Fotos: Rui Podence.
Texto: Carlos Guimarães.
Z! Live Rock Fest
Accept + Alestorm + Angelus Apatrida + Saurom + Noctem + Lujuria + Morphium + Injector + Salduie
IFEZA (Zamora), 13.06.2025
O segundo dia do Z! Live 2025 trouxe uma alteração notória na dinâmica do festival: o recinto do IFEZA, em Zamora, apresentava uma redução na afluência de público em comparação com a noite anterior, dominada pelo aguardado concerto de Dream Theater. A quinta-feira havia sido, de facto, o ponto alto em termos de audiência, e a sexta-feira, dia 13, assumiu um carácter mais nacional, com sete das nove bandas em cartaz oriundas de Espanha — um verdadeiro “Día de España” para o Z! Live.
O arranque da programação fez-se às 16h15 com os Salduie, banda de Saragoça que tem vindo a ganhar projeção no circuito espanhol do folk metal. O grupo aposta numa sonoridade que funde o peso e a modernidade do metal contemporâneo com elementos e instrumentos tradicionais da Península — como a gaita de foles, a flauta ou o bandolim — sempre com uma forte carga temática inspirada na história e mitologia celtibérica.
Apesar do calor abrasador e do horário ingrato, os músicos subiram ao palco com entusiasmo visível, tentando contrariar o ambiente ainda morno e a plateia dispersa. O seu set foi sólido e competente, agradando sobretudo aos apreciadores do género, que reconheceram na entrega da banda um respeito evidente pelas raízes culturais e uma execução cuidadosa das composições.
Não foi uma atuação memorável, mas também esteve longe de ser esquecível. Os Salduie cumpriram a missão de abrir as hostilidades com dignidade, honrando o espírito local e estabelecendo uma ponte entre tradição e modernidade que continua a marcar presença em muitos dos projetos ibéricos da cena folk metal.
Salfuie
Oriundos de Cartagena, os Injector têm vindo a afirmar-se como uma das apostas mais sólidas do thrash metal espanhol. Com um som rápido, técnico e influenciado pela escola americana dos anos 80 e 90, o quarteto trouxe ao Palco Copper uma energia contagiante que, mesmo com algumas limitações sonoras, conseguiu arrancar as primeiras verdadeiras movimentações da tarde junto ao público.
Ainda que estejam longe da projeção internacional de nomes como Angelus Apatrida, que atuariam mais tarde no palco principal, os Injector demonstraram em Zamora que têm garra, atitude e um repertório cada vez mais maduro. O som, por vezes algo “embrulhado”, não chegou para travar a força do grupo em palco, com riffs cortantes, solos bem executados e uma secção rítmica agressiva a garantirem que o público saísse do modo contemplativo e se deixasse arrastar para o mosh.
A prestação não foi perfeita, mas teve todos os ingredientes de um concerto de thrash eficaz: velocidade, suor e comunhão com a audiência. E se há algo que os Injector mostraram é que, apesar de ainda não estarem no topo da hierarquia do género em Espanha, estão no caminho certo — e com pedalada para muito mais.
Injector
Tal como no caso dos Injector, já tinha visto os catalães MorphiuM na edição de 2024 do Vagos Metal Fest, onde surpreenderam pela entrega e presença. No entanto, a atuação desta vez acabou por gerar sentimentos mais ambíguos.
Oriundos de Girona, os MorphiuM praticam um metalcore denso e melódico, com apontamentos de metal industrial e uma forte componente emocional. A estética carregada e a atitude em palco remetem, em certos momentos, para referências como Rammstein, particularmente no carisma e gestualidade do vocalista Alex Bace, cuja postura cénica evoca inevitavelmente Till Lindemann, embora com uma abordagem mais visceral do que teatral.
Apesar de tecnicamente competentes e coesos enquanto banda, o impacto não foi tão marcante como na atuação em Portugal. Talvez por responsabilidade do alinhamento escolhido, talvez por fatores de ordem sonora ou mesmo por um público menos predisposto à sua sonoridade naquele momento específico do dia — a verdade é que, desta vez, o fator surpresa dissipou-se e o concerto não atingiu os mesmos níveis de intensidade emocional.
