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Fotos e Texto: Nuno Reis.

Arch Enemy + Amorphis + Eluveitie + Gatecreeper
Palácio da Vista Alegre (Madrid), 25.10.2025

Antes mesmo de se abrirem as portas do Palácio Vistalegre, já se sentia que Madrid ia tremer. À medida que o sol se escondia, as ruas em redor da sala transformavam-se num mundo negro e envolvente, feito de t-shirts pretas, cabelos compridos e vozes animadas.

As filas estendiam-se em ondas fluídas, como um rio de gente impaciente, cada passo aproximando todos de mais uma noite de metal. Nos cafés em redor, o ambiente era de festa — copos erguidos, tapas a circular, gargalhadas e cumplicidade entre desconhecidos que partilhavam a mesma paixão.
O espetáculo ainda não tinha começado e já muitos fãs faziam razia à banca de merchandising, determinados em levar uma recordação de uma noite que se adivinhava memorável.

Era impossível não sentir aquela mistura perfeita de boa disposição e tensão no ar, o pressentimento de que algo grande estava prestes a acontecer. Madrid respirava metal — e todos sabiam que, lá dentro, as próximas horas seriam intensas.

O concerto dos Gatecreeper já decorria quando parte do público ainda procurava entrar no recinto.
Os Gatecreeper abriram com garra, com aquele som denso e abrasivo que acorda qualquer sala. O Vistalegre ainda apresentava algum espaço, mas a energia já se fazia sentir e o público começava a ganhar corpo, preparando o terreno para uma noite que prometia muito.

Por motivos logísticos na entrada, não foi possível obter registos fotográficos da atuação, mas a banda deixou um concerto intenso, honesto e à altura do nome que carregam — uma abertura crua e poderosa que fez justiça à sua reputação.

Depois do peso cru dos Gatecreeper, foi a vez dos Amorphis subirem ao palco — e foi aí que o Vistalegre começou verdadeiramente a ganhar vida. Desde os primeiros acordes de “Bones”, percebeu-se que o som ia noutra direção: melódico, atmosférico e cheio de camadas, como só eles sabem fazer.

A sala estava já bem mais composta, e era impossível não reparar na quantidade de t-shirts da banda espalhadas pelo público — sinal claro de que muitos vieram especialmente para os ver. Entre a multidão, viam-se sorrisos de quem acompanha os Amorphis há muitos anos, misturados com rostos mais jovens, todos vestindo o nome da banda ao peito. Era o retrato perfeito do lado multigeracional que o grupo soube construir ao longo das décadas — a prova viva de que a sua música continua a inspirar novas gerações.

O concerto foi uma viagem densa e emotiva, marcada por temas como “Death of a King” e “House of Sleep”, onde a voz de Tomi Joutsen pareceu unir todos num só coro. Os Amorphis deixaram uma atuação sólida, envolvente e cheia de alma, encerrando o set com “The Bee”, sob aplausos sinceros e uma atmosfera de respeito — aquela espécie de silêncio breve que fica no ar quando uma banda conquista uma sala.

Com a sala já praticamente cheia e o público em plena sintonia, os Eluveitie trouxeram uma mudança completa de atmosfera. O concerto abriu com “Ategnatos”, e logo nos primeiros segundos a mistura de flautas, violinos e guitarras criou aquele ambiente ritualista e ancestral tão característico da banda.

Do palco vinha uma energia contagiante — um equilíbrio perfeito entre o peso do metal moderno e a espiritualidade das melodias celtas. Chrigel Glanzmann conduzia tudo com firmeza, enquanto Fabienne Erni enchia o espaço com uma presença luminosa e uma voz que parecia pairar sobre a multidão.

Entre temas como “Deathwalker”, “A Rose for Epona” e “Ambiramus”, o Vistalegre transformou-se numa celebração coletiva. O público cantava e erguia os braços como se participasse num ritual partilhado, culminando em “Inis Mona”, quando toda a sala explodiu em uníssono.

Os Eluveitie deixaram o palco com aplausos longos e sorrisos partilhados — e a sensação clara de que tinham elevado a fasquia para o que ainda estava por vir. A esta altura, tornava-se evidente que a combinação das três bandas criava algo mais do que um simples alinhamento: era um evento eclético, mas profundamente coerente, capaz de abranger diferentes sensibilidades dentro do metal. Do peso implacável dos Gatecreeper, à densidade melódica dos Amorphis e à dimensão espiritual dos Eluveitie, o cartaz mostrava-se rico e completo, tocando gerações e gostos distintos.

Mal os Eluveitie deixaram o palco, a equipa técnica entrou rapidamente em ação. Em poucos minutos, um pano branco salpicado de vermelho, com a inscrição “PURE FUCKING METAL” em letras negras, foi erguido, ocultando completamente o que se passava em cima do palco. Por detrás dessa cortina crua e provocadora, adivinhava-se já o caos organizado que antecede um grande momento.

