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Texto: Rui Teixeira.
Fotos: Edgar Silva (Caminhos Metálicos).

Evil Live Fest
Estádio do Restelo (Lisboa), 29.06.2025

Ao terceiro dia o calor continuou a não dar tréguas mas, mesmo assim, o festival esgotou com perto de 25.000 pessoas presentes durante a noite.

A tarde arrancou com uma das propostas mais promissoras da cena nacional: os Faemine. Com apenas um EP editado, mas já com uma presença sólida e coesa, a banda subiu ao palco com a confiança de quem sabe o que quer e com a ambição de conquistar novos públicos — e conseguiu fazê-lo com distinção.

O som esteve irrepreensível, permitindo que a densidade das composições e a agressividade das dinâmicas ganhassem ainda mais impacto. As guitarras afiadas, a secção rítmica demolidora e os vocais intensos formaram uma muralha sonora que não deixou ninguém indiferente.

Apesar de ser apenas a sua segunda atuação, os Faemine demonstraram uma notável maturidade em palco. A comunicação com o público foi espontânea, eficaz e cativante, gerando uma empatia que se refletiu na resposta imediata da plateia. Mosh pits intensos e sessões de crowdsurfing foram prova clara de que estavam a tocar às pessoas certas, no momento certo. O seu som, sombrio mas carregado de energia, assentou na perfeição no espírito do público que começava a encher o recinto àquela hora do dia.

O concerto de Gaerea no terceiro e último dia do Evil Live Festival foi, sem margem para dúvidas, um dos momentos mais marcantes de todo o evento. Uma atuação memorável que não deixou ninguém indiferente, quer fosse fã de longa data, quer um curioso apanhado pelo vórtice negro da sua atuação.

Desde o primeiro segundo, a banda entrou em palco com uma intensidade avassaladora. Nada de aquecimentos ou meios-gás: entraram a 200% e mantiveram esse nível do primeiro ao último minuto, como se cada riff e cada batida fossem uma afirmação de identidade e domínio absoluto.

A produção esteve ao nível das grandes ligas internacionais: jogos de luz intensos e inteligentes, nuvens densas de fumo a envolver o palco em mística, e um backdrop dinâmico com projeções visuais que amplificaram ainda mais a aura ritualística do concerto. Uma performance envolvente e cinematográfica que mostrou uma banda perfeitamente consciente do impacto que quer causar — e com todos os meios para o fazer.

O público respondeu com total entrega. O êxtase era palpável, e a ligação banda-plateia tornou-se rapidamente visceral. É importante destacar que, contrariamente ao habitual distanciamento que a banda costuma manter em palco, houve uma comunicação muito mais aberta e próxima com o público. Pequenas palavras e gestos que fizeram toda a diferença e aproximaram ainda mais os presentes da experiência quase litúrgica que é um concerto de Gaerea.

No ar ficou a sensação de que tudo passou demasiado depressa. Soube a muito pouco — não pela curta duração em si, mas porque a intensidade e a qualidade foram de tal forma elevadas que qualquer tempo pareceria insuficiente. Houve ainda um anúncio importante: dois concertos em nome próprio, um no Porto e outro em Lisboa, foram confirmados no final da atuação.

Vindos da Suécia numa substituição de última hora dos inicialmente anunciados Crossfaith, os Adept trouxeram ao Evil Live Festival um concerto intenso, onde a temperatura elevada serviu apenas para aquecer ainda mais os ânimos. “The hottest gig we ever did”, confessaram entre risos, apontando para o sol implacável e o calor abrasador que se fazia sentir em Lisboa — uma realidade bem diferente da habitual para estes nórdicos.

A banda celebra 20 anos de carreira e fez questão de revisitar várias fases do seu percurso, recuperando temas antigos que desencadearam reações entusiásticas do público. Houve ainda tempo para recordar os tempos em que partilharam palco com os portugueses More Than a Thousand — uma referência que não passou despercebida nem desvalorizada por quem segue de perto a cena metalcore e pós-hardcore.

Com um som de metal alternativo musculado, muito groove e breakdowns certeiros, os Adept souberam construir um concerto coeso, vibrante e altamente físico. A energia transmitida do palco para o público foi retribuída em força: mosh pits, braços no ar e um mar de cabeças em constante movimento criaram o cenário perfeito para um dos momentos mais eletrizantes da tarde.

Sem invenções nem artifícios, os Adept entregaram um espetáculo sólido, bem tocado e muito competente.

Os Jinjer são, hoje, a banda mais importante do metal ucraniano — e em cima do palco do Evil Live Festival provaram porquê. Com uma performance poderosa e tecnicamente irrepreensível, mostraram que não é por acaso que conquistaram um lugar cativo nos maiores palcos do mundo.

A consistência da banda impressiona: todos os músicos mostram um controlo absoluto sobre a complexidade das composições, mas é impossível não centrar atenções em Tatiana Shmayluk, uma frontwoman absolutamente magnética. A forma como domina o palco, do primeiro ao último minuto, é exemplar — seja com o seu carisma, presença ou impressionante versatilidade vocal. As passagens entre registos melódicos e guturais são simplesmente perfeitas, e continuam a deixar o público entre o espanto e a admiração.

Com o sol a começar a descer sobre o Estádio do Restelo, o ambiente tornou-se ainda mais especial. O público, sempre entregue, correspondeu em força, mantendo níveis de energia altíssimos ao longo de todo o concerto. Tatiana, visivelmente emocionada com a receção, surpreendeu ao dirigir-se ao público em português e deixou uma frase que arrancou aplausos imediatos: “Portugal, you are one of the most beautiful people in the world.”

