Texto e Vídeo: Rui Teixeira.
Fotos: Ricardo Silva.

Awaiting the Vultures + Heavy Ocean
Maus Hábitos (Porto), 29.10.2026

Na noite de quinta-feira, 29 de outubro, rumámos ao centro do Porto para uma jornada de exploração sonora no icónico espaço Maus Hábitos. Com os Heavy Ocean e os Awaiting The Vultures como protagonistas, a noite revelou-se uma experiência marcada pela intensidade, pela riqueza das dinâmicas instrumentais e pela capacidade de duas propostas distintas prenderem a atenção do público.

A primeira proposta da noite era particularmente aliciante. Desde a edição de “H/O”, em 2021, que os Heavy Ocean deixaram uma marca forte na cena nacional, tornando-se, contudo, uma presença cada vez mais rara nos palcos. A expectativa era, por isso, elevada, e a presença expressiva de fãs no Maus Hábitos demonstrou que a ligação à banda permanece bem viva. Os próprios músicos não tardaram a sentir-se em casa, perante um público que os recebeu de braços abertos.

Através de uma abordagem inteiramente instrumental, os Heavy Ocean mergulharam nas profundezas do post-metal, do shoegaze e do post-rock, construindo uma paisagem sonora de riffs densos, texturas atmosféricas e contrastes dinâmicos. Entre os temas que mais se destacaram, ficaram “Tainted”, “Solace” e “Tem Ton Heart”, exemplos de uma identidade musical que tanto convida à contemplação como irrompe em momentos de frenética explosão.

A intensidade do concerto foi crescendo, alternando entre passagens envolventes e descargas sonoras de grande impacto. No final, a ovação do público surgiu como resposta natural a uma atuação que confirmou a força e a singularidade da proposta dos Heavy Ocean.

A segunda parte da noite ficou a cargo dos Awaiting The Vultures. Naturais de Évora, mas, como fizeram questão de sublinhar, já há algum tempo afastados do rótulo de banda alentejana, os músicos trouxeram ao Porto a sua “ARS LONGA TOUR”.

A passagem pela Invicta surgia na sequência do lançamento de Circle e dos dois singles editados no decorrer deste ano, “The Pale Emperor” e “Ars Longa”. Para quem aguardava há bastante tempo pela oportunidade de os ver ao vivo, a expectativa era considerável. O concerto, porém, não só correspondeu como superou largamente as expectativas.

A consistência demonstrada pelos Awaiting The Vultures é impressionante. A banda constrói uma identidade sonora que percorre os territórios do post-metal e do progressivo, explorando estruturas complexas e dinâmicas de grande amplitude. Neste contexto, merece especial destaque o trabalho de Filipe “Xinês” na bateria, assumindo o papel de motor de uma viagem sonora onde cada ritmo, cada pausa e cada mudança de intensidade parecem cuidadosamente colocados ao serviço da composição.

Inicialmente assente numa abordagem totalmente instrumental, a banda passou a incorporar também vocais, ampliando as possibilidades de exploração e abrindo caminho a novas abordagens dentro da sua linguagem musical. Uma evolução que não compromete a identidade dos Awaiting The Vultures, antes reforça a sua capacidade de surpreender e envolver.

Com o Maus Hábitos completamente rendido, a atuação chegou ao fim sob insistentes pedidos de encore. Talvez devido ao cumprimento dos horários, o regresso ao palco não aconteceu, deixando no ar a sensação de que o público estava longe de ter ficado satisfeito com o que recebera. E, neste caso, isso só pode ser entendido como um elogio.

A noite terminou com a certeza de que os Awaiting The Vultures são uma banda que merece continuar a ser acompanhada de perto. Fica a vontade de os voltar a receber no Porto, de preferência sem uma espera tão prolongada.

Heavy Ocean e Awaiting The Vultures ofereceram duas perspetivas distintas sobre a exploração sonora, unidas pela intensidade das suas atuações e pela capacidade de criar ambientes que transcendem o formato tradicional de concerto. Entre as atmosferas densas e contemplativas dos primeiros e a complexidade progressiva dos segundos, o Maus Hábitos foi palco de uma noite memorável para quem procura na música pesada mais do que simples descarga de energia.

Uma quinta-feira que reforçou a vitalidade de duas propostas nacionais que continuam a merecer toda a atenção.