Fotos e Texto: Carlos Guimarães.
Viseu Rock Fest 2026
Schirenc Plays Pungent Stench + Acid Mammoth + Travo + Miss Lava + Aneuma + Maquina + Grievance + João Pedro e os Almendras + Overhated
Orfeão de Viseu (Viseu), 03.10.2026
A 11.ª edição do Viseu Rock Fest regressou ao Orfeão de Viseu no dia 3 de outubro, para uma jornada marcada pela diversidade sonora, pelo cruzamento de gerações e pela convivência entre diferentes linguagens da música pesada. Do thrash metal ao punk, passando pelo black metal, death metal melódico, stoner rock, doom e propostas de cariz mais experimental, o festival voltou a demonstrar que a pluralidade continua a ser uma das suas principais características.
Com um alinhamento composto por nove bandas, a programação percorreu diferentes territórios musicais sem receio de contrastes. O público foi chegando progressivamente ao longo da tarde, com a sala a atingir uma ocupação próxima da lotação com o decorrer da noite. Um sinal positivo para uma organização que voltou a apostar num cartaz extenso e eclético, capaz de reunir diferentes públicos em torno da música pesada.
Coube aos Overhated, oriundos de São Pedro do Sul, dar início à jornada. A jovem banda da região assumiu a responsabilidade de abrir o festival com uma atuação marcada pela intensidade e pela agressividade do thrash metal, estabelecendo desde cedo o tom para uma tarde que prometia diversidade e energia.
O alinhamento passou por temas como «Theory of Chaos», «Brainwashed», «Ignite», «Blind Autocracy» e «Blood Debt», sem esquecer os singles «Todos Iguais» e «Killer Machine». Uma entrada direta e sem rodeios, com os Overhated a representarem a nova geração de músicos que continua a alimentar a cena nacional.
Overhated
A primeira grande mudança de ambiente chegou com João Pedro e os Almendras. Figura incontornável da história do punk nacional, João Pedro Almendra construiu um percurso que passa por bandas como Ku de Judas, Peste & Sida e Punksinatra, trazendo consigo um repertório que atravessa diferentes momentos da música alternativa portuguesa.
No Orfeão de Viseu, não faltaram temas como «Veneno», «Bebe Vinho», «Está na tua mão», «Tenho um furo na cabeça» e «Acredita». A reta final reservou uma sequência particularmente nostálgica e representativa da história do punk português, com «Carraspana», dos Peste & Sida, «Srs. Políticos», dos Censurados, e «Já Estou Farto», dos Ku de Judas.
Foi uma atuação que colocou em evidência a importância de um percurso artístico que ajudou a moldar várias gerações de ouvintes e músicos, trazendo ao festival uma energia diferente daquela que caracteriza as propostas mais extremas do cartaz.
João Pedro e os Almendras
Vindos das Caldas da Rainha, os Grievance trouxeram ao palco uma das propostas mais sombrias da jornada. Com uma identidade visual vincada e uma sonoridade profundamente enraizada no black metal, a banda percorreu diferentes momentos da sua carreira, dando especial destaque ao mais recente álbum, «Lúgubres Devaneios de Abismos e Sombras».
«No Fundo do Desfiladeiro», «Castelo de Árvores», «Em Besta me Transformo» e «Promontório dos Espíritos» ajudaram a definir o ambiente do concerto, através de composições que exploram atmosferas obscuras e uma abordagem lírica e musical particularmente densa.
Houve ainda espaço para «Winged Hyberian Serpent», tema retirado do split editado em 2022 e o único do alinhamento interpretado em inglês. A atuação reafirmou o lugar dos Grievance no panorama nacional, numa passagem pelo Viseu Rock Fest que privilegiou a identidade própria e a coerência estética da banda.
Grievance
Os espanhóis Aneuma protagonizaram um dos concertos que merecem particular destaque nesta edição. A banda, dedicada ao death metal melódico, apresentou-se com uma forte componente visual, reforçada pela presença em palco da vocalista Laura Alfonso, que atuou visivelmente grávida. Uma imagem que não passou despercebida e que acrescentou uma dimensão especial à prestação da cantora.
A atuação ficou, contudo, condicionada por alguns problemas técnicos, que dificultaram a apresentação e criaram obstáculos à banda ao longo do concerto. Apesar dos contratempos, os Aneuma procuraram manter a intensidade e fazer chegar ao público a sua proposta musical.
O alinhamento incluiu temas como «Flesh & Bone», «Breakout from Hell» e «Tear Down the Walls», antes de terminar com «Light the Torch», um dos momentos finais da atuação. Entre dificuldades técnicas e a vontade de seguir em frente, o concerto deixou espaço para apreciar a combinação de melodia e agressividade que caracteriza a identidade do grupo espanhol.
Aneuma
Com os Miss Lava, o Viseu Rock Fest voltou a mudar de direção, desta vez para explorar as ligações entre o stoner rock, o rock pesado e as sonoridades psicadélicas. A banda lisboeta apresentou um alinhamento que percorreu diferentes fases da sua discografia, procurando representar a evolução de um percurso marcado pela força dos riffs e pela exploração de ambientes densos.
O mais recente «Woe Warrior» esteve representado, mas houve também espaço para recuperar «Don’t Tell a Soul», do álbum de estreia. Pelo meio, passaram temas reconhecidos do repertório do grupo, como «Fourth Dimension», «I’m the Asteroid» e «In the Arms of the Freaks».
Para a reta final ficaram reservadas duas escolhas particularmente significativas: uma versão de «Hellraiser», como homenagem a Ozzy Osbourne e Lemmy Kilmister, e «Doom Machine». Um concerto que roçou a perfeição.
