Texto e fotos: Edgar Silva
Pennywise + End It + Soul Crusher
Coliseu dos Recreios (Lisboa), 30.06.2026
Na história de qualquer cena musical, há noites que se tornam divisores de águas. A última noite no Coliseu dos Recreios foi, indiscutivelmente, uma dessas datas. Num exercício de força que uniu a agressividade visceral do hardcore nacional à mística lendária do punk rock californiano, a promotora Hell Xis não só esgotou a mítica sala lisboeta, como provou que o público português está mais faminto do que nunca por música com alma e peso.
A abertura da noite estava reservada para os Soul Crusher. Quando se juntam no mesmo palco figuras como Ricardo “Congas” Dias (a voz icónica dos For The Glory) e o incansável Mike Ghost, a expectativa é naturalmente elevada. No entanto, a banda superou qualquer métrica.
Não se tratou apenas de um concerto de estreia; foi uma declaração de intenções. Com uma sonoridade que destila as raízes mais puras do punk hardcore — direta, pesada e sem concessões — o grupo comandado por Congas e Ghost demonstrou um entrosamento de quem toca junto há décadas. A plateia, que encheu a sala ainda durante as primeiras horas da noite, respondeu com uma intensidade que transformou o Coliseu num caldeirão de energia. Os Soul Crusher deixaram de ser uma promessa para se tornarem, a partir desta noite, num pilar fundamental para o futuro do género em Portugal.
Soul Crusher
Com a fasquia elevada pelos portugueses, os norte-americanos End It subiram ao palco com a missão de manter o “sismo” ativo. Integrados na sua digressão ao lado dos Pennywise, esta era a sua primeira vez em Portugal, e a forma como dominaram o recinto não deixou dúvidas sobre o porquê do seu nome estar na boca de todos os fãs de hardcore moderno.
Sem rodeios, dispararam um set agressivo, rápido e absolutamente contagiante. O público lisboeta, conhecido pelo seu fervor, rendeu-se à atitude carismática e à entrega crua do coletivo de Baltimore. O moshpit que se formou no centro da pista foi o reflexo mais claro da conexão estabelecida. Foi uma lição de hardcore puro: sem artifícios, apenas atitude, riffs cortantes e uma entrega vocal visceral. A estreia foi irrepreensível, e o sentimento geral na sala era de que, lamentavelmente, demorou demasiado tempo até que os End It chegassem ao nosso país.
End It
Quando as luzes baixaram para a entrada dos Pennywise, a atmosfera no Coliseu era elétrica. Vinte anos de espera pesavam, mas foram dissipados num nanossegundo. A banda regressou a Portugal para encontrar um cenário que muitos pensavam ser impossível: uma sala completamente esgotada e um público que, pela forma como cantava cada sílaba, parecia ter ensaiado este reencontro diariamente.
“Peaceful Day” funcionou como o rastilho que deu início a uma sucessão ininterrupta de hinos. Jim Lindberg e Fletcher Dragge mostraram uma forma física e uma entrega que desafiam as leis da biologia. Aos 60 anos, e com uma carreira recheada de quilómetros de estrada, os californianos continuam a possuir uma vitalidade invejável. Não houve espaço para descanso, apenas para a catarse coletiva.
O alinhamento foi construído como um mapa da história do punk rock: “Straight Ahead”, “Same Old Story” e o inevitável tema homónimo “Pennywise” foram disparados como balas, mantendo a intensidade no limite da resistência humana.
Contudo, o momento de clímax — e possivelmente um dos pontos mais altos de concertos em Portugal este ano — ocorreu durante o final. Quando os acordes iniciais de “Bro Hymn” ecoaram pelo Coliseu, o público elevou a fasquia do volume a um nível ensurdecedor. Foi um momento de comunhão total. As vozes do público, a unirem-se num só coro, abafaram quase por completo o sistema de som da banda. Foi o fecho perfeito para uma noite que, para além da música, provou que a ligação entre os artistas e a comunidade de fãs em Portugal é inquebrável.
O Coliseu dos Recreios não foi apenas o palco de um grande concerto; foi o cenário de uma celebração histórica que reafirmou a importância do hardcore e do punk rock no panorama cultural português. O Caminhos Metálicos esteve presente e confirma: o peso continua a ditar as regras.






























































