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Os ANZV surgiram de rompante em 2022 com o seu álbum de estreia “Gallas”, envolvidos numa aura de mistério e com uma identidade visual e musical já muito bem definida. Na altura foram disco do mês do Caminhos Metálicos (algo que se repetiu com o novo disco no mês passado) e a intensidade dos seus concertos ajudou a cimentar a posição da banda no panorama nacional e não só. Em maio editaram “Kur”, o seu novo disco pela norueguesa Edged Circle Productions e estão a meio dos eventos de lançamento deste álbum, tendo já atuado no RCA Club (Lisboa) e agendado para este sábado, dia 7 de junho, a presença no Mouco (Porto).

De forma a manter a bruma que paira sobre a identidade da banda, o guitarrista M. acedeu a responder a algumas das nossas questões por escrito.

Qual o balanço que fazem do “Gallas” e das reações que o disco teve? Atingiram os objetivos a que se propuseram inicialmente com este trabalho?

O “Gallas” surgiu quase como um manifesto instintivo, sem uma expectativa concreta de exposição. Inicialmente, nem sequer foi pensado para ser tocado ao vivo. No entanto, a resposta superou todas as nossas previsões — a receção foi extremamente positiva, o que nos levou a relançá-lo através de outra editora, alargando o alcance do álbum a outros países. A partir daí, começámos a perceber que ANZV podia e devia evoluir. Nesse sentido, “Gallas” cumpriu e até superou os seus objetivos iniciais, abrindo caminho para aquilo que viria a ser “Kur”.

Dos vários concertos que deram para promover este disco, houve algum que vos marcou especialmente?

Os concertos de celebração do aniversário de “Gallas” no Porto e em Lisboa foram profundamente marcantes. A reação do público deixou-nos sem palavras — a sua capacidade de absorver cada segundo da atuação foi algo de excecional. Foi pura comunhão. Também guardamos uma memória muito especial da nossa estreia em França, especialmente em Limoges, e da tour com os Gaerea, onde cidades como Barcelona e Palma nos deixaram uma marca profunda. A intensidade da ligação com o público nesses concertos foi algo que permanece connosco até hoje. Há uma ligação real nestes momentos — deixam de ser concertos e tornam-se rituais.

No processo de composição para este novo disco houve alguma mudança significativa na forma como trabalharam para criar estes temas? Compuseram os temas com uma ideia geral em relação ao resultado musical final ou as coisas foram surgindo mais naturalmente?

O processo em “Kur” foi muito mais meticuloso e consciente. A estrutura dos temas, embora nascida de impulsos naturais, foi mais cuidadosamente esculpida. Houve também uma preocupação reforçada com os arranjos vocais — quisemos que a voz não fosse apenas uma camada, mas um instrumento vivo, emocionalmente dinâmico e simbólico. O objetivo foi criar uma obra que respirasse por si mesma, com uma identidade coesa, quase ritualística.

Neste disco entramos no submundo da Mesopotâmia, podiam explicar o conceito que existe neste “Kur”?

“Kur” é o nome do submundo sumério, um reino onde as almas existem numa forma sombria e desprovida de julgamento moral. É uma continuação da existência, mas despida de redenção. Cada faixa do disco é uma invocação — uma lente para diferentes aspetos desse submundo e das entidades que o habitam. Não é uma narrativa linear, mas uma viagem atmosférica e simbólica através da morte, da transformação e do vazio.

De onde vem a inspiração para abordarem estas temáticas relacionadas com a Mesopotâmia?