Miss Lava
Foi com os Travo que a sala do Orfeão de Viseu ficou praticamente cheia, confirmando a adesão do público à reta final do festival. Oriundo de Braga, o grupo português trouxe ao palco uma mistura de stoner rock, psicadelismo e riffs de forte impacto, assente numa abordagem que privilegia a repetição, a construção de ambientes e a energia das guitarras.
O concerto serviu também para apresentar temas de «Wasteland», o mais recente trabalho da banda, num alinhamento que evidenciou a capacidade dos Travo para desenvolver composições que oscilam entre a força direta do rock e uma dimensão mais hipnótica.
A concentração crescente de público junto ao palco marcou a transição para a fase final da noite. Com os Travo, o festival encontrou um dos pontos de maior adesão, antes de mergulhar nas atmosferas mais densas dos Acid Mammoth e na brutalidade do death metal austríaco.
Travo
Vindos da Grécia, os Acid Mammoth transportaram o Orfeão de Viseu para um universo de riffs espessos, ritmos arrastados e atmosferas sombrias. A banda apresentou uma abordagem ao doom metal que privilegia a repetição e a construção gradual de ambientes, criando um contraste evidente com a agressividade mais imediata de outras propostas do cartaz.
O alinhamento percorreu várias facetas da discografia do grupo, incluindo «Supersonic Megafauna Collision», «Antlered Miasma», «Tree of Woe», «White Hag», «Esoteric Boom Ritual», «Berserker», «Them!» e «Jack the Riffer».
Ao longo do concerto, os Acid Mammoth apostaram na consistência dos riffs e na cadência pesada das composições, sem necessidade de recorrer a grandes variações para manter a identidade do espetáculo. A sua passagem pelo festival acrescentou uma dimensão particularmente densa à noite, demonstrando como a diversidade do cartaz permitiu alternar entre diferentes formas de abordar o peso e a intensidade.
Acid Mammoth
Um dos momentos mais especiais da 11.ª edição do Viseu Rock Fest foi protagonizado por Schirenc Plays Pungent Stench. A atuação teve um significado acrescido por corresponder à última passagem do projeto por Portugal, transformando o concerto numa ocasião particularmente relevante para os seguidores de uma das referências austríacas do death metal.
À frente do projeto esteve Martin Schirenc, figura central dos Pungent Stench, acompanhado por Jacek Perkowski, conhecido como Pitbull Jack e também membro original da banda. A presença dos dois músicos reforçou a ligação às origens do grupo e deu ao espetáculo uma dimensão histórica que ultrapassou a simples revisitação de um repertório clássico.
O alinhamento, composto por 13 temas, percorreu diferentes momentos da discografia dos austríacos. Entre os destaques estiveram «Pungent Stench», «Brainpan Blues», «For God Your Soul/Klyster Boogie» e «Blood, Pus and Gastric Juice», exemplos da abordagem extrema, provocadora e visceral que ajudou a definir a identidade da banda.
A viagem prosseguiu com «Sputter Supper», «Bonesawer» e «Fuck Bizarre», antes de recuperar outros temas marcantes, como «Happy Re-Birthday», «Extreme Deformity» e «Only Hunger Remains». Já na parte final, «Embalmed in Sulphuric Acid» e «Shrunken and Mummified Bitch» mantiveram a brutalidade característica do repertório, antes de «Viva la Muerte» encerrar o alinhamento.
Mais do que uma sequência de clássicos, o concerto funcionou como uma celebração de um legado que ajudou a marcar a história do death metal europeu. Num festival que apostou na diversidade, a passagem de Schirenc Plays Pungent Stench representou também uma oportunidade de contacto com uma página importante da música extrema.
Schirenc Plays Pungent Stench
fechar a 11.ª edição do Viseu Rock Fest, os MAQUINA. trouxeram ao Orfeão uma proposta que desafiou as convenções do rock e do metal, cruzando a música de guitarras com uma abordagem repetitiva, hipnótica e próxima da eletrónica industrial e da música de dança.
O jovem trio lisboeta, formado por Halison Peres na bateria e voz, João Cavalheiro na guitarra e efeitos e José «Mendy» Rego no baixo, construiu um concerto assente em estruturas minimalistas. Muitas das composições desenvolvem-se a partir de um único riff e de uma batida insistente, elementos que se repetem e se transformam gradualmente no motor de cada tema.
A aparente simplicidade destas estruturas não significa, porém, ausência de intenção. Nos MAQUINA., a repetição é parte essencial da linguagem musical: a guitarra insiste na mesma ideia, a bateria mantém uma pulsação quase mecânica e o baixo reforça a base rítmica, criando um fluxo sonoro que se constrói através da persistência e da acumulação.
Esta abordagem ganha uma dimensão particular em palco, onde o movimento dos músicos acompanha a natureza física da música. O baixista e o guitarrista protagonizaram coreografias individuais que reforçaram o lado performativo do espetáculo, transformando a repetição num exercício de energia e movimento. A presença do guitarrista foi ainda marcada pelo recurso constante aos pedais de efeitos, utilizados para moldar e alterar o som ao longo da atuação.
Com a sala praticamente cheia, os MAQUINA. encerraram o festival sem procurar corresponder às expectativas mais convencionais de um concerto de rock ou metal. Em vez de apostar numa sucessão de explosões e mudanças abruptas, o trio privilegiou a criação de um fluxo contínuo, sustentado por riffs, batidas e movimento. Uma escolha que levou a diversidade do Viseu Rock Fest até ao limite e que mostrou como a música pesada pode encontrar novas formas de expressão fora das estruturas tradicionais.


















































































































































