. Podemos afirmar que é um álbum conceptual?

Acho que podes considerar o “Violent Feathers” um álbum conceptual, mas a narrativa é propositadamente não-linear, e o álbum foi concebido de forma a recompensar várias audições para tornar o que está a acontecer e a ser dito mais claro. Pode ser preciso passar algum tempo a juntar as peças do puzzle para poderes ver a imagem toda.

Este trabalho apresenta uma abordagem bastante pessoal. O que esperas que o público retire deste “Violent Feathers”?

Quando estava a trabalhar no “Violent Feathers” e a fazer terapia, dei por mim a meditar sobre o poder da música e o quanto ela permite às pessoas conectarem-se, não se sentirem sozinhas, e sentirem-se vistas. É um dos principais motivos pelos quais decidi ser completamente franco em relação às minhas experiências neste álbum. Acho que a minha missão está cumprida se este álbum der conforto, força e coragem a ouvintes que estejam a precisar da empatia que merecem para confrontar os seus desafios e traumas. Fazemos todos parte do mesmo tecido social e precisamos de nos lembrar que não estamos sozinhos. De novo, ninguém é uma ilha.

De quem é a autoria do artwork da capa do álbum e qual a mensagem visual que procura passar ou representar?

Gosto de não revelar tudo no meu trabalho e dar espaço a algum mistério, mas posso dizer-te que a capa, bem como os videoclipes e a fotografia do trabalho, são da autoria dos Mestria, com os quais colaboro desde o “Nihilus”.

A apresentação ao vivo decorreu no Maus Hábitos no Porto. Como decorreu e qual a recetividade do público? Quais os planos para a promoção do álbum?

A apresentação correu muito bem, e o feedback foi ótimo. Queremos mais, e o público também. Veremos se os bookers sentem o mesmo. Temos mais algumas surpresas para 2025. Sugerimos que fiquem atentos.

Entrevista por Rui Teixeira (Caminhos Metálicos)