Sigilo, o projeto a solo de Svelmord, lançou o seu primeiro trabalho “Sermão”, uma obra de devoção a Satanás que procura romper barreiras no black metal nacional. É uma das mais recentes apostas da Alma Mater Records e estivemos à fala com o seu mentor sobre o passado, o presente e o futuro dos Sigilo
Conta-nos um pouco da história de Sigilo, como apareceu este projeto?
No ano de 2019, o meu projeto anterior (Mournkind) chegou ao fim e, com isso, surgiu também uma oportunidade de encontrar uma nova claridade e um novo propósito. Foi então que decidi criar Sigilo, um projeto onde adotaria uma abordagem completamente diferente, mais íntima e solitária. Tudo seria feito por mim, desde a composição até à gravação, como forma de expressão total e sem filtros. Sigilo nasceu dessa necessidade de isolamento criativo, de transformar silêncio em som e contemplação em devoção. Costumo até dizer que sou apenas um vassalo de Sigilo.
E o seu mentor Selvmord, quem é? Qual a formação, influências e percurso musical
Tendo em conta que as composições são da minha inteira responsabilidade, posso dizer que, antes de mais, sou o meu próprio mentor. No entanto, é claro que tenho influências musicais das quais não podemos excluir nenhuma das bandas primordiais da segunda vaga do Black Metal — Mayhem, Burzum, Satyricon, Gorgoroth, entre outras. Nos meus trabalhos existem também alusões a bandas que considero das minhas favoritas, como Behemoth, Immortal e Lifelover.
Em termos de percurso musical, comecei a compor com apenas 16 anos de idade, e criei, entre outros, o projeto Mournkind (Black Metal) e, mais tarde (também a solo) o projeto Natt (DSBM), ao qual ainda faço algumas visitas esporádicas. A parte verdadeiramente importante veio quando decidi investir tempo na produção e fazer um longo e exigente trabalho de casa. É nesse processo de autoformação e dedicação que nasce Sigilo.
Como surgiu a oportunidade de trabalhar com a Alma Mater Records e a edição do Split “Sermão” juntamente com os Luxúria de Lilith?
Há quem diga que o comboio só passa uma vez. Por isso, quando vi a minha oportunidade de embarcar, fui com tudo. Grande parte do “trabalho de casa” que referi na pergunta anterior consistiu em pedir indicações a um grande profissional, o Guilhermino Martins (Serrabulho e Blind and Lost Studios), sobre o processo de gravação, e em aplicá-las da forma mais perfeita possível. O objetivo era claro: “Gui, a minha música tem potencial, e eu quero chegar a uma editora a sério!”
O processo foi rígido, mas ao levá-lo até ao fim, consegui um trabalho digno de ser apresentado à Alma Mater Records. Um dia, entreguei o trabalho ao Fernando Ribeiro, e meses mais tarde ele deu-me a notícia: queria lançar Sigilo, começando por um Split com uma banda brasileira, unindo os nossos países pelo Black Metal uma primeira vez.
Seguiu-se um período de análise, e acabámos por escolher Luxúria de Lillith para ser a outra metade do Split. Ao ser contactado por mim, o Alysson aceitou, e o resto é história.

Quão importante é para o projeto ter o apoio da Alma Mater Records que é, por si só, um selo de garantia?
Este era o objetivo principal, e o facto de o ter conseguido realizar dá-me um verdadeiro selo de garantia e qualidade. No entanto, o trabalho nunca está acabado. Há muita música minha para lançar e muita gente para a ouvir. Por isso, cabe a cada um de vós, leitores e ouvintes, fazerem também a vossa parte: ouvir o Sermão, seguir Sigilo e partilhar com todos, com o mesmo orgulho com que eu e a Alma Mater o fazemos.
Sobre o split “Sermão” e os quatro temas de Sigilo, quais as temáticas abordadas e qual a mensagem que pretendes passar? Quais são as fontes de inspiração quando compões tanto a nível de musical como de letras?
A temática principal nos meus temas é o desdém pela religião, expressado através de conceitos satânicos e profanos. Sigilo fala da destruição de Deus enquanto ideia, e da sua substituição quase irónica por Satanás. Isto porque os valores hipócritas e castradores da Igreja Católica já não pertencem aos nossos tempos. Satanás, para mim, é o símbolo da revolta, da liberdade, e o “Mal” que anda à espreita é, na verdade, a nossa consciência coletiva a despertar e a libertar-se da lavagem cerebral da religião.
