Texto e vídeo: Carlos Guimarães.
O Centro Cultural de Santo André em Mangualde recebeu mais uma edição do Hard Metal Fest no passado dia 11 de janeiro. Com esta já foram 30 as edições organizadas pela Rocha Produções e, pelo que nos apercebemos, foi provavelmente a que maior sucesso teve em termos de público. Ao contrário do que é quase tradição, as condições meteorológicas estiveram finalmente do lado do festival, com um tempo ameno durante o dia e sem chuva.
O público chegou mais cedo do que habitual e foi recebido com o DJ set da Chaotic Therapy que foi também entretendo o público nos intervalos. Os Rageful seriam a primeira banda a entrar em palco pelas 15:00, com o seu death metal a colocar logo a fasquia alta. Apesar de alguns ligeiros sobressaltos, a atuação dos Rageful teve o condão de ir conquistando aos poucos o público que deambulava pela zona exterior. No seu alinhamento não faltaram temas do seu novo trabalho (“Misery”, editado em split com os Ruttenskalle) como “Medical Chaos”, “Lacking Future” e “Pay to Breathe” e algumas recordações como “Feed the Pigs” e “Membership to Self-Existence” do seu álbum de estreia “Ineptitude”.
Numa toada diferente mas não menos intensa apresentaram-se os Lord of Confusion. A jovem banda leiriense continua a surpreender com o seu stoner/ doom metal todos que os vêm pela primeira vez. A sua evolução em palco tem sido bem notória, especialmente da vocalista Carlota Sousa, que tem agora uma desenvoltura em palco assinalável. Isto tornou-se mais notório na reta final do concerto quando deixou de estar atrás das teclas. Ao vivo os Lord of Confusion já apresentaram alguns temas do sucessor de “Evil Mystery” como “All your Sins” e “Afflatus” e provaram também ser já um caso sério no metal nacional.
A energia dos Nagasaki Sunrise estendeu-se ao público durante a sua atuação, com o seu thrash/punk a fazer mexer muitos corpos e cabeças. No entanto, penso que o som da banda ficou em parte prejudicado pelo excesso de efeitos na voz de Gasolizna, tornando-o muito confuso, notando-se aqui e acolá também alguma falta de coesão. De resto foi uma verdadeira descarga o que se passou em palco, com os lisboetas a repartirem a sua atuação entre o novo “Distroyer” e o anterior “Distalgia”, sem esquecer o EP de estreia “Turn on the Power”.
Já presença habitual dos palcos nacionais, os brasileiros Meggera foram o nome que se seguiu no alinhamento. A banda está a promover o seu novo álbum “Half an Hour of Butchering” e notou-se bem algum nervosismo do quarteto nalguns momentos. Com uma sonoridade que tenta piscar o olho ao metal mais moderno e com muita preocupação com a imagem conseguiram agradar a uma fatia do público presente que já os conhecia bem.
Os Lyzzärd trouxeram o heavy metal mais clássico a Mangualde, surpreendendo todos com a sua qualidade técnica, com destaque para a talentosa dupla de guitarristas. Sempre com boa disposição e sentido de humor, o vocalista Tiago Azevedo conseguiu agarrar bem o público e a sua voz e atitude em palco convenceu até quem torcia o nariz ao seu look à Freddie Mercury 🙂 . Tocaram temas dos seus dois álbuns (destacam-se “Shackles of Justice” a abrir e “Yakuza” a terminar) mas o ponto alto foram os dois novos temas apresentados. O já divulgado single “Viper’s Bite” e a “Riders In The Dark” que abriu muito o apetite para o próximo disco da banda da Trofa.
Se as bandas anteriores já tinham tido o público do seu lado, em Speedemon ficaram rendidos por completo. O speed metal da banda vila-franquense caiu que nem ginjas no goto da plateia que praticamente já enchia o C.C. de Santo André. Para Mangualde os Speedemon já trouxeram um alinhamento reforçado com os temas do novo álbum “Fall of Man” que será editado no final do mês. Abriram com o instrumental “March of the Triumphants” (que serve de introdução ao novo disco) seguida da “Atrocity Divine”. A partir daí o movimento no recinto não parou um segundo, com muito mosh e crowdsurfing. Do novo disco tocariam “Words of Fire” e “Speed on Fire” mas não faltaram os já clássicos “Road to Madness”, “Speedemon” e a muito aclamada “Thunderball”. Sem dúvida uma das melhores atuações do festival.
Apesar de ser hora de jantar, poucos foram os que arredaram pé perante a atuação demolidora dos Bunker 66. Blackened thrash metal como manda a cartilha do género, com o trio italiano a manter o público bem ativo. O alinhamento foi desde a “Overnight Sacrifice” do álbum de estreia “Infernö Interceptörs” (2012) até à “Rite of the Goat” ou “To the Gates of Death – Lair of the Profaner” do mais recente disco de estúdio “Beyond the Help of Prayers” (2021). Sem dúvida uma boa aposta para o cartaz do festival.
