Os Congruity são um trio escalabitano com mais de duas décadas de presença no heavy metal português. Munidos de uma identidade própria, evocam um registo de um death metal, mesclado com uma pitada de black metal, a par de uma técnica e precisão que não passam despercebidas.
Face ao seu mais recente lançamento, “Inferno” (2024), pudemos conversar um pouco com Jorge André (JA) e Victor Sapage (VS), no sentido de percebermos a essência que está por trás deste EP, assim como descortinarmos a gnose do percurso e da carreira dos Congruity.
Uma banda com mais de 25 anos de carreira profissional. Ainda se recordam de quando e como foi a vossa primeira atuação?
JA: Recordo-me de ter sido no MNA, ainda éramos 5 e como habitual fomos os últimos a sair do recinto, por volta das 7 horas da manhã no dia seguinte.
VS: Perfeitamente! Como habitual, fomos os últimos a sair do recinto.
Um trio que se juntou para produzir uma fusão entre um black e death metal. Inicialmente, era este o vosso projeto? Pergunto devido às vossas antigas bandas: Scale of Justice e Edenial Lust.
JA: Eu nunca toquei nestas bandas anteriores, conheço a rapaziada, mas creio que este resultado não foi planeado, faz parte de uma evolução conjunta que se foi aprimorando ao longo do tempo, o conjunto de três visões, por vezes, diferentes acabam por ditar este resultado final, em que a sonoridade resulta do consenso encontrado entre todos.
VS: Inicialmente o black metal com teclados sempre foi uma influência em todos os elementos da banda, mas depois da saída da nossa teclista no início, a Tânia, a influência do death metal surgiu naturalmente, porque todos os elementos da banda na altura eram e continuam a ser grandes consumidores de death metal.

Sentiram que desde o vosso primeiro álbum, o grupo amadureceu musical e pessoalmente?
JA: O grupo amadureceu mais desde que se tornou um trio, tornou-se mais rápido, eficaz e eficiente na tomada de decisões importantes, que vão da composição à gestão do percurso da banda, artwork, merchandise, etc., tudo é discutido e decidido em conjunto.
VS: Sem dúvida. Como o Jorge refere, desde que nos tornámos num trio, evoluímos bastante como banda. Estamos sempre em sintonia e fazemos acontecer as coisas quando necessário e não só.
Como foi a colaboração com os Hate Disposal? Ponderam futuramente uma nova com outras bandas?
JA: A colaboração com os Hate Disposal foi uma oportunidade que infelizmente não teve o alcance pretendido devido ao Covid-19, em grande parte deveu-se à amizade de longa data que temos com o Peter, o baixista, e ao Marco da Bonesaw que nos fez a proposta. Num mundo perfeito, sem a pandemia, teríamos tocado vários concertos em conjunto.
VS: Estamos sempre abertos a novas ideias. Venham elas. Ideias não nos faltam.
No novo EP “Inferno”, temos algumas faixas cantadas na vossa língua materna e outras em inglês? Alguma razão em especial?
JA: Creio que não tem de haver uma razão especial para mostrar ao mundo que se pode fazer metal em português, não é uma questão de orgulho, é só para que saibam que somos tugas.
Temos também uma menção honrosa a Fernando Pessoa. Quem diria que o heavy metal assentaria que nem uma luva com a cultura portuguesa.
JA: A nossa cultura, a nossa história assentam no heavy metal muito antes deste ser sonhado Na corrente literária, conhecida como romantismo, já temos algumas bases do metal de hoje, a adoração pelo “dark side”, os cemitérios, a morte, a dor , tudo temas abordados por poetas portugueses de outros tempos. Temos também o famoso Galo de Barcelos que vem do além cantar de pescoço cortado!
Em relação ao tema, que dá nome ao EP, foi composto no dia 17 de junho de 2017, devido aos trágicos acontecimentos desse dia decidimos dar o nome Inferno à música, na altura sem letra, só o instrumental. A letra, surgiu posteriormente em que fizemos uma adaptação ao poema original maioritariamente por questões de métrica, mas de forma que o sentido original não seja alterado de forma significativa.

Ao longo do EP temos a introdução de partes melódicas, alternadas com alguns elementos naturais. Podemos dizer que os Congruity primam pela inovação e audácia em saltar fora do estereótipo do black/ death metal e integrar novos temas?
JA: Na verdade eu não sei se somos uma banda somente black/ death metal, temos tantas influências de diferentes sonoridades distintas, desde a música clássica, o rock, o punk, até ao metal mais extremo, de uma forma ou de outra essas influências vão surgir e vão estar nas nossas composições mesmo que a maioria não se aperceba. Posso dizer que no nosso álbum, de 2018, temos uma música com quatro compassos ternários, como estão seguidos parecem dois compassos de seis tempos, é uma espécie de valsa, mas ninguém se apercebe.
VS: Nunca tivemos medo de arriscar em nada. Talvez neste EP mais recente se note mais as influências de cada elemento da banda. Com a banda, sempre tivemos uma ideia bastante direta do que queremos tocar, que anda ali entre o death e o black metal. Mas, individualmente, cada elemento da banda tem gostos diferentes em bastantes coisas. Para vos dar um exemplo, na minha colecção de discos, encontras facilmente Frank Zappa, Darkthrone, Mozart e Morbid Angel na mesma prateleira. Somos fãs de boa música.
O artwork faz jus à vossa identidade musical. Querem explicar o motivo que vos levou a eleger tal infernal capa?
JA: Gostámos todos do artwork, logo assim que surgiu, nem tivemos dúvidas, – é mesmo isto – dissemos nós. Coincidência ou não surgiu na altura certa, andávamos à procura de algo que fosse a nossa identidade como banda e eis que surge a publicação numa rede social com aquele quadro, tinha que ser nosso.
VS: Curiosamente umas semanas antes de encontrarmos o artwork, tinha falado com o Jorge que a minha ideia, cores, etc, era mais ou menos aquilo. Como grande fã dos artworks do Nuno Zuki que sou, numa noite andava a fazer um scroll na página dele e vi que ele tinha metido aquilo online há pouco tempo. Mostrei à malta, todos adoraram à primeira. Mandei mensagem ao Nuno e ficámos com o artwork. Era mesmo aquilo que procurávamos.
Por onde vão andar em 2025?
JA: Espero que tenhamos a oportunidade de mostrar este novo trabalho ao vivo em locais e ou eventos que nunca tenhamos frequentado como banda, dar a conhecer a quem ainda não conhece Congruity e quem sabe conquistar o mundo (só a metade que foi nossa).
VS: Em março, no dia 15, vamos estar em Lamego, no Lamaecum Metalfest, e temos mais umas datas por confirmar ainda. Este ano, em novembro, fazemos 25 anos, por isso, mantenham-se atentos às nossas páginas.
Entrevista por André Neves (Caminhos Metálicos).