A faixa “Somber Prayer For The Ostracized”, em específico, serve de lembrança acerca do flagelo dos incêndios que assolam o nosso país de tempos a tempos (no caso, da minha experiência em 2017, e agora de 2025), e dos heróis que são esquecidos, aqueles que não lutam por nenhum deus, mas por todos os que morrem e por todos os que vivem, pela sua própria vontade.
Há que ter um estado de espírito muito específico para fazer acontecer Sigilo. Diria até que é preciso o próprio Sigilo querer manifestar-se através de mim. Essa é a minha verdadeira inspiração: uma sensação de desdém total, completa com a claridade e o propósito de que falei no início desta entrevista.
Numa perspetiva menos poética, reconheço que Aleister Crowley e as suas publicações tiveram influência direta nas minhas letras. O segundo tema do Split, por exemplo, chama-se “Preliminary Invocation”, o mesmo título de um poema da Goetia que recito no final da faixa.
Ainda assim, há várias obras literárias e musicais que influenciam o meu processo criativo. No fim, tudo se resume à minha vivência, um aglomerado das experiências, leituras e sons que moldaram as minhas crenças e a minha visão do mundo. Assim sendo, posso afirmar que toda a minha história de vida tem relevância direta naquilo que Sigilo representa.
Este “Sermão” é um aperitivo para o que podemos esperar com o LP “Gloria ad Inferi”? Digamos que haverá uma continuidade e uma ligação entre estes dois trabalhos?
Posso adiantar o seguinte: quem gostou do Sermão não terá argumentos para justificar que não goste do Gloria Ad Inferi. Preparem-se para a versão extended do Sermão.

Sendo um projeto solo, tiveste a colaboração de algum outro músico no split e no futuro LP?
A única colaboração que tive até agora foi com o Guilhermino Martins, que ajudou nas partes técnicas da gravação e deu algumas sugestões de melhoria. Todo o trabalho foi feito remotamente, a partir da minha casa. Talvez num terceiro trabalho surjam outras colaborações. Tenho até um par de vocalistas que gostaria de desafiar… quem sabe o que poderá acontecer.
Teremos oportunidade de ver Sigilo ao vivo? Existe alguma coisa já confirmada ou em preparação nesse sentido?
2026 será o ano em que Sigilo irá a palco. Já tenho dois músicos excelentes a ensaiar: Marcus Reis na bateria e Carlos Amado no baixo, e tudo indica que as primeiras atuações acontecerão no início do ano. Posteriormente, estou a equacionar a possibilidade de tocar em alguns festivais de verão, caso surjam oportunidades.
De uma forma mais geral, como vês o cenário do black metal em Portugal e no resto do mundo?
Podemos começar pela parte difícil. Em Portugal, na minha opinião, existe uma dualidade prejudicial à qualidade e à expressão do Black Metal nacional. Considero que querer fazer música para ninguém ouvir é um contrassenso. Muitas bandas de qualidade acabam por perder devido a isso e às divisões existentes na nossa cena.
Procurar chegar ao máximo de ouvintes, para muitos, “não é Trve”. Mas é necessário ter sentido de realidade e perceber que nenhuma banda de sucesso publica música apenas para um núcleo elitista. Quem quer permanecer no anonimato simplesmente não se expõe publicamente. Sei que esta opinião é algo controversa e que posso perder alguns amigos por expressá-la, mas acredito que o caminho para o sucesso está em trabalhar para ele, e não contra ele, de preferência em uníssono, e não uns contra os outros.
Quanto ao resto do mundo, é difícil generalizar, mas há muitos países onde a cena funciona melhor, porque existe mais união entre o público e as pessoas apoiam a arte. Não há aquela síndrome de inveja que nós lusos muitas vezes sentimos e que nos impede de dar reconhecimento ao trabalho dos nossos pares.
Quais os objetivos e horizontes vês para este projeto e que te propões a tentar cumprir?
Nunca parar de criar e levar a música de Sigilo ao maior número possível de pessoas. Pretendo continuar o legado que comecei, elevar o nome de Sigilo a patamares mais altos e fazer tudo para deixar orgulhosos todos aqueles que acreditaram em mim e me apoiaram, em especial a Alma Mater Records.
Entrevista por Rui Teixeira (Caminhos Metálicos)


