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Fotos e Texto: Edgar Silva.

Rock in Rio – Lisboa
Sepultura, P.O.D., Cypress Hill, Blasted Mechanism, Tara Perdida,
Parque Tejo (Lisboa), 21.06.2026

Sob um sol brutal de início de tarde, os TARA PERDIDA, mítica banda de punk rock nacional, encontraram uma plateia surpreendentemente composta e arrancou o concerto com o hino “O Que É Que Faço Aqui”.

Passavam poucos minutos das 15h00 quando os primeiros acordes pesados rasgaram o ar abafado do Parque Tejo. Estava dado o pontapé de saída para o segundo dia do Rock in Rio Lisboa 2026, uma jornada que prometia ser histórica, mas que começou com um desafio extra: um calor abrasador que testou a resistência dos festivaleiros mais destemidos.

A responsabilidade de abrir as hostilidades coube aos veteranos Tara Perdida. Vinte anos após a sua última passagem pelo festival, o ícone maior do punk rock português regressou para celebrar três décadas de carreira e provar que o género continua vivo, independentemente da temperatura que marque o termómetro.

Mal a banda subiu ao palco, a resposta ao microfone veio em forma de provocação e nostalgia com o clássico “O Que É Que Faço Aqui”. O tema, entoado em uníssono, serviu de resposta imediata para as pessoas que decidiram entrar cedo no recinto. Em frente ao palco, a plateia apresentava-se surpreendentemente composta para a hora, preenchida por uma mistura transgeracional de fãs de longa data e jovens que faziam questão de garantir o seu lugar na linha da frente.

O cenário na moldura humana era de pura sobrevivência e dedicação. Debaixo de um sol brutal e sem tréguas, os braços erguiam-se entre bonés, óculos de sol e camisas abertas. O pó levantado pelos primeiros saltos e pelos tímidos mosh pit smisturava-se com o vapor dos jatos de água que a organização ia lançando para refrescar o público.

A energia crua e direta da banda não deu margem para o cansaço. Os Tara Perdida entregaram um alinhamento enérgico, sem filtros, mostrando que a atitude punk não se desgasta com o clima nem com o passar dos anos. Quando o concerto terminou, a sensação era de missão cumprida: os Tara Perdida não só sobreviveram ao batismo de fogo da tarde, como deixaram a Cidade do Rock devidamente aquecida literal e figurativamente para o resto da noite.

Com o público rendido ao clássico “New Militia”, os BLASTED MECHANISM transformaram o entardecer do festival numa celebração tribal, onde as icónicas máscaras e a fusão eletrónica ditaram as regras.

Se o início da tarde foi de resistência punk, o final de tarde no Palco Super Bock transformou-se num autêntico ritual de outra galáxia. Os Blasted Mechanism, uma das bandas mais vanguardistas e visualmente impactantes da música portuguesa, subiram ao palco para assinar um dos momentos mais magnéticos e energéticos desta edição do Rock in Rio.

As expectativas eram elevadas, mas foram superadas logo nos primeiros segundos. A banda entrou em cena com “New Militia”, um dos seus temas mais emblemáticos. A escolha não podia ter sido mais certeira para ditar o tom da performance: o ritmo característico deles — aquela fusão única e inconfundível de rock alternativo, eletrónica, drum ‘n’ bass e sonoridades tribais — ecoou com uma potência avassaladora pelos amplificadores.

Como seria de esperar, a identidade visual do grupo voltou a ser o centro das atenções. Fiéis ao seu universo conceptual, os Blasted Mechanism apresentaram-se com as suas icónicas e elaboradas máscaras e fatos de inspiração alienígena e futurista. O aparato cénico, longe de ser apenas um adereço, fundiu-se perfeitamente com a música, criando uma atmosfera mística que hipnotizou a multidão.

A resposta do público foi imediata e avassaladora. Ao primeiro compasso da bateria e do didge, o Palco Super Bock transformou-se num mar de corpos a saltar em perfeita sintonia. Não houve espaço para a apatia: a plateia, em total comunhão com a banda, cantou cada palavra do refrão de “New Militia” a plenos pulmões.

O concerto provou que, mesmo após décadas de estrada, os Blasted Mechanism mantêm intacta a capacidade de eletrizar grandes massas. Entre a forte herança rítmica e a teatralidade das suas máscaras, a banda assinou uma das atuações mais coesas e aplaudidas do dia, deixando o Palco Super Bock em autêntico estado de transe.

