Paula Teles regressa com “EntreParedes”, o seu segundo álbum a solo, e assina aqui uma das obras mais ousadas e intelectualmente envolventes da música portuguesa. Se em “Desencanto” explorava territórios emocionais e íntimos, este novo registo desloca o olhar para o coletivo — para a história, a memória e a responsabilidade cívica — através de uma fusão inusitada e profundamente eficaz entre o fado e o metal progressivo.
O álbum não se limita a celebrar o passado: questiona-o. A sua força reside precisamente na recusa do conforto nostálgico, apresentando a tradição como matéria viva, sujeita a ser reinterpretada, confrontada e recriada. Com sete faixas densas, tensas e orquestralmente ricas, “EntreParedes” impõe-se como um manifesto musical, emocional e político.
Produzido no centenário de nascimento de Carlos Paredes, mestre da guitarra portuguesa, o disco evita o caminho fácil da homenagem imitativa, pois nitidamente prefere canalizar o espírito de Paredes — a integridade, a expressividade e o inconformismo — através de composições originais que cruzam a melancolia do fado com estruturas e arranjos tipicamente progressivos. O resultado é uma obra onde os cravos da revolução e os riffs do metal coexistem com naturalidade, mas também com fricção — e é nessa fricção que o álbum brilha.
Desde o “Prólogo”, onde a guitarra portuguesa estabelece o tom fundacional, até à catarse final de “(Re)Encarnado”,”EntreParedes” constrói um arco dramático que se assemelha a uma peça de teatro em sete atos. Cada faixa aprofunda-se em temas como identidade, resistência, coragem e legado.
Este é um disco que desafia o ouvinte! Não pela complexidade técnica gratuita, mas pela densidade emocional e formal que exige uma escuta atenta. As progressões rítmicas inesperadas, os contrastes entre secções acústicas e momentos de peso, e a própria entrega vocal de Paula Teles — sempre expressiva, mas controlada — criam um universo onde cada detalhe serve a narrativa maior.
Em “II Acto”, por exemplo, a evocação da Revolução dos Cravos é feita com uma tensão quase palpável. Não há romantismo: há urgência e isso ecoa na forma como a música se desenrola, entre dissonância e harmonia, beleza e luta.
Ainda assim, o álbum é uma obra emocional. E isso sente-se na forma como a guitarra portuguesa é usada não como acessório, mas como fio condutor. Ou na forma como os arranjos sinfónicos e as estruturas do metal progressivo são usados para amplificar o impacto dramático de cada tema — nunca para o mascarar.
“EntreParedes” é, acima de tudo, um ato de resiliência criativa. Paula Teles demonstra que é possível honrar a tradição sem a cristalizar, fazer música politicamente consciente sem perder emoção, e cruzar géneros sem ceder ao artifício.
Miguel Correia
Nota da Review: 8,5
Nota da Equipa: 8,1