Ainda assim, os MorphiuM deixaram matéria para reflexão. A dúvida mantém-se em aberto, e a próxima oportunidade ao vivo servirá, com certeza, para desempatar opiniões sobre uma banda que tem potencial, mas que precisa de afinar o equilíbrio entre estética, intensidade e ligação com o público.
Morphium
Vindos de Valência, os Noctem voltaram a demonstrar porque são, muito provavelmente, o expoente máximo do black metal espanhol. Com quase um quarto de século de carreira e uma reputação construída à base de intensidade, teatralidade e rigor estético, reencontramos esta banda no Z! Live após a marcante atuação no Milagre Metaleiro de 2022.
Às 19h20, o Palco Copper ainda era banhado por uma luz solar inclemente, algo que inevitavelmente reduziu parte do impacto visual e atmosférico que a estética obscura da banda costuma exigir. O início do concerto ficou ainda manchado por problemas técnicos: o microfone do vocalista Beleth falhou nos primeiros minutos, o que gerou frustração visível no frontman, cuja postura habitualmente imponente oscilou momentaneamente entre a tensão e a irritação.
Apesar disso, e mesmo com outros contratempos sonoros ao longo da atuação, os Noctem mantiveram-se fiéis à sua missão de impôr um espetáculo agressivo, denso e ritualístico. A força de temas como “The Black Consecration” e “Credo Certe Ne Cras”, executados com precisão e brutalidade, foi suficiente para conquistar a atenção e o respeito da plateia. A fusão entre o black metal mais tradicional e elementos de death e melodia permitiu à banda recuperar o fôlego do concerto, transformando adversidade em intensidade.
No final, ainda que longe da perfeição técnica, a atuação dos Noctem provou que a presença da banda em palco continua a ser sinónimo de força e resiliência, mesmo perante condições longe do ideal. A escuridão sonora que emanam foi suficientemente poderosa para, por momentos, ensombrar até o sol alto de Zamora.
Noctem
O primeiro grande momento do segundo dia do Z! Live chegou com os já veteranos Angelus Apatrida, que provaram mais uma vez porque são uma das maiores exportações do thrash metal ibérico para o resto da Europa. Com um percurso consolidado e um estatuto que ultrapassa há muito o circuito nacional, a banda de Albacete entrou em palco com confiança, precisão e uma energia que se revelou imediatamente contagiante.
Desde os primeiros acordes, ficou claro que estávamos perante uma máquina bem oleada. Guillermo Izquierdo, carismático vocalista e guitarrista, assumiu sem hesitações o papel de líder absoluto da atuação — comandando tanto a banda como o público com uma mistura equilibrada de agressividade, humor e empatia. A sua presença em palco é hoje sinónimo de competência e atitude, fatores que foram amplificados por um som coeso e poderoso, que permitiu à banda brilhar em toda a sua intensidade.
A resposta da plateia foi imediata: mosh pits formaram-se, punhos ergueram-se e os coros acompanharam com fervor temas como “One of Us”, “Snob”, “Cold” e o clássico “Give ’Em War”, este último saudado como verdadeiro hino de resistência e militância thrash. A interação entre os membros da banda e a plateia foi constante, com sorrisos trocados entre pancadas de bateria, riffs cortantes e solos incandescentes.
Mais do que um simples concerto, a atuação dos Angelus Apatrida foi uma verdadeira celebração do thrash metal moderno, onde técnica, paixão e espírito combativo se cruzaram num dos momentos altos de todo o festival. Um desempenho que deixou a fasquia bem elevada para tudo o que viria a seguir.
Angelus Apatrida
No Z! Live, houve concertos que se viveram com o punho cerrado, outros a abanar a cabeça. E depois há os Alestorm, que se vivem com um copo (real ou imaginário) na mão e um sorriso escancarado na cara. O concerto dos britânicos foi um dos momentos mais aguardados do segundo dia do festival — e não apenas pelos fãs do chamado “pirate metal”. Com a estreia iminente do novo álbum “The Thunderfist Chronicle”, agendada para a semana seguinte, o entusiasmo estava no ar. E a promessa de caos festivo foi mais do que cumprida.
