Texto e Edição Vídeo: Carlos Guimarães.
Fotos e Captação Vídeo: Adriano Santos e Carlos Guimarães.

Autumn Gatherings
Secret Chord + Terramorta + Living Tales
Casa do Artista Amador (Louro – Famalicão), 16.10.2026

A primeira edição do Autumn Gatherings realizou-se na passada sexta-feira, 16 de outubro, na Casa do Artista Amador, em Louro, Famalicão, e saldou-se num balanço bastante positivo. Com uma casa quase cheia, o evento reuniu três bandas nacionais — Living Tales, Terramorta e Secret Chord — numa noite que cruzou diferentes abordagens musicais e ficou marcada pela energia em palco, pela apresentação de uma nova formação e por um concerto particularmente emotivo.

Os Living Tales deram início à noite com a qualidade e a boa disposição a que já habituaram o público. O concerto decorreu de forma animada, com a banda a demonstrar uma vez mais a sua capacidade de criar um ambiente envolvente e descontraído.

Em evidência esteve a vocalista Ana Isola, não apenas pela qualidade da sua voz, mas também pela teatralidade das suas interpretações. A expressividade do rosto e dos gestos acompanhou as diferentes passagens dos temas, reforçando a componente dramática da música e conferindo uma dimensão visual às atuações.

O alinhamento começou com “Reign”, “River Styx” e “Hades”, retirados do mais recente álbum da banda, “Hades”. Seguiu-se “Immortal”, do disco “Persephone”, editado em 2022, antes de o concerto terminar em grande com “The Man Who Would Be King”. Este último tema, originalmente incluído em “Mirror”, de 2020, destacou-se pela sua longa duração e variedade, revelando diferentes momentos e dinâmicas ao longo da composição. Uma prestação que confirmou os atributos dos Living Tales e abriu a noite com a energia certa.

Os Terramorta aproveitaram o Autumn Gatherings para apresentar ao vivo a sua nova formação, agora reforçada com dois vocalistas, uma alteração que acrescenta novas possibilidades à sonoridade da banda.

Beliar, também conhecido como David Matos e igualmente ligado aos Hate Disposal, assume um registo vocal grave que encaixa naturalmente na música dos Terramorta. Em contraste, Vox Mortis — Marina Silva, também dos Eden’s Apple — apresenta uma abordagem mais gritante e sofrida, bastante diferente daquela que conhecemos do seu outro projeto.

A combinação entre as duas vozes demorou algum tempo a revelar todo o seu potencial, mas rapidamente se percebeu que esta opção funciona e oferece aos Terramorta uma personalidade muito própria. O contraste entre os registos vocais constitui um dos elementos mais interessantes desta nova fase, embora, em alguns momentos, as frequências mais agudas da voz de Vox Mortis tenham perdido definição quando coincidiam com guitarras a explorar tonalidades igualmente elevadas.
Outro dos destaques foi o baterista Fragor Inferi, nome assumido na banda pelo André Fragoso, com passagens anteriores pelos Dallian e Tales for the Unspoken. A sua experiência constitui um reforço importante para esta formação renovada.

O alinhamento percorreu diferentes momentos do repertório dos Terramorta, passando por por malhas como “Sic Semper Tyrannis”, “Baba Yaga”, “Presságio”, “Fog of War”, “March of the Forsaken”, a já emblemática “Caronte”, ou “The Fading Lumina’s Embrace”, antes do encerramento com uma versão de “The Evil One”, dos Venom.

O concerto serviu, assim, como uma primeira amostra de uma nova etapa para os Terramorta. A aposta em duas vozes distintas acrescenta-lhes um elemento diferenciador e abre caminho à consolidação de uma identidade renovada.

Coube aos Secret Chord encerrar a primeira edição do Autumn Gatherings, num concerto que acabou por assumir um significado especial, tanto para a banda como para o público presente.

A vocalista Raquel Subtil subiu ao palco grávida de oito meses, protagonizando, juntamente com o marido e também membro fundador Carlos Pereira, na guitarra e voz, uma atuação marcada pela proximidade e pela emoção. A interação entre ambos e o público foi revelando, ao longo da noite, que aquele concerto representava o fecho de um capítulo na história da banda — e, eventualmente, o início de uma reflexão sobre o seu próprio futuro. Os Secret Chord não deverão voltar a atuar ao vivo durante algum tempo, naturalmente devido ao nascimento do filho dos dois membros fundadores. A banda pondera ainda a viabilidade da sua continuidade, deixando em aberto o que poderá acontecer daqui para a frente.

Neste contexto, cada tema ganhou um peso particular. O alinhamento incluiu “Lies”, “Everything Repeats” e “The Choice”, seguindo-se “Scars”, momento em que Raquel Subtil também assumiu o saxofone. A atuação prosseguiu com “Demon Angels”, “Alone”, “Wraith of Oblivion” e “Set the Firestarter Ablaze”.

Carlos Pereira aproveitou igualmente a ocasião para agradecer ao guitarrista Leandro, também dos Dallian, pelo contributo dado à banda nesta última fase.

Mais do que uma simples atuação de encerramento, o concerto dos Secret Chord foi um momento de partilha entre músicos e público, marcado pela consciência de que se inicia agora um período de pausa e de decisões importantes. Sem certezas quanto ao futuro, ficou a memória de uma noite especial para uma banda que poderá estar perante uma das etapas mais decisivas do seu percurso.

A primeira edição do Autumn Gatherings demonstrou que há espaço para iniciativas capazes de reunir diferentes propostas da música pesada nacional num ambiente próximo e acolhedor. A adesão do público, com a Casa do Artista Amador praticamente cheia, e a diversidade das três atuações contribuíram para uma estreia bem-sucedida.