A sala mergulhou num burburinho expectante — um bruar intenso, quase palpável, que crescia à medida que o tempo passava. E então, as luzes apagaram-se. Um silêncio breve atravessou o Vistalegre, logo quebrado pelos primeiros sons que ecoaram das colunas, preparando o público para a tempestade que se aproximava.

Num instante, o pano caiu — e o impacto foi avassalador. Uma parede de luz e som tomou conta da sala, com Alissa White-Gluz a surgir no centro do palco, enérgica e imponente, como se o espaço inteiro gravitasse à sua volta.

O concerto abriu com “Deceiver, Deceiver”, uma escolha perfeita para acender a chama e confirmar aquilo que todos já sabiam: os Arch Enemy vieram para dominar Madrid. A partir desse momento, tudo aconteceu com a força de um trovão. A sala explodiu em som e movimento, e Alissa tomou o centro do palco com uma autoridade quase hipnótica. A forma como se movia — gestos firmes, expressão determinada — mostrava alguém em total controlo do momento, uma líder a comandar o caos. Com “Ravenous” logo a seguir, ficou claro que os Arch Enemy não estavam ali apenas para tocar — estavam ali para marcar território. Cada riff de Michael Amott soava cirúrgico, cada batida de Daniel Erlandsson era um soco certeiro no peito, e o público reagia com a mesma intensidade.
Houve momentos em que a energia da multidão parecia sincronizar-se com a da própria banda — um vai-e-vem de pura força, alimentado pela presença magnética de Alissa, que controlava o Vistalegre como quem conduz uma tempestade, alternando entre o caos e a elegância com uma naturalidade desarmante.

A meio do concerto, a intensidade transformou-se em comunhão. Sob o pedido da vocalista, milhares de luzes ergueram-se no ar, os ecrãs dos telemóveis a iluminar o recinto num mar cintilante que acompanhava a melodia. Por instantes, o metal tornou-se pura emoção partilhada — um daqueles momentos em que o som e o sentimento se tornam uma só coisa. Logo depois, “War Eternal” e “The Eagle Flies Alone” devolveram a força total ao espetáculo, com o público em completa sintonia com a banda. Alissa comandava Madrid com a segurança de quem nasceu para o palco, e o Vistalegre respondeu à altura.

Depois de uma atuação intensa, a banda deixou o palco apenas por breves instantes. O público sabia que ainda havia mais por vir e fez-se ouvir em uníssono, chamando os Arch Enemy de volta.
O encore começou com “Snow Bound”, um momento breve e quase contemplativo antes da descarga final. Logo a seguir, “Nemesis” fez o Vistalegre estremecer — impossível ficar parado. Os fãs cantavam cada palavra, braços erguidos, como se aquele refrão fosse uma afirmação coletiva de força.

O concerto encerrou com “Fields of Desolation”, e das bancadas caíram dezenas de balões com o logótipo dos Arch Enemy, lançados sobre o público num final de festa vibrante. A sensação era de gratidão mútua: banda e público partilhavam o mesmo cansaço feliz — aquele silêncio barulhento que só existe quando todos sabem que viveram algo especial.

O Palácio Vistalegre revelou-se uma sala à altura do evento. Amplas zonas de circulação, múltiplos balcões de bebidas — especialmente cerveja — e até espaços de comida rápida, tudo pensado para manter o público confortável sem perder o contacto com a ação.

Como é tradição no metal, a cerveja fez parte do ritual, e o recinto adaptou-se a isso de forma exemplar, com funcionários a circular entre o público vendendo bebidas diretamente no meio da multidão.

Fora da sala principal, mas ainda dentro do edifício, encontravam-se diversos bares e pequenas zonas de convívio, ideais para quem quisesse fazer uma pausa entre concertos ou prolongar a noite. Tudo muito bem organizado e distribuído. Em termos de som, o equilíbrio geral foi sólido, ainda que em alguns momentos pudesse beneficiar de maior definição, sobretudo na voz de Alissa White-Gluz.
O ambiente foi irrepreensível do início ao fim — uma celebração tranquila e intensa, marcada pelo respeito e pela comunhão entre fãs.

Provavelmente por este alinhamento não ter passado por Portugal, foi possível ver muitos rostos portugueses entre o público e ouvir conversas em português antes e depois do concerto. Muitos viajaram até Madrid para não perder esta noite memorável — e valeu a pena. Foi uma noite que quem lá esteve recordará por muito tempo — o tipo de espetáculo que justifica o amor pela música ao vivo e reforça porque o metal continua a ser uma das mais autênticas formas de expressão coletiva.