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Texto: Rui Teixeira.
Fotos: Edgar Silva (Caminhos Metálicos).

Evil Live Fest
Estádio do Restelo (Lisboa), 28.06.2025

O segundo dia do Evil Live foi também abrasador para o público presente e não só devido ao intenso calor. Foram cerca de 20.000 as pessoas que se deslocaram ao Estádio do Restelo neste sábado, dia 28 de junho.

E coube aos Bizarra Locomotiva a responsabilidade de dar às 15:50 o arranque ao segundo dia do Evil Live Festival 2025, e a banda lisboeta não deixou créditos por mãos alheias. Em apenas 30 minutos de atuação, a máquina industrial soltou uma descarga furiosa de clássicos que fez tremer o Estádio do Restelo logo desde o início da tarde.

Com o habitual peso rítmico e atmosferas densas que os caracterizam, a banda não perdeu tempo com introduções: foi direto ao osso, disparando tema após tema com uma intensidade implacável. O encerramento fez-se com “Escaravelho”, como manda a tradição — um fecho apoteótico que deixou os presentes em ebulição.

Sidónio, frontman de presença inconfundível, voltou a quebrar a barreira entre palco e plateia e, como já é imagem de marca, mergulhou no meio do público, alimentando a ligação visceral com os fãs. A reação foi imediata: gritos incessantes pelo nome da banda e um mar de braços erguidos por parte de um núcleo duro de seguidores que já ocupava as primeiras filas desde cedo, demonstrando a devoção inabalável ao coletivo.

Mesmo com um set curto, os Bizarra Locomotiva provaram — mais uma vez — que são um dos nomes mais carismáticos e respeitados do metal nacional, e que o seu culto continua bem vivo no seio da comunidade.

Logo a seguir aos Bizarra Locomotiva, subiram ao palco os norte-americanos Seven Hours After Violet, uma das bandas mais recentes a emergir no radar do metal moderno — e que conta com Shavo Odadjian, lendário baixista dos System of a Down, como nome mais sonante no line-up.

Com uma sonoridade que mistura o peso e groove do nu-metal com dinâmicas melódicas e explosões de agressividade, o grupo apresentou um set envolvente e perfeitamente alinhado com as tendências atuais do género. Guitarras afinadas bem graves, vocais a alternar entre o etéreo e o gutural, e uma presença em palco arrebatadora foram os ingredientes de uma atuação que captou de imediato a atenção do público.

A resposta não podia ter sido melhor: aplausos constantes, movimento incessante e uma evidente onda de novos fãs conquistados ali mesmo, em tempo real.

Um dos momentos mais memoráveis surgiu quando o vocalista, visivelmente entusiasmado com a energia da audiência, desafiou: “Quantos de vocês já fizeram crowdsurf? Quero ver o maior da vossa vida nesta próxima música!” O resultado foi impressionante — dezenas de pessoas levantadas e a flutuar sobre a multidão, num mar de movimento sincronizado e euforia coletiva.

A atuação terminou em alta rotação com um mega mosh pit a tomar conta da plateia, num final explosivo que confirmou a banda como uma das surpresas mais eletrizantes deste segundo dia do Evil Live Festival. Com esta performance, Seven Hours After Violet deixaram claro que chegaram para ficar — e que os fãs portugueses já os acolheram de braços bem abertos.

Num cartaz dominado por sonoridades extremas, a presença dos Eagles of Death Metal acabou por ser uma das mais atípicas do Evil Live Festival. A banda norte-americana trouxe o seu rock’n’roll descomplicado e cheio de groove, com claras influências clássicas, mas a verdade é que o estilo leve e festivo do grupo não encaixou totalmente no espírito mais pesado e sombrio do evento.

Ainda assim, e cientes disso, os Eagles mostraram profissionalismo e entrega ao longo do concerto. Jesse Hughes, sempre comunicativo, tentou criar laços com o público através de longos diálogos entre temas, e chegou mesmo a descer do palco para cantar junto às grades, numa tentativa de quebrar barreiras e gerar proximidade com os festivaleiros.

Num dos momentos mais curiosos da atuação, a banda dedicou uma música aos Korn, confessando a admiração que têm pelos gigantes do nu-metal, também presentes no alinhamento do festival. Foi uma tentativa simpática de criar pontos de ligação com o público — e que arrancou aplausos genuínos.

Também mereceu destaque a indumentária exuberante da baixista Jennie Vee, com um visual arrojado que captou tantos olhares quanto a música em si. Apesar da energia positiva da banda e do esforço para se integrar, a reação da plateia foi morna em comparação com os atos mais pesados do dia.

Ainda assim, os Eagles of Death Metal encerraram a sua tour de forma digna, com uma atuação honesta, descontraída e fiel ao seu ADN. Se não foi o momento mais explosivo do festival, foi certamente um dos mais distintos.

Quando os Opeth subiram ao palco do Evil Live Festival, o sol ainda castigava o Estádio do Restelo com um calor implacável — algo que a banda não ignorou. “É difícil para uma banda da Suécia enfrentar este calor… esperamos parecer mais energéticos do que realmente estamos”, comentou Mikael Åkerfeldt com o seu humor habitual.

Apesar das condições, o concerto foi um exercício de virtuosismo e classe, com a banda a entregar uma performance irrepreensível do ponto de vista técnico, cheia de nuances, atmosferas densas e uma execução instrumental de cortar a respiração.

