Desde 1992 que Belathauzer tem carregado a cruz invertida dos Filii Nigrantium Infernalium (FNI). O EP de 1995 “A Era do Abutre” é ainda hoje um dos marcos do black metal nacional, numa carreira cimentada com discos da qualidade de “Fellatrix Discordia Pantokrator”, “Pornokrates: Deo Gratias” ou “Hóstia”. Nos últimos trabalhos os FNI têm sabiamente misturado elementos do thrash e heavy metal com as suas raízes black metal. Em novembro de 2024 editaram – mais uma vez pela francesa Osmose Productions – o seu mais recente álbum, intitulado “Pérfida Contração do Aço”. Sempre corrosivo e direto, o Monseigneur Belathauzer saiu da sua masmorra para responder às questões do Caminhos Metálicos.
Este vosso quinto álbum surge seis anos após o lançamento do “Hóstia”. Que balanço fazes da promoção e do impacto desse disco?
O “Hóstia” funcionou perfeitamente, para os nossos objetivos, que são fazer os melhores discos que conseguimos. Quanto à promoção e ao impacto, a música do LP chegou a quem tem interesse na banda… que é suficiente. Não precisamos de alargar supostas “bases de fãs” nem merdas do género. O impacto, sei lá, em nós teve o melhor impacto possível. É um disco do caralho, que tem riffs e ritmos e vozes fodidas e isso é o que nós queríamos mesmo.
O disco funcionou bem ao vivo, e também ao morto. Foi esse disco que chamou a atenção da Osmose, e está um belo objeto artístico, com destaque para a capa.
Mais uma vez, e infelizmente, tivemos que esperar muito tempo por um novo disco dos FNI. O que motiva este longo hiato entre lançamentos da banda?
Bem, nós não vivemos da música, uns dias diria que infelizmente e outros, a maior parte deles, que felizmente. Só editamos quando temos material a um certo nível, e é assim mesmo. Não somos uma roulote de bifanas musicais. Isto não é para nós um part-time ou o hobby dos fins de semana. Isto é o maior dos objetivos, é a criação, aliás, a má criação artística. Está acima de vulgaridades que suportam esta mera “vida”, como o trabalho, a pátria ou os deveres quotidianos. É o valor mais elevado. E daqui decorrem algumas respostas a outras perguntas da entrevista.
Este disco marca a estreia em gravações de um novo guitarrista, aqui apresentado como Cardeal Aborto XIII. Qual o impacto que ele teve na composição deste novo trabalho?
O Cardeal Aborto XIII deu uma contribuição impressionante tanto na composição como na própria gravação do álbum. Entrou na banda como se tivesse sempre feito parte da banda. Imagina que eu faleço um dia destes, sei lá, atropelado por um camião ou mesmo por um elétrico, ou com “Sida de Alá”, se a banda continuasse teria de mantê-lo na banda.

O que significa para ti este título do disco “Pérfida Contracção do Aço”?
É uma combinação de conceitos que aparentemente nada significa, mas que tem para mim imenso sentido e que carrega um sarcasmo indizível em relação a lembranças recentes.
Está carregado de sarcasmo e como se diz em espanhol, de “mala hostia”, de bílis. No dia em que explicar o sentido, deixará de o ter. Lamento. Aliás, não lamento nada.
Se não contarmos com “O Gelo” da vossa primeira demo, nunca tinham, julgo eu, lançado um tema tão longo como “Vaticanale”. De onde veio a inspiração para esta música que está cheia de fantásticos pequenos/grandes pormenores e com a letra em italiano.
Muito obrigado pelo elogio. É um tema longo, de facto. E é curiosa essa associação com “O Gelo”, porque os principais riffs da “Vaticanale” foram criados após eu dizer na sala de ensaio “Vamos fazer temas à Batherion” (que é o mesmo que dizer “O Gelo”, de “Os Métodos do Pentagrama), riffs lentos e de uma parte rápida à Sarcófago. A parte rápida à Sarcófago (ou à Thormenthor 1989) ficou para a “Comes Carne”. Mas quanto à “Vaticanale”, que começou como tema muito cru e de riffs básicos, em estúdio a cena foi evoluindo e fui tendo ideias. Comecei a meter convidados (há também uma convidada, por sinal: Sóror Mefisto), para trompeta (Obesus Morbidus), ou nas vozes (destaco o Lex Thunder de Toxikull). A trompeta surgiu de uma ideia que tive e que parcialmente consegui levar a termo: este LP vai ser o nosso “Into the Pandemonium” (para quem detesta ou despreza esta obra prima dos Celtic frost, pode pensar no “To Mega Therion”… ). Neste disco vamos meter tudo o que quisermos e acharmos suficientemente estranho ou inesperável, tanto faz, aquilo que ajude a tornar o disco único, e não saímos do estúdio até isso acontecer. E foi o que fizemos. As trompetas, por exemplo, foram tocadas por um trompetista que também criou as orquestrações para este e outros temas, para os quais contámos com a colaboração brilhante do Antim Batchev (ex-Toxikull) no violino – sim, ele é violinista – e a mãe dele, no contrabaixo. Com partitura escrita por Obseus Morbidus, especialista em clássica (foi o barroco que nos ligou inicialmente) e em black Metal mas também grande fã dos Maiden ou dos Manowar dos velhos tempos. Lex Thunder tem aquela voz perfeitamente heavy metal e as sessões de gravação foram horas de quase libidinoso prazer estético. Acima de tudo, a arte. O resto existe para sustentar a arte. Coisas que não servem para nada, como o futebol ou a religião pós-barroca, são inúteis e devem ser exterminadas.

Podias explicar o conceito da capa do “Pérfida Contracção do Aço”?
O conceito é o que se vê: cada qual pode extrair um significado, ou pelo menos uma experiência estética da qual possa advir um qualquer significado. Seja como for, isto é a minha representação das 3 religiões hegemónicas no mundo, as 3 monoteístas principais. Odeio igualmente qualquer uma das três e desprezo qualquer merda religiosa.
Quando pensam começar a apresentar o novo álbum ao vivo?
Sei lá. E tu, quando apresentas o teu novo álbum ao vivo? A única banda que me apetece ver ao vivo são os Vizir e os Bathory.
Estando os FNI numa editora internacional do calibre da Osmose, nunca sentiram a pressão da editora para tocarem ao vivo no resto da Europa?
Não, é uma das razões por lá continuarmos. Se não, escolheríamos logo a Vidisco.
Queres deixar alguma mensagem final para quem for ler esta entrevista?
Se tiverem amor a Deus, matem-se, por amor do dito cujo e pela sua infinita misericórdia. A morte é real.
Entrevista por Carlos Guimarães (Caminhos Metálicos).



