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Texto e Fotos: Nuno Reis.

Sunn O)))
Fundação Serralves (Porto), 10.07.2026

Há concertos que se assistem. Outros vivem-se. O de Sunn O))), integrado no programa FOCO Stephen O’Malley, pertence claramente à segunda categoria.

O concerto decorreu no Ténis do Parque de Serralves, um cenário pouco habitual para uma banda cuja música costuma ganhar forma entre as paredes de teatros, igrejas ou salas de espetáculos. No entanto, foi precisamente essa opção que conferiu à noite uma identidade muito própria. Sob o céu aberto, as árvores deixaram de ser apenas parte da paisagem para se tornarem uma extensão natural da cenografia. A luz atravessava os ramos, o fumo espalhava-se lentamente pelo parque e, por momentos, era difícil perceber onde terminava o palco e começava a floresta.

O público reunia-se em silêncio, quase imóvel, enquanto duas figuras envoltas nas suas longas vestes negras tomavam lentamente os seus lugares em palco. Durante breves instantes, ainda era possível distingui-las. Depois, o fumo começou a envolver o palco.

Lentamente, os contornos dissolveram-se, até restarem apenas silhuetas suspensas entre luz, nevoeiro e som.
Desde os primeiros minutos tornou-se evidente que aquilo não seria um concerto convencional. Mais do que guitarristas, Stephen O’Malley e Greg Anderson pareciam conduzir uma cerimónia. Pouco importava distinguir-lhes os gestos. O verdadeiro protagonista era o som.

Em Sunn O))), o volume não existe para impressionar. Existe para transformar a música numa experiência física. As frequências graves percorriam o corpo, faziam vibrar o peito, o chão e até o próprio ar. A determinada altura, deixava de fazer sentido pensar apenas em ouvir. A música sentia-se.

Tudo acontecia lentamente. A entrada em palco, o avanço do fumo, as mudanças de luz e até evolução das próprias frequências pareciam ignorar a velocidade habitual dos concertos contemporâneos. Em vez de procurar captar a atenção do público através da ação, Sunn O))) conquistavam-na pela contemplação.

Também a estrutura do concerto desafiava a lógica habitual dos concertos. As pausas resumiram-se a apenas dois breves momentos, o primeiro apenas depois de já ter decorrido mais de metade da atuação. Até aí, e novamente depois disso, não havia uma sucessão evidente de temas. Existia apenas um contínuo de vibrações e frequências que se transformava lentamente, quase imperceptivelmente. Essa ausência de ruturas fazia perder a noção do tempo e aprofundava a imersão, tornando o concerto menos numa sequência de músicas e mais numa experiência contínua, onde cada momento existia apenas porque o anterior o preparara.

Raramente um concerto consegue criar uma sensação tão curiosa de isolamento coletivo. A comunicação entre espectadores tornava-se impossível, não apenas porque o volume a impedia, mas porque tudo em redor convidava ao silêncio. A cortina de fumo desfazia as formas, as figuras em palco assumiam um carácter quase litúrgico e o drone contínuo parecia suspender a própria noção do tempo. Durante aquele período, a multidão existia apenas fisicamente. A experiência era profundamente íntima, vivida por cada pessoa como se estivesse completamente sozinha perante aquela imensa massa sonora.

Conversei com algumas pessoas no final do concerto e, apesar de cada uma o descrever à sua maneira, havia um ponto em comum: a pressão constante no peito, as vibrações que percorriam todo o corpo e uma estranha sensação de desconforto que, longe de afastar o público, acabava por reforçar a intensidade da experiência. Não se tratava de sofrimento, mas da consciência de que o som podia ser tão físico quanto emocional. É precisamente essa capacidade de transformar frequências em sensações que distingue  Sunn O))) de praticamente qualquer outro concerto.

Talvez tenha sido precisamente o espaço aberto a tornar tudo ainda mais marcante. Em vez de limitar a atuação, Serralves ampliou-lhe a dimensão ritualística. O parque transformou-se numa espécie de catedral ao ar livre, onde a natureza não servia apenas de cenário, mas fazia parte integrante da experiência.

Há um pequeno detalhe que resume na perfeição a filosofia da banda. No chão do palco, preso com fita adesiva, encontrava-se o alinhamento do concerto. Quem esperasse uma lista organizada de temas encontrava antes um conjunto de símbolos e anotações praticamente indecifráveis. Durante alguns segundos parecia mais um desenho abstrato do que uma setlist.

No final, fez todo o sentido. Tal como a própria música, aquele alinhamento não procurava explicar nada. Limitava-se a orientar um percurso conhecido apenas por quem o criara. Porque um concerto de Sunn O))) não é uma sucessão de canções. É uma experiência contínua onde o tempo, o espaço e o próprio silêncio deixam de obedecer às regras habituais.

Talvez seja precisamente essa a maior qualidade de Sunn O))). Vivemos numa época em que praticamente toda a música pode ser ouvida em casa, através de auscultadores ou de um sistema de alta-fidelidade. Um concerto da banda recorda-nos que existem experiências impossíveis de reproduzir fora daquele espaço. As frequências, o volume, o silêncio do público, o fumo e a envolvência transformam a música em algo físico, quase palpável. Não se trata apenas de ouvir. Trata-se de sentir.

Mesmo para quem não conhece a obra da banda, ou nunca se aventurou pelo universo do drone metal, um concerto de Sunn O))) merece ser vivido pelo menos uma vez. Não porque seja fácil ou confortável, mas porque desafia a forma como entendemos um espetáculo ao vivo. Durante cerca de uma hora, a música deixa de ser apenas som para se tornar espaço, vibração e presença. E quando termina, percebe-se que algumas experiências não se explicam verdadeiramente. Apenas se vivem.