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Texto e edição vídeo: Carlos Guimarães.
Captação vídeo: Carlos Guimarães e Nuno Reis.

Born of Osiris + Ingested + Entheos + The Voynich Code
Hard Club (Porto), 01.06.2025

No dia 1 de junho, o Hard Club do Porto acolheu na sua Sala 1 uma noite inteiramente dedicada à vertente mais moderna e técnica do metal, marcada pela estreia em território nacional dos norte-americanos Born of Osiris. A noite não só assinalou a primeira visita da banda ao país, como funcionou como um retrato da atual paisagem do metal extremo contemporâneo, centrado em estéticas digitais, arranjos complexos e abordagens híbridas que rompem com os paradigmas tradicionais do género.

A juventude do público presente foi talvez o primeiro sinal claro de que estamos perante uma geração menos apegada ao purismo e mais aberta à experimentação, à fusão estilística e à estética sonora hiperproduzida. O cartaz, composto por quatro bandas com diferentes graus de notoriedade e experiência, serviu de barómetro da vitalidade criativa do metal moderno.

Os primeiros a subir ao palco foram os nacionais The Voynich Code, atualmente em metamorfose identitária, com uma formação renovada que inclui os britânicos Jack Kinsey na voz e Jack Higgs na guitarra. Ainda que tenham enfrentado problemas técnicos com os backing tracks no início da atuação, a banda demonstrou maturidade ao ultrapassar o contratempo com uma prestação cada vez mais sólida à medida que o concerto avançava.

Os temas executados, como “Cage of Innocence”, “A Flicker of Life” e o mais recente “Serpents Meridian” deixaram transparecer uma aposta clara na complexidade rítmica, nos breakdowns intrincados e em atmosferas sombrias e densas. A prestação de Jack Higgs foi um dos pontos altos da atuação, revelando não apenas destreza técnica, mas também uma certa abordagem melódica ao som da banda.

Com os Entheos, o ambiente transformou-se profundamente. A banda californiana, liderada pela carismática Chaney Crabb e pelo baterista  Navene Koperweis, trouxe à sala uma intensidade que não vive apenas da agressividade sonora, mas sobretudo de uma sensibilidade emocional rara neste espectro musical. A presença de Chaney em palco é magnética — há uma honestidade e vulnerabilidade na sua entrega que transcende a mera performance vocal.

O alinhamento concentrou-se no mais recente EP “An End to Everything”, cuja execução quase integral revelou um projeto em busca de uma estética própria. “A Life in Slow Motion” e o tema-título emergiram como momentos de clímax emocional. As incursões em “Time Will Take Us All” com “I Am the Void” e “The Sinking Sun” trouxeram um contraste mais direto, fundindo camadas atmosféricas com grooves densos e estruturas imprevisíveis. Entheos não foram apenas uma pausa no frenesim rítmico da noite — foram um convite à introspeção num contexto onde essa qualidade é raramente oferecida.

Com a entrada dos Ingested, a intensidade sonora atingiu o seu pico, ou não tenham os britânicos uma carreira consolidada dentro do deathcore e do slam/brutal death metal. A presença de um baixista ao vivo — o único entre todas as bandas da noite — deu ao som uma robustez concreta que fez toda a diferença. O peso tornou-se físico, tangível, e o público respondeu à altura.

Temas como “Titanomachy”, “Altar of Flesh” ou “Copremesis” foram recebidos com entusiasmo por uma audiência que já mostrava sinais de desinibição coletiva, dando origem a circle pits cada vez mais intensos, puxados pelo frontman Josh Davies, que soube conjugar brutalidade com humor e empatia. O ponto alto da atuação talvez tenha sido “Cremated Existence”, acompanhada por um Wall of Death mais simbólico do que explosivo, mas ainda assim eficaz. A saída de palco ao som de “Never Gonna Give You Up” de Rick Astley foi um momento de puro alívio cómico, demonstrando que o peso pode (e deve) conviver com a leveza do espírito.

O momento mais esperado da noite chegou com a subida ao palco dos Born of Osiris, agora reduzidos a um trio após a recente saída do guitarrista Lee McKinney. O desafio era evidente: manter a integridade artística e sonora de um projeto que sempre se destacou pela densidade dos seus arranjos e pelo seu virtuosismo instrumental. A solução passou pelo multi-instrumentismo de Nick Rossi, que assumiu simultaneamente a guitarra e os sintetizadores, enquanto Ronnie Canizaro e Cameron Losch garantiram, respetivamente, a presença vocal e a precisão rítmica.

A abertura com “Open Arms to Damnation” e “Bow Down” funcionou como manifesto de intenções, mostrando que, apesar do palco mais despido, a sonoridade se manteve intacta — em grande parte graças a uma utilização inteligente dos backing tracks e a uma produção sonora equilibrada. A execução de temas do novo álbum “Through the Shadows” — como “Elevate”, “In Desolation”, “Torchbearer” e “The War That You Are” — revelou uma banda em transição, mas ainda coerente. O passado não foi esquecido, com clássicos como “Ascension”, “Divergency” e “Rosecrance” a convocarem o entusiasmo coletivo. O encerramento com “Machine”, em encore, foi o desfecho natural para uma atuação que, embora condicionada logisticamente, não perdeu impacto artístico.