Texto e Captação Vídeo: Gonçalo Januário.
Fotos: Pedro Almeida.
Edição Vídeo: Carlos Guimarães
Suffocation + Ingested + Undeath + Eternal
Lisbon Stage (Parque das Nações, Lisboa), 23.10.2026
No passado dia 23 de outubro de 2026, a Lisbon Stage, em Lisboa, transformou-se num verdadeiro epicentro de brutalidade sonora. Integrada numa digressão que reuniu quatro nomes de diferentes gerações e abordagens do death metal extremo, a noite contou com a participação dos norte-americanos Eternal e Undeath, dos britânicos Ingested e dos lendários Suffocation, oriundos de Nova Iorque. Uma sucessão de atuações que percorreu diferentes territórios da música extrema, do peso sombrio ao death metal old school, passando pelo slam, deathcore e pela complexidade técnica do brutal death metal.
Com uma proposta assente na intensidade, na agressividade e no impacto físico da música, o alinhamento foi construído de forma progressiva, preparando o público para uma noite em que os momentos de maior violência sonora encontraram resposta numa audiência cada vez mais envolvida.
Coube aos Eternal, provenientes do Arizona, a responsabilidade de dar início à noite. A banda entrou em cena com uma abordagem pesada e sombria, criando a atmosfera necessária para inaugurar uma jornada dedicada às sonoridades mais extremas do metal.
Num recinto que começava a receber os primeiros movimentos junto ao palco, a atuação serviu de ponto de partida para uma noite marcada pela intensidade. A densidade sonora e o ambiente negro da proposta dos norte-americanos estabeleceram desde cedo o tom para aquilo que se seguiria, preparando o terreno para a entrada de uma formação que levaria o death metal numa direção mais próxima das suas raízes.
Eternal
Vindos também dos Estados Unidos, os Undeath trouxeram a Lisboa uma abordagem de death metal profundamente enraizada na tradição old school. Riffs diretos, ritmos contundentes e um groove pesado definiram uma atuação que privilegiou o impacto imediato, sem abdicar da identidade crua e visceral que caracteriza este universo musical.
A banda revelou uma presença em palco comunicativa, estabelecendo uma ligação eficaz com o público e contribuindo para elevar gradualmente a temperatura dentro da sala. A combinação entre a agressividade instrumental e a dinâmica das composições encontrou eco numa audiência cada vez mais recetiva, criando as condições ideais para a escalada de intensidade que se aproximava.
Os Undeath funcionaram, assim, como uma ponte entre a atmosfera inicial e a dimensão mais física e devastadora das atuações seguintes, reafirmando a vitalidade de uma vertente do death metal que continua a encontrar no peso dos riffs e na força dos ritmos a sua principal razão de ser.
Undeath
Com a chegada dos Ingested, provenientes de Manchester, o ambiente na Lisbon Stage ganhou uma nova dimensão. Na qualidade de co-cabeças de cartaz, os britânicos apresentaram uma descarga sonora assente na combinação de slam, brutal death metal e elementos de deathcore, explorando uma sonoridade densa, agressiva e construída para provocar uma reação imediata.
A atuação destacou-se pela intensidade rítmica, pelos momentos de maior peso e pela capacidade de transformar a música numa experiência eminentemente física. Os breakdowns e as passagens mais esmagadoras serviram de combustível para os mosh pits, enquanto os momentos de maior confronto coletivo encontraram expressão nos wall of death que agitaram o público.
A resposta da audiência portuguesa demonstrou a recetividade à proposta dos britânicos, cuja música encontra na conjugação entre brutalidade, groove e impacto rítmico uma das suas principais forças. Sem conceder tréguas, os Ingested elevaram a fasquia e prepararam o recinto para o derradeiro capítulo da noite.
A sua atuação representou um dos momentos de maior intensidade física do alinhamento, consolidando a transição entre a abordagem mais tradicional dos Undeath e o universo técnico e devastador que os cabeças de cartaz estavam prestes a apresentar.
Ingested
A responsabilidade de encerrar a noite pertenceu aos Suffocation, nome incontornável na história do brutal death metal e uma das formações fundamentais para o desenvolvimento da vertente técnica e extrema do género. Oriundos de Nova Iorque, os norte-americanos subiram ao palco com o peso de uma carreira que ajudou a definir os parâmetros de uma linguagem musical assente na complexidade, na velocidade e na violência sonora.
Com Ricky Myers na voz, a banda apresentou uma atuação marcada pela precisão instrumental e pela alternância entre passagens de elevada exigência técnica e momentos de peso esmagador. A bateria, fundamental para sustentar as constantes mudanças rítmicas, articulou-se com os riffs intrincados e as estruturas imprevisíveis que constituem uma das assinaturas dos Suffocation.
A voz cavernosa de Myers acrescentou a dimensão visceral necessária a uma música que, apesar da sua complexidade, nunca perde de vista o impacto físico. Os momentos de maior densidade foram recebidos com entusiasmo pelo público, numa sala que encontrou nos veteranos nova-iorquinos a expressão de uma tradição extrema construída ao longo de décadas.
O alinhamento percorreu diferentes momentos da carreira do grupo, cruzando referências incontornáveis do seu repertório com material de “Hymns from the Apocrypha”, o álbum de 2023 que demonstrou a capacidade dos Suffocation para preservar a sua identidade sem deixar de alimentar a evolução do género.
Mais do que uma simples sucessão de temas rápidos e pesados, o concerto evidenciou o equilíbrio entre técnica e brutalidade que distingue a formação. As mudanças abruptas de andamento, os riffs de construção elaborada e os momentos de esmagadora intensidade reafirmaram a importância dos Suffocation enquanto referência para várias gerações de músicos e apreciadores de death metal extremo.
O encerramento ficou, assim, entregue a uma banda cuja influência ultrapassa largamente o seu próprio percurso discográfico. Num alinhamento que explorou diferentes linguagens da música extrema, os Suffocation representaram a ligação entre a história do género e a sua permanente capacidade de renovação.
Suffocation
A passagem de Eternal, Undeath, Ingested e Suffocation pela Lisbon Stage demonstrou a diversidade que existe dentro do universo do death metal contemporâneo. Da atmosfera sombria da abertura à abordagem old school dos Undeath, passando pela violência rítmica dos Ingested e pela complexidade técnica dos Suffocation, o alinhamento construiu uma progressão coerente, sem perder de vista a identidade própria de cada formação.
Ao longo da noite, Lisboa recebeu quatro propostas distintas, unidas pela intensidade e pela recusa de concessões. Entre riffs esmagadores, ritmos demolidoramente precisos e mosh pits que traduziram fisicamente a energia da música, a Lisbon Stage foi palco de uma celebração das sonoridades mais extremas do metal.
Uma noite em que diferentes gerações e perspetivas do género partilharam o mesmo espaço, com os Suffocation a encerrarem a jornada e a recordarem por que razão continuam a ocupar um lugar central na história do brutal death metal.

























































