Logo à entrada, o palco deixava antever o que aí vinha: três enormes patos amarelos insufláveis dominavam o cenário, contrastando com os tons verdes do fundo e criando uma espécie de universo paralelo onde o metal se cruza com a comédia absurda. É o mundo de Alestorm — e todos os presentes foram convidados a embarcar.
Durante setenta minutos, a banda liderada por Christopher Bowes conduziu uma autêntica odisseia de humor, nonsense e hinos metal que provaram ser tão eficazes ao vivo quanto irresistíveis em estúdio. “Keelhauled” e “Pirate Metal Drinking Crew” abriram as hostilidades com uma receção entusiástica do público, que não perdeu tempo a entrar no espírito da festa.
Logo de seguida, surgiu o primeiro tema novo da noite, “Killed to Death by Piracy”, uma amostra do “The Thunderfist Chronicle” — energético, melódico e com o habitual toque de irreverência. Mais tarde, ouviríamos também “Frozen Piss 2”, título que, só por si, já ilustra bem o ADN da banda: provocador, cómico e deliciosamente absurdo.
O alinhamento foi uma verdadeira viagem pela discografia da banda, com paragens em quase todos os seus álbuns. Houve espaço para clássicos como “Nancy the Tavern Wench”, “Over the Seas”, “Zombies Ate My Pirate Ship” e “P.A.R.T.Y.”, sempre recebidos com braços no ar, refrões entoados a plenos pulmões e um ou outro crowdsurf ocasional. E, claro, a comunhão atingiu o seu auge com os inevitáveis “Mexico” e “Drink” — dois autênticos hinos de celebração descomprometida que transformaram o recinto numa taberna flutuante em pleno coração de Zamora.
Como já é tradição, o momento da versão de “Hangover” (originalmente de Taio Cruz) trouxe ao palco o “tubarão”, uma figura de culto nos concertos da banda, que se envolveu em palhaçadas com o resto da banda enquanto cantava a parte rap do tema.
A despedida, como seria de esperar, foi feita com a ironia britânica que tão bem define o espírito de Alestorm: “Fuck You with an Anchor” serviu de epílogo apoteótico, cantado em uníssono entre gargalhadas, como se de um brinde coletivo se tratasse.
No final, ficou a sensação de que este é daqueles concertos que transcende rótulos e preconceitos: quem vai à procura de técnica pura e introspeção emocional pode até torcer o nariz, mas quem se deixa levar pela energia, pela festa e pela comunhão, não tem como sair defraudado. Alestorm não são apenas uma banda: são um estado de espírito — e, em Zamora, provaram-no mais uma vez.
Alestorm
Na noite anterior ao seu aguardado regresso a Portugal, os Accept protagonizaram um dos concertos mais memoráveis do segundo dia do Z! Live Rock Fest 2025, provando que quase cinquenta anos de carreira não enfraqueceram em nada a sua força, relevância e capacidade de se reinventarem. Com uma atuação coesa, poderosa e emocionalmente carregada, os veteranos do heavy metal alemão conquistaram Zamora do primeiro ao último acorde, diante de uma multidão rendida à sua história — e à sua atualidade.
A banda entrou com os dois pés no presente: “The Reckoning” e “Humanoid”, extraídos do mais recente disco homónimo lançado em 2024, abriram o alinhamento com uma sonoridade moderna, rápida e contundente, que demonstra bem a vitalidade criativa da formação atual. A resposta do público foi calorosa, mas foi com “Restless and Wild” que se deu o primeiro momento verdadeiramente explosivo — uma viagem imediata ao catálogo clássico, onde mora o ADN do heavy metal europeu.
Seguiu-se “London Leatherboys”, outro marco dos anos 80, antes de se regressar ao novo álbum com a roqueira “Straight Up Jack”, que equilibra tradição e energia contemporânea. Mark Tornillo, vocalista desde 2009, mostrou-se seguro e em plena forma vocal, assumindo com naturalidade o papel de frontman, embora seja inevitável que os olhos e os aplausos mais intensos estejam quase sempre reservados para o carismático Wolf Hoffmann. O guitarrista alemão — figura incontornável da banda desde os anos 70 — continua a comandar o palco com uma mescla única de classe, precisão técnica e presença magnética, liderando o agora imponente trio de guitarras da formação atual.