Os Desolation Angels surgiram no cartaz como substitutos dos inicialmente anunciados Tysondog e foram nesta 30.ª edição os habituais representantes da New Wave of British Heavy Metal no Hard Metal Fest. Ao ver entrar aqueles senhores sexagenários em palco muitos com certeza não esperavam uma atuação tão sólida e tão cativante como a que tivemos a oportunidade de assistir. Apesar de ser um nome menor da NWOBHM, os Desolation Angels mostram os mesmos atributos de outros grupos que tiveram maior projeção, nomeadamente a capacidade em comporem grandes malhas. Foi sem dúvida a grande surpresa do festival, com os britânicos a apostarem mais nos temas editados já depois da sua reunião de 2012 como “Doomsday”, “Unseen Enemy”, “Hydra” ou “Stand your ground”, bem como o tema-título do próximo disco “Hounds of Hell”. No entanto, os fãs da primeira fase do grupo (entre 1981 e 1994) puderam também deliciar-se com malhas como “Fury” e “Valhalla”.
Os Asphyx eram os cabeças de cartaz do festival e isso provou-se em palco e no público. O recinto do festival estava à pinha para assistir a uma demonstração de classe na arte de tocar death metal. A introdução “The Quest of Absurdity” deu o mote para uma atuação quase irrepreensível onde mal se notou que os neerlandeses estavam a tocar com o baterista Frank que substituiu o lesionado Stefan Hüskens apenas 4 dias antes. Liderados pelo vocalista Martin van Drunen, os Asphyx arrancaram sem piedade com “Vermin”, “Botox Implosion” e “Molten Black Earth”. Ao longo dos 65 minutos que durou a atuação ouvimos ainda temas como “Asphyx”, “Deathhammer”, “Wasteland of Terror”, “Forerunners of the Apocalypse” e “The Rack”, com esta última a merecer a seguinte introdução por parte de Martin: “If you don’t know this one, you don’t know a fuck about Asphyx”. Para o final, e já tendo ultrapassado o tempo previsto para a sua presença em palco, os Asphyx reservaram o tema “Last One on Earth”.
O trio liderado por Jon Davis é um dos nomes mais respeitados na cena stoner/sludge europeia e em Mangualde os Conan comprovaram isso mesmo. O público ficou hipnotizado pela muralha sonora que vinha do palco e manteve o mesmo grau de movimento que já trazia dos Asphyx. Os britânicos abriram com “Equilibrium of Mankind” e “Prosper on the Path” não faltando no alinhamento malhas como “Satsumo”, “Gravity Chasm” e “Volt Thrower”.
Os Yoth Iria foram os representantes do black metal nesta edição do festival. Vindos da Grécia, basearam o seu setlist no último “Blazing Inferno” tocando o tema-título, “But Fear Not”, “In the Tongue of Birds”, “Mornings of the One Thousand Golds” e “We Call Upon the Elements”. Pelo meio tocaram duas malhas do primeiro álbum (“Hermetic Code” e “The Great Hunter”), finalizando com “Sid-Ed-Djinn” do seu EP de estreia. Musicalmente competentes, mostraram bem a experiência de alguns dos seus integrantes que têm ou tiveram ligações a bandas como Rotting Christ, On Thorns I Lay e Varathron. Mas ao longo do concerto os olhos do público estavam postos em Orestis, o vocalista ao vivo da banda, pois ele foi um espetáculo à parte. Notoriamente feliz por ali estar, o vocalista centrou todas as atenções com um comportamento um pouco errático que envolveu alguns números de equilibrismo nas grades, pedidos de interação do público à la Ozzy Osbourne, entre outros momentos que não esperaríamos ver numa banda que musicalmente é intensa.
Já passavam das duas da manhã quando os Lawnmower Deth subiram ao palco e tinham a recebê-los um considerável grupo de resistentes. O que se passou a seguir foi um dos pontos altos do festival, com a banda britânica a desfilar mais de dúzia e meia dos seus temas a um ritmo alucinante. Quem estava cansado de um longo dia de festival sentiu-se logo revigorado tal a energia e bom ambiente que se criou na reta final do Hard Metal Fest. Com uma boa disposição contagiante, os Lawnmower Deth tocaram muitas malhas do “Ooh Crikey It’s… Lawnmower Deth” de 1990 como “Flying Killer Cobs From the Planet Bob”, “Betty Ford’s Clinic”, “Spook Perv Happenings in the Snooker Hall”, “Red Dude”, ” Got No Legs? Don’t Come Crawling to Me”, ” Maim Mower Maim” ou “Icky Ficky”. Os outros discos não foram esquecidos, com o mais recente “Blunt Cutters” a ser representado logo na abertura com “Into the Pit” e depois com “Botheration” ou “Bastard Squad”. Sem dúvida não se podia pedir um melhor encerramento para uma edição histórica deste que é o festival de heavy metal mais antigo da Península Ibérica.


