Texto: Rui Teixeira.
Fotos: Rafael Correia e Tânia Roque.
HardMetalFest 2026
C.C. Santo André (Mangualde), 10.01.2026
Como já é tradição, o Mangualde Hardmetal Fest inaugurou o calendário de festivais em Portugal e foi o local de romaria de muitos metaleiros. Num sábado muito frio, mas felizmente este ano sem chuva, as portas abriram-se bem cedo para uma maratona musical recheada de pontos de interesse.
As honras de abertura couberam aos thrashers Warout, que com uma entrada a todo o gás, provocaram os primeiros headbangs da tarde. Atuação curta de cerca de 30 minutos, mas onde não faltaram aquelas músicas que todos queremos ouvir como “Warout”, “Addicted To Violence” e “Thrash Attack”. Com o público ainda a chegar, esta foi uma excelente abertura de festival e que começou a aquecer as hostes metaleiras.
De seguida tivemos em palco uma das propostas mais interessantes e das minhas preferidas do black/death metal nacional, os Dishonour. Formados por membros amplamente conhecidos do nosso underground e com o Gaspar Ribeiro a assegurar a bateria, ofereceram-nos uma descarga brutal de luciferian death metal. Abertura com a faixa “Path To a Bleeding Day” e de seguida as quatro faixas que compõem o EP de 2023 “Erasing The Rats” elevaram a fasquia de qualidade e brutalidade. Até final mais três faixas com destaque para o fecho da atuação com “Nuclear Manifesto”, que confirmou os Dishonour como um valor seguro e que receberam uma ótima receção do público.
Dishonour (Rafael Correia)
Os Tones of Rock surgiam nesta edição do Mangualde Hardmetalfest como representantes do metal menos pesado e agressivo. E provaram que existe espaço para todos os géneros, com uma performance que cativou todos os presentes. Glam rock a fazer-nos recuar aos anos 80-90, visual bem cuidado e artefactos em palco como uma boneca insuflável, fizeram a festa e deixaram a sua marca. Abriram com “Game is On” e depois ficaram-me no ouvido temas como “Glam Robot” e “Milfshake”, naquela que foi no meu caso, uma surpresa muito agradável ver Tones Of Rock pela primeira vez ao vivo.
Tones of Rock (Rafael Correia)
Vindos do Algarve, tivemos em palco os Els Focs Negres. Depois de os ter visto no SWR de 2025, era muito grande a vontade de os rever, já que são uma lufada de ar fresco no que se vai fazendo no metal nacional. Ao heavy mais tradicional dão uma roupagem com laivos de black, thrash e speed muito interessante. Se a isto associarmos uma excelente presença em palco e energia contagiante, temos os ingredientes perfeitos para mais um grande concerto, que foi o que aconteceu em Mangualde.
O concerto abriu com “Focs Negres” e “Les Nits Grotesques” do 1º LP de 2020 “Els Focs Negres” e passou depois pelo 2º LP de 2023 “Martiris Carnívors – Himnes Per A Un Nou Apocalipsi” com três faixas, para depois fechar em grande com “Monestirs de Sang de Porc” e claro “Rock n´Roll”. Um dos momentos altos do festival.
Els Focs Negres (Rafael Correia)
A primeira banda internacional a subir a palco seriam os suecos Doomherre. Sendo o doom metal um sub-género bem específico e particular, tem mostrado nas sucessivas edições do Mangualde Hardmetalfest que é muito querido e apreciado pelo público português. E assim foi mais uma vez com os Doomherre, numa atuação que foi em crescendo e colando os ouvidos e olhos dos presentes no palco. Talvez por não saberem muito bem o que iriam encontrar, começaram um pouco contraídos, mas perante as reações conseguidas, rapidamente se soltaram para uma grande atuação. Nem mesmo com o sangramento abundante de um dedo do baixista que foi sendo auxiliado pelo público no sentido de resolver a situação, esfriou o ambiente e as sonoridades arrastadas e poderosas conquistaram Mangualde.
Doomherre (Rafael Correia)
Com o início da noite e a sala já praticamente cheia, demos as boas vindas aos thrashers alemães Darkness. Com 40 anos de carreira, ofereceram-nos uma lição devastadora de puro thrash. Muito experientes e competentes, rapidamente perceberam onde estavam, da fome e fúria do público pelos mosh pits, stage diving e crowdsurfing. O incitamento por parte da banda era constante e o caos e loucura instalou-se na sala, onde era impossível ficar parado perante o ritmo da bateria e dos riffs de thrash old school debitados. O setlist percorreu a longa carreira da banda, com destaque para 2 faixas do primeiro álbum de 1987 “Death Squad”, e “Iron Force” e onde foram ainda revisitados “The Gasoline Solution” de 2016 e “First Class Violence” de 2018. Um dos momentos mais altos deste Mangualde Hardmetalfest a prestação arrasadora dos Darkness.