O final foi de apoteose, com duas das músicas mais emblemáticas da banda a encerrarem o alinhamento: “Perennial” e, claro, a incontornável “Pisces”, que continua a ser um verdadeiro manifesto sonoro da identidade dos Jinjer.

Antes de se despedirem, deixaram uma promessa que arrancou mais uma onda de entusiasmo: voltarão a Portugal em fevereiro de 2026. E depois deste concerto, é seguro dizer que serão recebidos de braços ainda mais abertos.

Os Falling in Reverse fecharam a sua digressão europeia em grande estilo no palco do Evil Live Festival, perante uma audiência vibrante que voltou a comprovar o crescimento da base de fãs da banda em Portugal — algo que já tinha ficado bem evidente quando esgotaram o Campo Pequeno meses antes.

O concerto começou com um momento cinematográfico: ao som de “Highway to Hell”, os ecrãs mostraram imagens em direto da banda no backstage, desde os últimos preparativos até à entrada triunfal em palco. Foi o primeiro de vários momentos cuidadosamente encenados, que confirmaram que Ronnie Radke é muito mais do que um vocalista — é um verdadeiro entertainer, com presença, carisma e sentido de espetáculo.

Entre cada faixa, Ronnie manteve uma interação constante com o público, equilibrando humor, provocação e empatia. A dada altura, lançou o desafio: “Put your hands up if you are an asshole” — ao qual milhares de braços se ergueram com sorrisos. “That’s great, because I AM one too”, respondeu, arrancando gargalhadas e aplausos.

Um dos momentos mais inesperados aconteceu a meio do concerto, quando a banda começou a abandonar o palco um a um. De repente, surgem imagens em direto de Ronnie no backstage a cantar “NO FEAR” em modo rap — uma performance desconcertante, ousada e eficaz, que manteve o público agarrado aos ecrãs.

Antes do inevitável “Popular Monster”, Ronnie pediu para que todos acendessem as luzes dos telemóveis para capturar o momento. O que se seguiu foi pura loucura: um mar de luzes, mosh pits e vozes em uníssono, numa das interpretações mais enérgicas e celebradas do festival.

O encerramento fez-se com as duas faixas mais pesadas do repertório: “Ronald” e “Watch the World Burn” — esta última um verdadeiro manifesto sonoro que resume bem o ADN da banda: peso, rap, eletrónica e atitude. O virtuosismo vocal de Ronnie Radke, alternando entre estilos com uma fluidez impressionante, foi um dos pontos altos da noite.

Com um espetáculo pensado ao detalhe, cheio de teatralidade e momentos marcantes, os Falling in Reverse mostraram por que continuam a dividir opiniões… e a conquistar plateias. Para os fãs do género, foi um concerto memorável — e um final de tour absolutamente explosivo.

O terceiro dia do Evil Live Festival teve o seu momento culminante com aquele que foi, sem margem para dúvidas, o concerto mais aguardado do fim de semana. Com o Restelo a rebentar pelas costuras, os Slipknot foram os responsáveis pela maior enchente dos três dias, e corresponderam com um espetáculo de intensidade brutal, peso demolidor e ligação emocional com o público como poucos conseguem fazer.

Um atraso de cerca de quinze minutos em relação à hora prevista serviu apenas para aumentar ainda mais a ansiedade entre as dezenas de milhares de fãs que enchiam o estádio. Mas mal soaram os primeiros acordes, foi como acender o rastilho de uma bomba pronta a explodir: a abertura foi feita a todo o vapor, numa descarga sonora que pôs imediatamente o público em ebulição.

Logo na primeira pausa entre temas, Corey Taylor tomou um momento para reconhecer a ausência notada em palco: Shawn “Clown” Crahan não pôde viajar com a banda por razões familiares, algo que foi recebido com compreensão e respeito pelo público português. A ausência foi reconhecida, mas a presença da banda foi sentida com todo o peso habitual — e talvez até redobrada intensidade.

Uma das grandes surpresas da noite foi a inclusão da faixa “Gematria (The Killing Name)”, tocada apenas pela segunda vez em território nacional. Um presente para os fãs mais atentos, que reagiram com entusiasmo a esta pérola do “All Hope Is Gone”.

Os momentos de comunhão foram muitos, mas nenhum tão marcante como quando o estádio inteiro se uniu em coro para cantar “Unsainted” e “Duality”, duas das mais icónicas e catárticas faixas do catálogo da banda. A relação entre a banda e o público português voltou a mostrar-se especial: Corey falou em várias ocasiões com carinho e emoção, agradecendo profundamente os 26 anos de apoio que permitiram à banda viver do que ama — fazer música e partilhá-la com fãs como os que estavam ali, naquela noite.

A meio do concerto, esse agradecimento transformou-se num verdadeiro momento de comunhão emocional, com o público a retribuir com aplausos, gritos e mosh pits constantes. Já no encore, houve ainda tempo para mais uma nota de humildade: um agradecimento às bandas que passaram pelo festival, num gesto de respeito e espírito de comunidade que contrasta com a imagem brutal e caótica que os Slipknot transportam em palco.

O encore foi absolutamente arrasador, culminando num momento absolutamente insano com “Spit It Out”, que pôs todo o estádio — literalmente — a gritar, saltar e libertar tudo o que ainda restava de energia. Como derradeiro ato, e num final glorioso, a banda fechou com “Scissors” (aparentemente numa versão bastante estendida), onde Eloy Casagrande, o novo reforço na bateria, deu um verdadeiro espetáculo de técnica e fúria, provando estar mais do que à altura do legado da banda.

Foi um concerto para a história, daqueles que se contam anos depois como um momento único — e uma despedida à altura de um festival que se afirma como um dos gigantes do circuito europeu.

Infelizmente o Caminhos Metálicos não teve a oportunidade de captar fotografias dos Slipknot para esta reportagem.