Texto, vídeo e fotos: Carlos Guimarães.
GRITO ROCK PRAIA
Plateau (Praia – Cabo Verde), 28.03.2026
Mais uma vez, o Caminhos Metálicos marcou presença em Cabo Verde como parceiro e apoio do Grito Rock Praia, acompanhando as nacionais Black Widows naquela que foi mais uma experiência absolutamente enriquecedora, tanto a nível musical como humano. A 10.ª edição do festival confirmou novamente o crescimento e importância deste evento cultural alternativo no panorama cabo-verdiano, reforçando a sua identidade enquanto ponto de encontro entre culturas, sonoridades e artistas oriundos de diferentes geografias. O festival é organizado pela Artikul CJ, ficando desde já um enorme agradecimento ao César Freitas e ao Jójó pela hospitalidade, dedicação e paixão com que continuam a manter vivo este projeto.
Ao longo dos anos, o Grito Rock Praia tem vindo a afirmar-se como uma das principais plataformas de promoção da música alternativa em Cabo Verde, tendo já recebido mais de meia centena de bandas nacionais e internacionais e integrado nomes portugueses como Tales for the Unspoken, Serrabulho e Revolution Within. Inserido numa rede internacional de festivais alternativos nascida no Brasil, o Grito Rock assume-se não apenas como um festival, mas também como um movimento cultural colaborativo dedicado à promoção da música independente e da troca de experiências entre artistas e comunidades.
A nossa presença começou no dia 27 de março com o tradicional “Grito Encontro”, realizado no Casa da Sogra. Num ambiente descontraído e de verdadeira confraternização, músicos, organização e convidados tiveram oportunidade de conviver, trocar experiências e conhecer melhor as diferentes culturas representadas nesta edição. A noite foi ainda acompanhada pela sempre calorosa e envolvente música tradicional cabo-verdiana, executada e interpretada com enorme mestria, proporcionando um primeiro contacto perfeito com o espírito do festival.


No dia seguinte, depois do soundcheck das Black Widows — que contou inclusivamente com a presença de uma escola de música local composta por jovens meninas bastante curiosas e entusiasmadas com a experiência — houve ainda tempo para desfrutar de um merecido mergulho na belíssima Praia de Kebra Kanela, um dos locais mais emblemáticos da capital cabo-verdiana.



Já durante a noite, no Plateau, centro histórico e cultural da cidade da Praia, começaram os concertos propriamente ditos. O público pôde assistir às atuações dos cabo-verdianos Primitive — históricos impulsionadores do movimento alternativo local — e dos regressados Freak, antes da entrada em palco dos finlandeses Torp, oriundos das Ilhas Åland, território situado entre a Finlândia e a Suécia. A banda descarregou uma autêntica avalanche de “old school thrash metal”, com riffs cerrados, agressividade constante e uma energia contagiante que aqueceu definitivamente o ambiente.
Coube depois às Black Widows subir ao palco. A abertura com “Dead Heaven’s Vibe” e “Electrify Me” mostrou imediatamente ao que vinham as nacionais. Apesar de grande parte do público não estar particularmente familiarizada com a sonoridade heavy metal e obscura da banda portuguesa, a receção foi surpreendentemente calorosa, com enorme curiosidade, entrega e crescente entusiasmo ao longo da atuação.
“Philosophy of Fools” e a já clássica “Womb” ajudaram a consolidar essa ligação entre banda e audiência, enquanto “Monster” acabou por se assumir como um dos grandes momentos da noite, provocando forte reação do público presente. “Schizo” e “Forest of Chaos” mantiveram o nível de intensidade elevado, com as Black Widows a demonstrarem enorme segurança e presença em palco.
O concerto acabaria, contudo, por terminar de forma inesperada e abrupta após a interpretação do mais recente tema “Seer”, devido a uma quebra geral de energia elétrica na cidade da Praia. Ainda assim, mesmo perante o apagão, o ambiente vivido foi absolutamente memorável, com o público a continuar a gritar repetidamente “Black Widows! Black Widows!”, num momento espontâneo que demonstrou claramente o impacto deixado pela banda portuguesa nesta edição do festival.



A celebração continuou noite dentro com o habitual “Grito Jam” no Alkimist, num espírito de verdadeira união musical entre artistas e público. Já no domingo, o ambiente tornou-se mais descontraído com o “Grito Aberto”, incluindo uma visita à histórica Cidade Velha, Património Mundial da UNESCO, num convívio extremamente bem-disposto entre os elementos das Black Widows, os Torp e restantes participantes do festival.
Mais do que um simples festival, o Grito Rock Praia continua a afirmar-se como uma experiência cultural e humana única, onde a música funciona como verdadeira ponte entre países, culturas e pessoas. Para o Caminhos Metálicos, foi mais uma oportunidade inesquecível de acompanhar de perto o talento nacional além-fronteiras e testemunhar o crescimento de uma cena alternativa cabo-verdiana cheia de paixão, autenticidade e identidade própria.