Sem meias medidas: P.O.D. assinam abertura estrondosa com “Boom” e quebram barreiras com o público

Se algumas bandas preferem estudar o terreno antes de arriscar, os P.O.D. (Payable on Death) escolheram o caminho inverso. Os gigantes do nu-metal norte-americano assinaram uma das aberturas mais estrondosas e viscerais desta edição do Rock in Rio, deitando por terra qualquer barreira entre o palco e a multidão logo ao primeiro segundo.

O aviso de que não haveria espaço para momentos mornos veio sob a forma de “Boom”. O icónico e explosivo tema de 2001 abriu o alinhamento e funcionou como um autêntico detonador na Cidade do Rock. Perante os primeiros acordes pesados e a batida esmagadora, o público — que já se contava aos milhares — reagiu instantaneamente, criando as primeiras grandes ondas de saltos no recinto. Mas o verdadeiro momento alto do arranque aconteceu quando o vocalista Sonny Sandoval decidiu que o palco era pequeno demais para a fome de rock da banda. Sem meias medidas ou hesitações, o frontman desceu a estrutura de segurança e foi cantar diretamente ao pé do público, colado às grades.

A audácia de Sandoval transformou a energia do concerto em algo verdadeiramente contagiante. Rosto contra rosto com os fãs da linha da frente, o vocalista partilhou o microfone e alimentou a adrenalina de uma plateia que se entregou por completo. A partir daí, o concerto seguiu em formato de comunhão absoluta.

Demonstrando que a sua base de fãs em Portugal continua tão fiel e fervorosa como nos anos 2000, o público não se limitou a saltar: cantou as músicas todas do início ao fim, acompanhando as rimas e os refrões melódicos com uma devoção que impressionou a própria banda.

Entre a agressividade rítmica do nu-metal e as mensagens espirituais e positivas que caracterizam o grupo, os P.O.D. deixaram uma marca indelével no festival. Provaram que, mesmo com mais de três décadas de carreira, continuam a dominar a arte de agarrar uma multidão pela gola da camisola e levá-la ao delírio sem precisar de pedir licença.

História viva no Rock in Rio: O privilégio (despercebido por alguns) de ver os lendários CYPRESS HILL.

Há concertos que valem pela energia do momento e há outros que valem pelo peso da história que carregam. A atuação dos Cypress Hill nesta edição do Rock in Rio Lisboa pertenceu, sem sombra de dúvidas, à segunda categoria. A mítica formação da Califórnia subiu ao Palco Mundo para dar uma autêntica lição de sobrevivência, ritmo e atitude, lembrando a todos o porquê de serem uma das bandas mais respeitadas e influentes da história do hip-hop.

Com mais de três décadas de uma carreira pioneira, o grupo liderado por B-Real e Sen Dog não precisou de artifícios para impor a sua presença. O som pesado das batidas de DJ Muggs combinou na perfeição com a percussão ao vivo e com o tom nasalado e inconfundível de B-Real, que rapidamente envolveu o Parque Tejo numa atmosfera densa e nostálgica.

Apesar da receção calorosa e dos milhares de fãs veteranos que cantaram cada rima com devoção, o concerto deixou no ar uma sensação agridoce para os ouvintes mais atentos. No meio de uma Cidade do Rock preenchida por um público marcadamente jovem e transgeracional, tornou-se evidente que muita gente que esteve lá não tinha a real noção do privilégio que foi vê-los tocar ao vivo. Estar diante dos Cypress Hill em 2026 é testemunhar a história viva da cultura urbana; é ver os primeiros latinos a alcançar a platina no rap e os homens que esbateram as fronteiras entre o hip-hop e o rock alternativo quando muitos achavam isso impossível.

Para quem conhece o percurso, a passagem dos Cypress Hill por Lisboa foi um luxo absoluto e um dos maiores marcos históricos desta edição. Para os mais novos que por ali passeavam distraídos, foi uma oportunidade de ouro — consciente ou inconscientemente — de ver como se comporta uma verdadeira lenda em cima do palco.

O último rugido dos SEPULTURA em Portugal: Adeus histórico e “loucura” no Palco Music Valley

Havia uma eletricidade diferente no ar em redor do Palco Music Valley. Muito antes dos primeiros acordes ecoarem, a plateia já estava completamente on fire. Sentia-se a urgência histórica no público: aquela não era apenas mais uma atuação do Rock in Rio, era a última oportunidade de ver os Sepultura em solo português, integrados na sua digressão de despedida que celebra quatro décadas de um legado incontornável no metal mundial.