O conceito de ANZV surgiu-me pela primeira vez enquanto pesquisava textos sumérios para o meu outro projecto, Epping Forest. Fiquei profundamente marcado pela crueza daquela visão do submundo. Kur não é um local definido por moral ou justiça, mas pela inevitabilidade da morte. O interesse nestas mitologias nasce do seu realismo cruel. A cosmologia suméria não oferece redenção — em Kur não há julgamento, apenas consequência. É uma visão do pós-vida despida de conforto, como se vê em temas como “Sahar”, onde a alma é libertada para o nada, restando apenas pó e silêncio. Estes mitos antigos funcionam quase como horror existencial moderno. Figuras como Ereshkigal, Imdugud e Lamashtu não são apenas entidades míticas — são arquétipos da decadência imparável, da transformação inevitável. As suas histórias forçam-nos a encarar aquilo que está por baixo de tudo: o medo, a morte, a nossa própria insignificância.

Que novas influências ou elementos procuraram incorporar em “Kur”?

Em “Kur” aprofundámos a densidade e a intensidade sonora. Comparado com “Gallas”, é um disco mais estruturado e deliberado, com camadas mais complexas e um foco maior na atmosfera. Incorporámos dissonância, silêncio e tensão de forma mais consciente, usando cada elemento para amplificar o peso existencial dos temas. A nível vocal, explorámos uma maior diversidade emocional, com variações que refletem a viagem interior de cada faixa — da ruína à transcendência. Toda a produção foi pensada ao detalhe, com o objetivo de criar uma experiência imersiva, ritualística e transformadora.

Que tipo de reações têm recebido até agora por parte do público e da crítica aos singles que têm saído?

As reações têm sido avassaladoras. Há uma intensidade emocional nas mensagens que recebemos — muita gente diz sentir um impacto quase espiritual. Os vídeos lançados para “Shamash”, “Edimmu” ajudaram a aprofundar essa ligação, pois são mais do que vídeos promocionais — são portais para a experiência “Kur”. Mesmo o vídeo para o single “Imdugud” abriu um portal para aos fãs para poderem contemplar como surgiu todo o conceito da capa do álbum que foi inteiramente desenhada pelo nosso vocalista A.

O que gostariam que os ouvintes sentissem ou refletissem ao escutar este disco?

Não procuramos conforto, procuramos confronto. “Kur” é um caminho descendente — queremos que quem escute sinta a densidade, o vazio, a beleza crua da perda. Que encarem o disco como uma travessia, e que regressem, se regressarem, transformados.

Para além dos concertos de apresentação em Lisboa e no Porto, que planos existem mais para promover este disco ao vivo?

Além desses dois concertos, estamos a trabalhar para tentar conseguir para levar o disco a outros países. Alemanha, Bélgica e Países Baixos são prioridades, dada a recetividade que temos sentido na compra do álbum. Queremos que o ritual “Kur” possa ser vivido ao vivo em todo o seu potencial — não apenas como concerto, mas como imersão.

Vocês já tiveram breves passagens ao vivo por França e Espanha. Está nos vossos objetivos levar a vossa sonoridade para palcos mais distantes?

Sem dúvida. França e Espanha acolheram-nos de forma impressionante. Acreditamos que ANZV tem uma linguagem que ultrapassa fronteiras e, por isso, estamos focados em expandir o alcance dos nossos concertos — com o objetivo claro de chegar a novas geografias e novos públicos dispostos a embarcar nesta descida ao abismo.

A vossa componente visual sempre foi bastante forte, quer em termos promocionais quer em palco. Julgam que isto é fundamental para a experiência completa de vermos e ouvirmos ANZV?

Sim. A estética visual é uma extensão do som. Desde o artwork do álbum, criada por A., até aos vídeos e visuais ao vivo, tudo é pensado para amplificar a experiência. O que se vê é uma projeção simbólica da viagem interior que é ANZV. Queremos que cada detalhe contribua para uma experiência sensorial completa, quase xamânica.

Uma mensagem que queiram deixar aos nossos leitores…

“Kur” não é apenas um álbum — é uma jornada. Uma travessia sem promessas de retorno. A todos os que já ouviram ou ainda vão ouvir: avancem sem medo, mas conscientes de que poderão não regressar iguais. Obrigado aos Caminhos Metálicos e a quem partilha esta jornada connosco.

Entrevista por Carlos Guimarães (Caminhos Metálicos)