Darkness (Rafael Correia)
Seguimos com o contingente alemão e recebemos agora os Warrant. Banda formada em 1983 que depois teve um hiato, regressando ao ativo em 1999 até ao presente. Depois dos seus antecessores terem colocado a fasquia muito alta, era difícil manter a bitola e de facto este concerto foi mais “calminho”, o que não significa que em termos de qualidade não tivesse sido mais um excelente momento. Dignos representantes do speed metal, os Warrant deram uma demonstração de técnica irrepreensível. Muito apreciada foi a presença do The Enforcer, personagem encapuçada primeiro e depois uma caveira, que munida de armas letais deu um toque de horror movie à atuação. O setlist apresentado teve em grande destaque os trabalhos de 1985 “The Enforcer” e “First Strike”, dos quais ouvimos oito faixas o que agradou e muito aos fãs old school.
Warrant (Rafael Correia)
A estreia em solo nacional das Asagraum era aguardada com grande expectativa, sendo recebida por uma sala cheia e efervescente. Hanna Van Den Berg e Amber de Buijzer lideraram uma prestação arrasadora de black metal que convenceram por completo a audiência. A baterista Amber deu um verdadeiro recital de bem tocar black metal, comandando de forma eximia a banda, sendo acompanhada pelos vocais rasgados e agressivos de Hanna, criando uma atmosfera inebriante. As faixas “Veil Of Death, Ruptured”, “Impure Fire” e “De Waanzin Roept Mijn Naam” foram as escolhidas do último álbum de 2023 “Veil Of Death Ruptures” para fazerem parte do setlist, que abriu com “They Crawl From The Broken Circle” do ábum “Dawn Of Infinite Fire” de 2020, do qual nos ofereceram ainda a faixa que dá título ao álbum e a faixa com que fecharam o set, “Waar Ik Bem Komt De Dood”. Sem dúvida um concerto memorável esta primeira presença de Asagraum em Portugal.
Asagraum (Tânia Roque)
E chegava a hora de dar as boas vindas a uma das bandas de culto do underground britânico, os Destroyer 666. A aglomeração de metal maniacs na frente do palco fazia prever um grande momento e assim foi. Black/thrash debitado de forma frenética levaram a sala à loucura coletiva. Liderados por K.K. Warslut arrasaram por completo este Mangualde Hardmetalfest duma forma convincente. Num set extenso, percorreram vários álbuns da carreira com destaque para as faixas “Guillotine” e “Never Surrender” do último trabalho de 2022 e faixas mais antigas como “Traitor” e “Lone Wolf Winter”, tendo fechado em grande estilo com as excelentes “Satanic Speed Metal” e a cover de “Iron Fist” dos Motorhead com dedicatória especial ao eterno Lemmy. Mais um registo para ficar na história do Mangualde Hardmetalfest.
Destroyer 666 (Rafael Correia)
A noite já ia longa, mas as energias estavam agora todas concentradas para recebermos os headliners desta edição, os suecos The Crown. Com 35 anos de carreira, estranhamente esta era a estreia da banda em Portugal, coincidindo também com a tour de despedida, sendo, portanto, uma oportunidade única de ver a banda ao vivo. E em boa hora passaram por cá, já que nos proporcionaram uma verdadeira lição de death/thrash.
O setlist foi um verdadeiro festim para os fãs old school da banda, com faixas como “The Pooison”, “At The End” e “Black Lightning” do álbum de estreia de 1999 “Hell Is Here”, passando por “Deathexplosion”, “Executioner” e “Blitzekiege Witchcraft” do álbum “Deathrace King” de 2000. Um dos pontos altos, foi revisita ao fantástico álbum “Crowned in Terror” de 2002 com a faixa título. Com a mosh pit incessante e sem dar tréguas, a satisfação da banda era evidente, que melhor maneira de abrir a tour de despedida senão esta, público conquistado pela banda e vice-versa. Os The Crown fizeram valer a espera de 35 anos e cada segundo desta presença em Mangualde foi vivido intensamente.
The Crown (Rafael Correia)
As honras de fecho couberam aos nacionais Tvmvlo. Já passava das 2h00 da manhã e normalmente a sala por estas alturas, fica mais despida de público, permanecendo apenas os resistentes. Mas este ano seria diferente e esse será talvez o melhor elogio a fazer aos Tvmvlo, que conseguiram manter uma sala muito bem composta, provando que de facto são um dos nomes mais apreciados do death metal nacional. E bem o mereceram, com mais uma atuação brutal e poderosa que encerrou em grande estilo a edição 31 do Mangualde Hardmetalfest. Que chegue rápido a 32ª.



































































































































































































