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Texto: Rui Teixeira.
Edição Vídeo: Carlos Guimarães
Captação Vídeo: Rui Teixeira, Booby Trap

D.R.I. + Trinta & Um + Booby Trap
Outsite Mouco (Porto), 04.07.2025

 

Na noite de 4 de julho, a Sala Mouco, no Porto, começava a encher-se com um fervilhar de entusiasmo e expectativa. O cartaz prometia uma noite histórica, com os icónicos D.R.I. como cabeça de cartaz, mas coube aos Booby Trap, de Aveiro, a responsabilidade (e o privilégio) de abrir as hostilidades. E não poderia haver escolha mais certeira para aquecer o ambiente — ou melhor, para o incendiar por completo.

A jogar praticamente em casa, os Booby Trap entraram em palco com a confiança e agressividade sonora que lhes são características, trazendo consigo um thrashcore direto, rápido e sujo, mas sempre envolto numa crítica social afiada e bem-humorada. Mal soaram os primeiros acordes, os circle pits começaram a formar-se, dando o tom para uma atuação sempre de prego a fundo, onde a palavra “abertura” só faz sentido no sentido literal: abriram a noite como se fosse o clímax.

Entre temas carregados de peso e atitude, os discursos entre músicas não foram meros preenchimentos: a banda aproveitou os momentos entre faixas para lançar farpas certeiras ao estado do mundo, sempre com a dose certa de ironia e irreverência. Um dos momentos mais marcantes da atuação foi a apresentação de “O Bom, o Mau e o FDP”, faixa dedicada com clareza e sarcasmo “aos Putins e Trumps deste mundo” — arrancando tanto aplausos como gargalhadas cúmplices da audiência. Pelo meio ainda tocaram novas malhas cantadas em português como “Sorte Maldita”, “Um Dia de Cada vez” ou “Canção do Bandido”

Apesar da curta duração do set, os Booby Trap mostraram por que razão continuam a ser um dos nomes mais respeitados da cena underground nacional. Com uma entrega imaculada e uma energia contagiante, prepararam o terreno na perfeição para os DRI, sem nunca se colocarem na sombra. Antes, assumiram-se como parte integral da noite — não apenas uma abertura, mas um arranque memorável para um evento que ficará na memória de muitos.

No Porto, o underground brilhou com luz própria. E os Booby Trap, fiéis ao seu ADN, mostraram que há bandas nacionais que, quando sobem ao palco, não aquecem: incendeiam.

Vindos de Linda-a-Velha, os Trinta & Um trouxeram à Sala Mouco uma boa dose de hardcore combativo, direto e de coração na boca. A banda, formada por músicos experientes e com raízes bem firmes na cena underground nacional, apresentou um set coeso e carregado de mensagem, numa noite em que o punk e o metal se cruzaram em palco para celebrar resistência, atitude e comunidade.

Apesar de um início algo morno, com o público ainda a aquecer motores após a descarga dos Booby Trap, os Trinta & Um mantiveram-se fiéis ao seu estilo: sem pressas, mas com firmeza. A reação demorou, mas acabou por surgir, muito graças à persistência da banda e ao apoio visível de alguns fãs mais fervorosos na plateia, que funcionaram como catalisadores da energia. Pouco a pouco, a sala começou a mexer — e quando mexe com hardcore, mexe a sério.

Entre faixas, houve espaço para elogios à cidade do Porto, à sua comida, bebida e ao público, com quem os músicos revelaram ter uma ligação afetiva especial. A simpatia e o à-vontade com que comunicaram com a audiência ajudaram a cimentar essa relação, arrancando aplausos sinceros e momentos de boa disposição entre canções.

Já com a sala conquistada, o concerto foi subindo de intensidade, culminando nos dois momentos mais marcantes da atuação: “Vozes sem Cor” e “Sintra”, dois temas que conjugam força lírica e peso instrumental, encerrando a atuação com uma nota alta de emoção e contundência.

No final, os Trinta & Um assinaram uma prestação muito positiva, que provou mais uma vez que o hardcore nacional continua vivo, relevante e com espaço próprio no ecossistema musical português. Num alinhamento marcado por nomes internacionais de peso, o coletivo da Margem Sul mostrou que o underground também tem palco — e que sabe muito bem como o ocupar.

Na noite de 4 de julho, o Porto recebeu um dos nomes lendários do crossover thrash mundial: os Dirty Rotten Imbeciles, ou simplesmente D.R.I., subiram ao palco da Sala Mouco e ofereceram um concerto que mais do que espetáculo, foi um manifesto vivo de resistência musical, energia sem filtros e devoção ao underground.

Para quem chegava cedo, o espírito da banda estava já à vista: Kurt Brecht, icónico vocalista e fundador dos D.R.I., estava tranquilamente atrás da mesa de merchandise, conversando, tirando fotos e vendendo t-shirts com a mesma simplicidade com que há mais de 40 anos grita “I don’t need society”. Esse gesto, longe de ser um detalhe, resume bem o ethos de uma banda que sempre privilegiou a proximidade com os fãs em vez de vedetismos.

Quando, à hora marcada, o grupo entrou em palco, o Mouco estava praticamente cheio e recebeu-os com uma autêntica ovação de culto. E a partir daí, o caos foi meticulosamente organizado em noventa minutos de destruição sonora: 29 temas, num alinhamento que não deu tréguas e que transformou a sala num campo de batalha de circle pits, stage diving e crowdsurfing — o manual completo da celebração hardcore/thrash em alta velocidade.

Com Kurt Brecht mais comunicativo do que o habitual, o público foi brindado com pequenas confissões entre músicas. O vocalista lamentou não tocar mais vezes em Portugal, mas justificou: “O mundo lá fora é enorme” — uma constatação honesta e que só adensou o calor com que foram recebidos. Spike Cassidy, eterno guitarrista da banda e outro dos rostos imortais do género, manteve o seu sorriso aberto e simpatia inabalável durante toda a atuação. É notável como, após tantas décadas, a sua presença em palco continua a ser uma mistura contagiante de profissionalismo descontraído e entrega total.

O alinhamento foi uma viagem no tempo, com paragens obrigatórias em hinos como “Hooked”, “Gone Too Long”, “Acid Rain”, “Beneath the Wheel”, entre muitos outros. Cada faixa era recebida com gritos de reconhecimento e corpos em movimento, sem pausa para respirar.

Para o final, guardaram um clímax demolidor: “Abduction” e, claro, a inevitável “Five Year Plan”. Foi com os primeiros acordes deste clássico que a sala explodiu num caos absoluto, com o refrão “I WIN, YOU LOSE” entoado como um grito primal por todos os presentes. Um momento de comunhão ruidosa que selou de forma inesquecível uma noite de pura devoção ao thrash e ao hardcore.

Os D.R.I. mostraram que, quatro décadas depois de terem começado esta jornada, continuam a ser mais do que uma banda: são uma instituição viva do metal/punk underground. E no Porto, deixaram claro que envelhecer não é sinónimo de abrandar — pelo contrário, é saber onde acelerar ainda mais.