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Texto e Edição Vídeo: Carlos Guimarães
Captação Vídeo: Carlos Guimarães, Rui Teixeira e Hugo Costa

Xeque-Mate + Toxikull + Living Tales
Concerto de apresentação de “Entrudo” dos Xeque-Mate.
Outsite Mouco (Porto), 15.06.2025

 

O Outsite Mouco, no Porto, foi o palco escolhido para o concerto de apresentação de “Entrudo”, o novo álbum dos históricos Xeque-Mate, na tarde do passado dia 15 de junho. O evento revelou-se uma verdadeira celebração — repleto de surpresas, reencontros e momentos de partilha — que homenageou tanto o passado como o presente de uma banda que, apesar das décadas de carreira, continua a mostrar vitalidade e irreverência.

A abrir a tarde estiveram os portuenses Living Tales, que se afirmam cada vez mais como uma aposta segura no panorama nacional. Com o seu quarto trabalho de estúdio, “Hades”, a banda revelou todo o seu potencial dentro de um registo metal progressivo e sinfónico, de execução exigente e ambição artística notória. A atuação arrancou com a introdução “Ischyros Genos” e a “Rising”, dando o tom para um concerto sólido e bem conseguido, que surpreendeu muitos dos presentes que ainda desconheciam o universo musical da banda.

O alinhamento baseou-se inteiramente no novo álbum, com temas como “Persephone”, “Hades”, “River Styx” e “Reign” — esta última a destacar-se como um dos pontos altos da atuação. Com uma presença de palco enérgica e empática, os Living Tales mostraram uma forte química entre os elementos e uma ligação natural com o público. Ana Isola esteve irrepreensível a nível vocal, enquanto o experiente guitarrista Luís Oliveira sobressaiu pela fluidez e segurança na execução dos temas. A secção rítmica, composta por Ricardo Carvalho e João Carneiro, garantiu a solidez e o dinamismo necessários para sustentar as composições complexas da banda.

A única nota menos positiva acabou por ser o tema escolhido para o encerramento: “Redemption”, cuja estrutura  acabou por quebrar ligeiramente o crescendo emocional construído até “Reign”. Ainda assim, os Living Tales deixaram uma excelente impressão, consolidando o seu lugar como uma das propostas mais interessantes do metal progressivo nacional.

No seu mais recente “Under the Southern Light”, os Toxikull brindaram-nos com uma poderosa versão de “Filhos do Metal”, clássico dos históricos Xeque-Mate. Como se isso não bastasse, o vocalista Lex Thunder é também convidado num dos temas do novo disco dos portuenses. Motivos mais do que suficientes para justificar a presença da banda nesta autêntica celebração do metal nacional.

Com um set que soube a pouco — reflexo direto do número crescente de temas emblemáticos no seu repertório —, os Toxikull abriram as hostilidades com “Night Shadows” e “Ritual Blade”, ambos retirados do mais recente álbum. Seguiu-se o incontornável hino “I Will Rock Again”, entoado em coro por grande parte do público, num dos momentos mais marcantes da noite.

Em palco, a banda demonstra uma maturidade e consistência impressionantes, resultado de uma rodagem que se faz notar a cada riff, a cada refrão. Aliando esta solidez a composições coesas e cheias de identidade, os Toxikull mostram estar prontos para voos ainda mais altos. Entre “Battle Dogs” e a icónica “Metal Defender”, houve ainda tempo para uma visita ao disco “Cursed and Punished”, com a intensa “Sacred Whip”, regressando ao mesmo no encerramento com o tema-título.

Pelo meio, soaram ainda “Under the Southern Light” e “Around the World”, esta última já a afirmar-se como presença certa no alinhamento dos futuros concertos da banda — que, ao ritmo a que cresce, parece não ter fronteiras à vista.

Depois de dois concertos que aqueceram o ambiente e prepararam o terreno, chegou finalmente o momento mais aguardado da tarde: a subida ao palco dos Xeque-Mate. A introdução fez-se ao som inconfundível da gaita de foles de Tiago Costa — “a famosa gaita do Tiago”. O instrumento deu o tom cerimonial e ancestral que antecipava a chegada do Entrudo, não só o novo álbum mas também o conceito que o grupo trouxe em força para o palco.