O momento mais marcante da atuação chegou com a emotiva “In My Time of Need”, imediatamente seguida da monumental “Ghost of Perdition”, num contraste perfeito entre melancolia e brutalidade progressiva. A plateia — composta tanto por fãs devotos como por curiosos atraídos pelo prestígio do nome — rendeu-se à dinâmica única que só os Opeth sabem conjugar.

Outro destaque foi “Paragraph 7”, apresentada pela banda como uma peça particularmente complexa: “Vamos tocar uma faixa muito intrincada. Esperamos que consigam entendê-la… porque às vezes até nós temos dificuldade.” O comentário arrancou sorrisos, mas o que se seguiu foi pura demonstração de mestria musical.

Sem necessidade de grandes artifícios cénicos, os Opeth ofereceram exatamente aquilo que os define: um concerto com marca registada, onde a elegância, o peso e o detalhe caminham lado a lado. Uma viagem intensa e cerebral que cimentou, mais uma vez, o seu estatuto de culto entre os grandes nomes do metal progressivo.

Provocador? Chocante? Ou apenas um artista totalmente descomplexado que sabe como dominar um palco? O concerto de Till Lindemann no Evil Live Festival foi tudo isso — e talvez mais ainda. Uma performance milimetricamente preparada para criar reações fortes, em que nada foi deixado ao acaso: da indumentária excêntrica da banda aos vídeos projetados, passando pela teatralidade e imprevisibilidade que marcaram cada minuto em palco.

Este espetáculo foi o reflexo mais puro da persona Lindemann: um cruzamento entre o grotesco, o absurdo e o entretenimento extremo, levado ao limite com a confiança de quem sabe que vai dividir opiniões… e adora isso.

Ao longo do concerto a provocação deu lugar à interação bizarra: os fãs na segunda fila levaram com bolos na cara, atirados diretamente do palco, ficando cobertos de chantilly. E quando chegou “Fish On”, Lindemann foi mais longe, disparando literalmente peixes em direção ao público com um lançador, num momento entre o cómico e o repulsivo, mas que arrancou gargalhadas e aplausos. No final ainda ficou com um peixe exageradamente grande na boca.

Já perto do clímax, o vocalista desceu até ao meio da plateia, acompanhado pela teclista, e levava uma câmara instalada num chapéu, transmitindo em direto para o ecrã de fundo — uma aproximação entre o público e a insanidade cénica que decorre em palco. E, claro, não faltaram momentos mais teatrais, como o baterista mascarado de palhaço a simular o arranque de partes genitais com todo o exagero possível.

A primeira parte do seu alinhamento baseou-se no seu atual projeto a solo, com malhas como “Zunge”, “Schweiss” ou “Sport Frei”. Depois arrancou para maioritariamente temas do seu projeto Lindemann (criado com Peter Tägtgren dos Hypocrisy/Pain) como “Blut”, “Praise Abort” ou “Skills in Pills”.

A despedida fez jus a tudo o que aconteceu até ali: triunfal e intensa, deixando uma marca que, para o bem ou para o mal, é impossível apagar. Porque Lindemann nunca é neutro — e esse é o segredo do seu magnetismo.

O encerramento do segundo dia do Evil Live Festival ficou a cargo de Korn, e dificilmente poderia ter existido um final mais épico. Aquilo que se viveu no Estádio do Restelo foi mais do que um concerto: foi uma celebração coletiva de um legado que atravessa gerações. Com um cenário de luz e som absolutamente digno de um headliner mundial, a atuação da banda de Jonathan Davis foi um dos momentos mais memoráveis da história do festival.

Desde cedo se percebia quem era a banda mais aguardada da noite: centenas de t-shirts, bonés e até tatuagens Korn preenchiam o recinto, num clima de antecipação fervorosa. E quando se ouviu o riff inicial de “Blind”, a abertura explosiva do set, instalou-se o caos absoluto. Mosh pits, crowdsurfing e gritos de êxtase marcaram o tom para o que viria a seguir.

O concerto foi um autêntico desfile de hinos, com a já tradicional e arrebatadora aparição de Jonathan Davis a tocar gaita de foles, levando o público ao delírio e reforçando o lado teatral e emocional que sempre fez parte do ADN da banda.

Momentos altos não faltaram:“Shoots and Ladders”, fundida com um excerto de “One” dos Metallica, transformou o recinto num enorme mosh pit, uma verdadeira tempestade humana. “A.D.I.D.A.S.” foi cantada em uníssono por uma multidão rendida, com o seu refrão carregado de provocação e nostalgia. Antes de “Y’all Want a Single”, Jonathan parou tudo para dar instruções claras: “You know what’s coming… I wanna see every single one of you with your middle fingers up and scream: FUCK THAT!” — e o público obedeceu com entusiasmo unânime. O encore trouxe emoção e catarse: a lindíssima “4U” deu lugar a uma “Falling Away From Me” absolutamente inesquecível — um dos momentos mais intensos da noite, e seguramente a preferida de muitos (confessamos: também a nossa).

O final, claro, foi reservado a “Freak on a Leash”, numa explosão de energia em que todo o estádio se rendeu pela última vez. Cansados mas felizes, milhares de fãs esgotaram até à última gota de força ao som de uma banda que continua a ser, décadas depois, uma das mais poderosas forças ao vivo no universo do metal.

Korn no Evil Live não foi apenas um concerto. Foi uma aula de como se comanda o público de um festival — com peso, emoção e história.