O que os meus sentidos aqui absorvem, representa uma das mais tristes e fatalistas obras nacionais de que há memória e que qualquer amante de música extrema mais lenta, não pode nem deve ignorar; um caso muito sério de reflexão, uma lamúria entediante de lágrimas e desgraças, um lamento de perda, sem retorno, um teste à nossa sanidade.
E é isto meus amigos, um disco abismal, com uma emotividade surreal. O resultado, é arrasador e arrepiante, ainda mais, pelo facto de quem lhe dá voz, já não estar entre nós. A música, esta é um nevoeiro denso que se levanta sobre o vulto fraco e desnutrido antes da queda. É muito difícil, levantar a cabeça, ter esperança e superar tal desespero e prenúncio do fim, destes quase pioneiros do género em Portugal e digo isto, não porque criaram a roda mas, porque não me ocorre nada igual, ou pelo menos, não me recordo de tal encontro, tão absurdamente sentido, penoso, comovente e prazeroso ao mesmo tempo…
Quase sempre lentos e profundos, funerários por vezes, é deliciosamente sombrio, servindo riffs ultra pesados e destorcidos, ruídos cósmicos e melancolias que quase fazem chorar, tudo isto, flagelado pelos assombrosos vocais de Miguel Carneiro (RIP), ora num registo rasgado, que bem poderiam estar numa obra de black metal, ora num gutural assustador, próprio das obras sofríveis ao estilo Paul Kuhur, intercalados por murmúrios limpos, modo Aaron Stainthorpe.
Estreia notável e difícil dos My Dementia, expressão de riqueza desoladora, textura esmagadora e tristeza primordial, perante a vulnerabilidade e fragilidade da vida, capturada na forma mais lamentável, usando artefactos sinistros, épicos e sufocantes, do melhor old school death doom dos noventa.
My Dying Bride e Novembers Doom, são aqui fantasmas influentes e estes, fazem acordar-nos para a vida, porque o amanhã, pode ser tarde…
E assim, termino: “Sei agora, o fim e o desespero, são a serenidade de uma solidão eterna e irremediável, são uma mágoa que é um sofrimento eterno e irremediável, tudo eterno e tudo irremediável, são o silêncio de quem chora sozinho, uma noite inteira”. (José Luís Peixoto)
Rui Rolo
Nota da Review: 8,5
Nota da Equipa: 7,6