Com teatralidade e simbolismo, o vocalista Xico Soares surgiu envergando o tradicional traje dos caretos de Podence, figura emblemática do folclore transmontano. Fiel à tradição da aldeia, assumiu o papel de provocador, andou pelo público arreliando-o com gestos irrequietos e irreverência contagiante, arrancando sorrisos e aplausos. Foi desta forma original e enraizada na cultura popular portuguesa que os Xeque-Mate decidiram abrir o espetáculo, mergulhando desde logo no espírito do tema título do novo trabalho, “Entrudo”, e estabelecendo uma ponte entre o metal e as raízes identitárias do país. Um início poderoso, marcante e repleto de significado.

Apesar de se tratar do concerto oficial de apresentação do novo álbum “Entrudo”, os Xeque-Mate optaram por não centrar o alinhamento exclusivamente nas novas composições. Num gesto de respeito pela sua própria história e por um público que acompanha a banda desde os primeiros tempos, o coletivo apresentou apenas quatro temas do novo disco, construindo o restante espetáculo a partir de uma viagem pelo anterior “Não Consigo Manter a Fé” e o incontornável “Em Nome do Pai, do Filho e do Rock’n’Roll”.

Entre os primeiros temas da noite, destacaram-se “Quase Esqueci a Tua Cara” e “Escrava da Noite”, que marcam dois momentos da história da banda. O regresso a “Entrudo” fez-se com “Feitiço” mas foi com a já emblemática “Rastejantes” que a sala mais animou — um tema que, apesar de recente, já conquistou o estatuto de clássico no repertório da banda. A seguir “Talvez no Céu” trouxe uma mudança de tom: com a sua carga lírica emotiva e uma construção musical que conjuga força e melancolia, tornou-se num dos momentos mais comoventes e marcantes da tarde.

Seguiram-se duas viagens ao passado. Primeiro, a poderosa “Não Consigo Manter a Fé”, faixa-título do álbum de 2022, e depois, um regresso às origens com “Vampiro da Uva” — o primeiro single da banda, editado em 1981. Apesar de o vocalista ter partilhado com o público que a canção já não figura entre as suas favoritas, foi evidente que muitos fãs ainda a têm em grande estima, cantando cada verso com entusiasmo. E, sejamos sinceros: poucos grupos em Portugal podem gabar-se de ainda incluírem no seu repertório temas lançados há mais de quatro décadas.

Depois surgiu um dos momentos mais celebrados da noite: a presença em palco de Jorge Marques (Tarantula) e Lex Thunder (Toxikull) para interpretar “Corre Corre”, tal como o fazem no novo disco. A energia, química e entrega em palco fizeram deste momento um dos pontos altos do espetáculo, num espírito de comunhão entre três gerações do metal nacional.

Para o encerramento desta celebração ficou guardado um momento à altura da ocasião: dois verdadeiros hinos do heavy metal nacional — “Ás do Volante” e “Filhos do Metal”. Quarenta anos após o seu lançamento, estas músicas mantêm-se não só relevantes, como profundamente enraizadas na memória coletiva dos fãs do género em Portugal. São temas que ultrapassam gerações, evocando uma energia quase intemporal e um sentimento de pertença a algo maior.

“Ás do Volante” surgiu com a força que lhe é característica, cantada em uníssono por uma sala em comunhão total. Mas foi com “Filhos do Metal” que a apoteose aconteceu — não só pela carga simbólica da canção, mas também pela forma como foi interpretada. A banda chamou ao palco duas figuras de peso do metal nacional: Paulo Barros, guitarrista dos lendários Tarantula e ex-membro dos próprios Xeque-Mate, e Michael Blade, virtuoso guitarrista dos Toxikull. Ambos se juntaram para partilhar solos intensos e inspirados, acrescentando brilho técnico e emocional a um momento já de si carregado de significado.

Este gesto — reunir diferentes gerações e cruzar histórias dentro do mesmo palco — sintetizou na perfeição o espírito desta noite: uma homenagem à longevidade, à amizade e à vitalidade do metal feito em Portugal. Um final majestoso e inesquecível para um concerto que ficará, com toda a certeza, na memória de todos os presentes.