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Fotos: Rui Podence.
Texto: Carlos Guimarães.

Z! Live Rock Fest
Sepultura + Lita Ford + Dark Funeral + Gotthard + Nanowar of Steel + Dynazty + Rhapsody of Fire + Ankhara + Opensight
IFEZA (Zamora), 14.06.2025

O terceiro e último dia do Z! Live chegou com um cartaz eclético, marcado por momentos altos como os concertos de Sepultura, Lita Ford, Dynazty e Gotthard, culminando num encerramento verdadeiramente hilariante e festivo com os irreverentes Nanowar of Steel.

A missão de abrir o dia coube aos Opensight. Com um visual cuidado e uma presença cénica distinta — como se comprova pelas imagens —, os britânicos surpreenderam o público com uma sonoridade invulgar, fortemente influenciada pelo universo de Mike Patton e pelas bandas sonoras de filmes de culto das décadas passadas. Uma abordagem inesperada, mas eficaz, que deu um toque diferente e cinematográfico ao arranque do festival.

Os Ankhara foram os representantes espanhóis no alinhamento do último dia. Com cerca de trinta anos de carreira — ainda que marcados por um hiato de quase uma década —, os madrilenos trouxeram ao Z! Live o seu heavy/power metal cantado em castelhano. No entanto, a atuação ficou algo aquém das expectativas, muito por culpa de um som confuso e pouco definido que saía do P.A., comprometendo a clareza dos arranjos e da voz.

Ainda assim, os fãs mais próximos do palco reagiram com entusiasmo, cantando e vibrando com temas como “Un Paso Mas”, “Sigo en Pie” ou “No Mires Atrás”. No contexto de um dia com atuações de altíssimo nível, a prestação dos Ankhara acabou por saber a pouco.

Os Dynazty mostraram em Zamora por que razão são apontados como legítimos herdeiros do legado dos Europe. Com um heavy metal melódico de grande qualidade e execução irrepreensível, deixaram completamente rendido o público presente. Abriram em força com a nova “Game of Faces”, assumindo o palco como se estivessem perante um estádio com 50.000 pessoas — e, diga-se, têm tudo para isso: som, presença e carisma.

Entre temas explosivos como “Natural Born Killer”, “Yours” ou “The Presence of Mind”, houve ainda espaço para um solo de bateria de Georg Härnsten Egg — momento que, pela curta duração do concerto, poderá ter sido dispensável.

Para o encerramento, Nils Molin puxou pelo público, preparando-o para a muito aguardada “Heartless Madness”, que foi, como esperado, recebida com entusiasmo e cantada em uníssono.

Apesar de deterem legalmente o nome Rhapsody of Fire, a atual formação da banda pouco tem de comum com o espírito original dos tempos de glória. Do núcleo clássico, resta apenas o teclista Alex Staropoli, cuja presença em palco é discreta e algo distante, resguardado atrás do seu Roland com uma postura fria e pouco comunicativa.

Felizmente, Staropoli soube rodear-se de músicos competentes e, sobretudo, de um vocalista extraordinário: Giacomo Voli. Carismático, tecnicamente irrepreensível e com uma empatia genuína com o público, Voli é hoje o verdadeiro motor emocional da banda. A abrir com “Unholy Warcry”, a banda mergulhou num alinhamento sólido que percorreu várias fases da sua carreira, com especial destaque para a era mais recente com Voli à frente — temas como “Rain of Fury”, “I’ll Be Your Hero” e “Challenge the Wind” confirmaram a força da nova identidade.

Houve ainda tempo para um momento de emoção, com uma sentida homenagem a Christopher Lee em “The Magic of the Wizard’s Dream”, antes da apoteose final com os inevitáveis clássicos “Dawn of Victory” e “Emerald Sword”, que puseram toda a plateia a cantar.

Os Gotthard continuam a ser um dos grandes nomes do hard rock suíço e voltaram a prová-lo com distinção em Zamora. Apesar de carregarem o peso da trágica perda de Steve Lee em 2010, a banda nunca perdeu a chama criativa, e encontrou em Nic Maeder um vocalista à altura do legado — competente, carismático e perfeitamente integrado na identidade da banda.

