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Texto e Fotos: Rui Podence

Z LIVE ROCK FEST – DIA 2
Recinto IFEZA (Zamora – Espanha), 12.06.2026

Se o dia inaugural serviu de boas-vindas, o segundo round em Zamora foi um verdadeiro teste de sobrevivência. O calor impiedoso caiu sobre a cidade espanhola como uma sentença, obrigando o público a uma caça constante por réstias de sombra — fosse junto às barras de consumo ou na projeção do palco. Ao final da noite, o pavilhão interior tornou-se o refúgio ideal, oferecendo uma temperatura ligeiramente mais clemente. Afinal, provou-se que o metal também se forja debaixo de um sol abrasador.

A abertura do palco principal ficou a cargo dos Xeria. Apesar de um ligeiro precalço técnico inicial — com o microfone do vocalista a falhar nos primeiros segundos da faixa de abertura —, a banda de Toledo deu a volta por cima de forma exemplar. O arranque em falso foi rapidamente esquecido assim que a voz, poderosa e cheia de personalidade, se fez ouvir. O coletivo combina com mestria o metal alternativo com riffs pesados e atmosferas melódicas, estabelecendo um equilíbrio emocional e intenso que conquistou o público ao longo do alinhamento.

Diretamente de Londres, os Kardinal X subiram ao palco com uma missão clara: destilar peso. E cumpriram-na com distinção. A banda funde a complexidade do metal progressivo clássico com a herança intemporal da NWOBHM. Riffs esmagadores, linhas vocais ascendentes e guitarradas velozes transportaram a plateia para a era dourada do género. Uma atuação pautada pelo som denso, boa vibração e uma excelente moldura humana a responder em uníssono.

Um dos momentos mais aguardados da tarde trouxe as suíças Burning Witches. O quinteto feminino é, atualmente, uma das propostas mais revigorantes do heavy metal tradicional, bebendo da fonte de gigantes como Judas Priest e do power metal transatlântico de cariz mais agressivo (à semelhança de Iced Earth). O resultado é um som clássico, mas injetado de uma energia fulgurante. À medida que a sombra do palco crescia, a moldura humana aumentava, rendida à prestação vocal implacável e à garra da banda. O sol podia estar a dar tréguas, mas o metal aquecia os ânimos.

Os bascos Su Ta Gar assinaram a grande surpresa do dia. Pioneiros do metal cantado em euskera (língua basca) desde 1988, demonstraram em Zamora a urgência e a ferocidade que os caracteriza. O seu thrash de alta rotação pisca claramente o olho aos Metallica e ao catálogo dos Big Four, mas acrescenta-lhe nuances do speed e power metal europeu, conferindo-lhes uma identidade única. O público entregou-se por completo, entoando os refrões na língua natal da banda, num concerto de pura comunhão.

Blaze Bayley trouxe consigo a incontornável aura dos Iron Maiden, formação que liderou em meados dos anos 90 com os registos The X Factor e Virtual XI. Dono de um registo barítono inconfundível, o carismático vocalista entregou um alinhamento tecnicamente irrepreensível, demonstrando total controlo e colocação vocal. Para os nostálgicos dessa era específica do gigante britânico, a atuação de Bayley foi uma viagem emocionante a um passado ainda muito vivo.

Se havia candidatos ao título de “concerto do dia”, os suecos H.E.A.T entraram diretamente para o topo da lista logo aos primeiros acordes. Inspirados pelo arena rock e pelo heavy metal comercial das décadas de 70 e 80, a banda operou em rotação máxima do início ao fim. O vocalista revelou-se um autêntico turbilhão em palco, contagiando a arena com uma energia desmedida. O momento mais vistoso da atuação aconteceu quando o frontman agarrou numa baqueta com os dentes, arremessando-a de seguida para os fãs com um sorriso provocador. Uma performance avassaladora.

Com mais de quatro décadas de estrada e 23 milhões de discos vendidos, os lendários Saxon dispensam apresentações. Os estandartes da NWOBHM entraram em palco com um som massivo e poderoso. Enquanto o ecrã gigante exibia orgulhosamente os battle jackets de fãs de várias latitudes, o carismático Biff Byford protagonizou um dos momentos do dia: ao receber um colete arremessado por um fã, pendurou-o imediatamente na bateria. Um gesto simples, de puro respeito pelo público, que coroou uma das exibições mais aclamadas do festival.

Os suíços Coroner, vindos de Zurique, são uma das maiores instituições do thrash metal técnico mundial. No palco espanhol, a precisão cirúrgica e o peso do seu thrash aliaram-se a um detalhe surpreendente: as harmonias vocais partilhadas entre o vocalista e o teclista. Esta dinâmica conferiu uma camada extra de profundidade e textura a uma sonoridade que, por si só, já era avassaladora.

O encerramento deste segundo capítulo de superação e celebração metálica ficou a cargo do folk metal festivo e pirata dos espanhóis Ekyrian, que colocaram toda a gente a dançar até à última nota.