O concerto avançou com um potente medley de clássicos, que incluiu faixas como “Demon’s Night”, “Starlight”, “Losers and Winners” e “Flash Rockin’ Man”, num segmento que funcionou como uma pequena antologia da primeira fase da banda. A reta final manteve a fasquia no auge com os obrigatórios “Breaker”, “Metal Heart” e “Princess of the Dawn”, estas últimas cantadas em êxtase pelo público, que se entregou a cada refrão como se fosse a última vez.
Mas o verdadeiro clímax ainda estava por vir. No encore, os Accept serviram um trio de ouro que encapsula não só a sua carreira, mas também a essência do heavy metal dos anos 80: “Fast as a Shark”, com a sua icónica introdução e aceleração vertiginosa; “Balls to the Wall”, provavelmente o maior hino da banda; e “I’m a Rebel”, uma versão originalmente escrita para os AC/DC, mas que acabou por se tornar uma das canções mais emblemáticas do repertório dos Accept. O público explodiu em comunhão eufórica — braços no ar, coros estrondosos e uma atmosfera elétrica que permaneceu no ar muito depois das luzes se apagarem.
Accept
Já perto da uma da manhã, o ambiente no Z! Live Rock Fest pedia uma viragem emocional, uma mudança de tom após as descargas de peso do dia. Coube aos Saurom esse papel, com uma atuação que prometia — e em parte cumpriu — trazer a fantasia e a emoção para o centro do palco.
Conhecidos pela sua fusão de folk metal, literatura e imagética medieval, os andaluzes trouxeram a palco uma versão mais madura e sóbria do seu espetáculo, bem distante da vibração quase circense que apresentaram em 2017 no Milagre Metaleiro Open Air. Aqui, a proposta foi mais intimista, quase contemplativa por momentos — sustentada apenas por projeções visuais no fundo do palco, num cenário visual que, embora elegante, deixou a sensação de demasiado espaço vazio em palco, algo que por vezes retirava densidade à atuação.
O concerto abriu com a canção-título do mais recente álbum, “El Principito”, claramente o eixo temático do alinhamento escolhido. A banda apostou em várias faixas deste trabalho, como “Baobabs”, “Todo en mi vida” e “El rey que no sabía mandar”. A inclusão da sua sentida versão de “La Llorona” reforçou o tom emocional do alinhamento. No entanto, nem tudo correu como esperado. A performance foi prejudicada por desiquilíbrios de som, com alguns instrumentos a surgirem descompensados na mistura, enquanto a voz de Miguel Ángel Franco esteve demasiado proeminente — por vezes com ligeiras distorções — o que quebrou a harmonia geral e comprometeu momentos que exigiam delicadeza ou potência equilibrada.
O passado dos Saurom também esteve presente com clássicos como “La batalla con los cueros de vino”, “El círculo juglar” e, claro, “La Taberna”, esta última a encerrar o espetáculo com o espírito festivo.
Para quem já conhecia a banda — e especialmente para quem a viu em anos anteriores — ficou um sentimento misto: por um lado, a admiração por uma banda que continua a crescer e a explorar novas nuances na sua música; por outro, alguma desilusão perante uma atuação que, apesar da nobre intenção e maturidade artística, não atingiu todo o seu potencial.
Já depois das duas da manhã, e para encerrar o segundo dia do Z! Live, entraram em palco os Lujuria, liderados pelo incansável e irreverente Óscar Sancho.










































































































































































































