O concerto arrancou com “AI & I” e “Thunder & Lightning”, duas faixas do mais recente álbum Stereo Crush, que serviram de cartão de visita moderno antes da primeira grande explosão de entusiasmo com “All We Are”, retirado do aclamado Lipservice — um disco já clássico no universo do hard rock europeu.

Um dos momentos mais celebrados da atuação foi a versão de “Hush”, que transformou o recinto num coro coletivo ao som do inevitável “na na nana”. A meio do alinhamento, os suíços abrandaram o ritmo com as emotivas “Burning Bridges” e “Heaven”, antes de voltarem a acelerar para o final apoteótico com dois dos seus maiores êxitos: “Top of the World” e “Lift U Up” — ambos recebidos em euforia.

Foi uma atuação sólida, equilibrada entre o peso do passado e a vitalidade do presente, e que reafirmou o estatuto dos Gotthard como mestres de palco e verdadeiros sobreviventes do hard rock europeu.

Trinta e cinco anos de concertos, centenas de palcos e bandas depois, só agora tive finalmente a oportunidade de ver ao vivo uma das figuras mais marcantes da minha adolescência: Lita Ford. E, com ela, vieram também memórias das tardes passadas a ouvir o mítico Rock em Stock na Rádio Comercial.

O reencontro demorou um pouco mais do que o previsto: mais de dez minutos de atraso até Lita subir ao palco, ao som de “Gotta Let Go”, seguido de “Restless”. Problemas técnicos iniciais foram rapidamente corrigidos e, a partir daí, a norte-americana entregou uma atuação irrepreensível. A sua voz continua a ter a mesma força e personalidade que a tornaram um ícone dos anos 80, e a performance na guitarra — firme, segura e cheia de garra — deixou muitos de queixo caído. Aos 66 anos, Lita Ford continua a ser uma força da natureza.

A interação com o público começou algo hesitante, mas depressa aqueceu. A artista quebrou o gelo ao anunciar que “The Bitch is Back” — cover de Elton John —, preparando terreno para um set poderoso e bem equilibrado. “Back to the Cave” trouxe maior dinâmica em palco, com direito a interação entre os músicos e um solo de bateria por Bobby Rock.

O final foi pura celebração: primeiro com a explosiva “Cherry Bomb”, dos tempos de The Runaways, e depois com dois dos maiores clássicos da sua carreira — “Close My Eyes Forever”, com o guitarrista Patrick Kennison a fazer o papel de Ozzy Osbourne, e o hino absoluto “Kiss Me Deadly”.

Um concerto memorável, carregado de simbolismo pessoal e de nostalgia, mas também de vitalidade e classe — Lita Ford provou, sem sombra de dúvida, que continua a merecer o estatuto de lenda viva do rock.

Uma versão gravada de “Polícia” dos Titãs deu o mote para a entrada dos Sepultura, numa introdução inesperada mas simbólica que rapidamente se transformou em devastação sonora com três clássicos logo a abrir: “Beneath the Remains”, “Inner Self” e “Desperate Cry”. A voz imponente de Derrick Green ecoava como um trovão sobre o recinto, emprestando ainda mais intensidade e peso a temas que marcaram gerações.

Sejamos honestos: Max Cavalera pode ter mantido o carisma, mas é praticamente só isso que lhe resta. Em contrapartida, Andreas Kisser e Paulo Xisto (aka Paulo Jr.) continuam, quarenta anos depois, a carregar com dignidade e garra o legado dos Sepultura. Não são, é certo, os mesmos Sepultura que incendiaram os palcos do Dramático de Cascais nos anos 90 — mas continuam a ser os Sepultura, e isso ainda significa muito.

No Z! Live, a banda — cada vez mais brasileira-americana — apresentou um alinhamento sólido e seguro. Após o impacto inicial, mergulharam nos temas da era Derrick Green, entrecortados por clássicos como “Attitude”, “Escape to the Void” e “Propaganda”, que mantiveram o pulso do concerto em alta.