Mesmo estando hoje longe da sua formação original — com Derrick Green há mais de duas décadas na voz e Andreas Kisser a liderar as guitarras —, a essência e o peso esmagador da marca Sepultura mantêm-se intactos. A banda não veio para lamentos, veio para celebrar a sua história com a máxima agressividade e respeito pelos fãs.

A fasquia subiu de forma abrupta logo nos primeiros momentos do alinhamento. Quando a banda disparou o clássico “Inner Self”, extraído do icónico álbum Beneath the Remains (1989), começou a loucura total no recinto. O público explodiu num dos maiores e mais caóticos mosh pits alguma vez vistos naquele palco, com poeira e corpos a voar numa catarse coletiva de pura energia.

O concerto foi um desfilar de clássicos que moldaram o thrash e o groove metal ao longo de quarenta anos. A precisão técnica e a fúria despejada em palco serviram para lembrar por que razão a banda brasileira se tornou um dos maiores produtos de exportação da música pesada global.

Para o fecho de um ciclo histórico, a escolha era óbvia e obrigatória. Os Sepultura despediram-se do festival e de Portugal com o estrondo de “Roots Bloody Roots”. O Parque Tejo veio abaixo, com milhares de vozes a gritar o refrão em uníssono, num misto de celebração e despedida.

O concerto terminou com uma ovação monumental. Os Sepultura despedem-se assim dos palcos portugueses deixando o Music Valley em cinzas, assinando um adeus digno da realeza do metal.

O recomeço dos LINKIN PARK em Lisboa: Entre a sombra do passado e o rugido do futuro

Perante uma multidão expectante, a banda norte-americana inaugurou o seu novo capítulo no Rock in Rio com uma homenagem a Chester Bennington, a estreia de Emily Armstrong e um alinhamento avassalador que viajou dos novos temas aos hinos de sempre.

O ambiente no Palco Mundo transcendia o de um concerto normal; parecia um julgamento histórico e uma celebração, tudo ao mesmo tempo. Doze anos após a sua última atuação no festival, os Linkin Park regressavam a Lisboa para o concerto mais aguardado desta edição. O pretexto era a apresentação de um capítulo totalmente novo, o primeiro de grande escala desde a morte prematura do eterno vocalista Chester Bennington, em 2017.

A carga dramática começou antes mesmo da banda pisar o palco. Os ecrãs gigantes iluminaram-se para a apresentação de um trecho de um documentário sobre o grupo, detalhando o hiato, a dor da perda e o processo de reconstrução. Seguiu-se uma contagem decrescente que elevou a ansiedade coletiva ao limite. Quando o contador chegou ao zero, o rugido do público fundiu-se com a música de abertura: “The Emptiness Machine”, o explosivo single de avanço do novo álbum do grupo.

Inevitavelmente, todos os olhos e ouvidos estavam postos em Emily Armstrong, a nova coprotagonista vocal ao lado de Mike Shinoda. Assumir o lugar de uma das vozes mais icónicas do século XXI é uma tarefa hercúlea, e a reação do público refletiu isso mesmo: provou ser uma escolha certeira para alguns, que aplaudiram a sua impressionante potência vocal e capacidade de rasgar a voz nos momentos mais agressivos, enquanto para outros não, mantendo-se a ala dos céticos que consideram o legado de Chester insubstituível.Alheia às divisões, a banda desfilou uma energia impressionante. Um dos grandes momentos da primeira metade do espetáculo chegou com o ritmo frenético de “Bleed It Out”, que pôs o Parque Tejo a saltar em uníssono, provando que a química instrumental do grupo continua intacta.

O verdadeiro teste de fogo e a redenção final estavam guardados para o final. Após uma breve ausência do palco, a banda regressou para um encore avassalador, focado na era de ouro que definiu o nu-metal na viragem do milénio.

A abrir o regresso, a batida seca e as rimas cortantes de “Papercut” reergueram a energia do recinto. Mas o momento de maior catarse coletiva aconteceu logo a seguir, com “In the End”. Ouvir dezenas de milhares de pessoas a cantar as estrofes de Shinoda e o refrão icónico em uníssono foi o testemunho definitivo de que, independentemente de quem agarre o microfone, as canções dos Linkin Park pertencem agora à história e ao público. A banda provou em Lisboa que a máquina continua bem viva e pronta para o futuro.