Kaiowas serviu como ponte perfeita para uma reta final absolutamente alucinante, que levou o público ao êxtase. A sequência de faixas foi demolidora: “Dead Embryonic Cells”, “Troops of Doom”, “Territory”, “Refuse/Resist”, “Arise”, “Ratamahatta” — onde o novo baterista Greyson Nekrutman se revelou ao público espanhol com uma intensidade brutal. Pelo meio, ainda houve tempo para uma homenagem aos Motörhead com “Orgasmatron”, mas a verdadeira explosão emocional aconteceu no final com “Roots Bloody Roots”, entoada em uníssono por milhares de fãs.

Um concerto memorável, não apenas por marcar a anunciada última atuação da banda em solo espanhol, mas por reafirmar que os Sepultura, mesmo com cicatrizes e mudanças, continuam a ser uma das instituições mais respeitadas do metal mundial.

 

Depois do calor abrasador e da intensidade tribal dos Sepultura, caiu sobre Zamora o manto gélido e sombrio dos Dark Funeral. A transição para a frieza nórdica do black metal não afastou o público, que se manteve firme na IFEZA, pronto para receber a descarga implacável dos suecos.

Liderados de forma teatral e enigmática por Heljarmadr, cuja presença em palco conjuga autoridade e misticismo, os Dark Funeral desfilaram temas que atravessam mais de três décadas de carreira. Cada faixa era um golpe seco e ritualístico, sustentado por uma parede sonora infernal e por uma encenação visual austera mas eficaz.

A atuação confirmou aquilo que já se sabia: os Dark Funeral são uma das grandes instituições do black metal mundial. E no Z! Live, entregaram tudo o que deles se esperava — um concerto sombrio, litúrgico e intensamente envolvente, que mergulhou o público num abismo sonoro tão hipnótico quanto devastador.

 

Ainda os Dark Funeral se despediam das sombras e já os italianos Nanowar of Steel irrompiam pelo palco com “Sober”, antecipando-se em cerca de dez minutos ao horário previsto. Eram quase duas da manhã, no final de três intensos dias de festival, mas ainda assim foram muitos — milhares, na verdade — os resistentes que optaram por ficar até ao fim para assistir à verdadeira explosão de loucura musical que só os Nanowar of Steel sabem proporcionar.

Se não tens uma réstia de sentido de humor, o melhor é mesmo afastares-te desta banda, porque dificilmente irás compreender o que se passa em cima do palco. Para os restantes, foi um espetáculo inesquecível, onde o metal se mistura com sátira, paródia e um talento musical genuíno.

Depois do tema à la Alestorm, a hilariante “Pasadena 1994” — com sabor épico à Sabaton — deu lugar a uma das primeiras interações mais bizarras da noite: um “Wall of Love”, em vez do habitual wall of death, incitado com entusiasmo pela banda. A seguir, “Disco Metal” transformou a IFEZA numa verdadeira pista de dança, e “Uranus” trouxe todo o brilho do hard rock glam, com direito a uma introdução que arrancou gargalhadas sonoras do público.

O espetáculo seguia num crescendo de absurdismo delicioso. Com toda a gente a cantar o inexplicável refrão “Barbagianni, barbagianni, barbagianni” ouviu-se a teatral “Il Cacciatore della Notte”; braços no ar para a poderosa “Armpits of Immortals”; mas os dois grandes momentos da noite estavam ainda reservados.

Primeiro, a delirante “Norwegian Reggaeton”, que pôs toda a gente a dançar como se o black metal tivesse ido passar férias às Caraíbas. E, logo depois, o apoteótico hino pagão “Valhalleluja”, onde Odin — divindade suprema da Ikea — foi devidamente venerado por uma multidão em delírio.

Soube a pouco, muito pouco — mas valeu cada minuto da espera. Numa edição já memorável do Z! Live, os Nanowar of Steel fecharam o festival com chave de ouro… ou talvez com uma chave allen.