“Coma” é o culminar de quase uma década de experiência adquirida ao longo da carreira dos Gaerea. Uma banda, cuja formação inicial contém uma ligação quase umbilical à cidade do Porto, lançou finalmente em Outubro de 2024 o seu quarto e mais recente álbum.
Atualmente, é comum nas bandas de black metal associarem-se a diversos estilos dentro deste género. Falamos dos Dimmu Borgir que versam por uma sonoridade mais sinfónica; os Mayhem que primam por um estilo mais da velha guarda, tradicionalmente escutado pela distorção; os franceses Alcest que hoje em dia praticam um blackgaze, com uma roupagem mais moderna. No que respeita aos Gaerea, podemos afirmar que é uma autêntica (e calorosamente apreciada) amálgama de vários elementos e estilos musicais dentro do que é a esfera do black metal.
No seu primeiro disco de estreia, “Unsettling Whispers” (2018), embora enraizado no black metal, o grupo já começava a abraçar um pouco de sludge, hardcore e outros aspetos ao longo de sete únicas faixas, traduzindo-se num disco bastante sólido e orgânico. “Limbo” (2020), lançado em plena pandemia mundial, mantiveram a fórmula inicial e introduziram uma sonoridade mais frenética e agressiva, particularmente com a bateria de Diogo Mota e a voz de Guilherme Henriques. Foi no seu segundo disco os portugueses começaram a experienciar uma ascensão meteórica, com o apoio da Season of Mist, com seis faixas que nos remetem aos polacos Behemoth, na era entre “Evangelion” (2009) e “The Satanist” (2014). “Mirage” (2022) veio cimentar a sua inspiração e criatividade com uma nova palete musical de oito faixas. Idêntico à epopeia de Dante, na obra “Divina Comédia”, os três álbuns visam uma viagem emocional pela experimentação do black metal e conhecermos um pouco do ADN musical do grupo. Pensávamos que seria difícil superar tal produção, até que o quarto e último álbum veio provar o contrário.
A expetativa foi crescendo ao longo dos quatro singles lançados durante o presente ano de 2024. Com “Coma” (2024), os Gaerea expandiram a sua composição musical com novas, atmosféricas e assustadoras faixas, uma dualidade entre a escuridão e a luz. O álbum inicia com a música “The Poet’s Ballet”, uma mescla entre a harmonia do blackgaze e a crua agressividade do metal, seguindo-se com “Hope Shatters”, na qual afigura-se uma ênfase nos riffs de guitarras de Guilherme e do novo membro da Vortex Society, Sonja Schuringa. “World Ablaze”, um hino que clama pela liberdade, atira-nos para um poço sem fundo com uma brutalidade inigualável e indescritível, enquanto “Coma” faz-nos despertar com a voz demoníaca de Guilherme e a perícia na bateria de Diogo, juntamente com a destreza do baixista Lucas Ferrand. Sem dúvida, uma faixa que permite uma introspeção e reflexão da própria condição humana e acaba por ser tornar emocionalmente soberba. Porventura, na penúltima música “Unknown”, que conta com um vídeo gravado pelo Claudio Marino (Behemoth, Katatonia e Shining), destaca-se a sonoridade ambiental a par de uma eloquência lírica, no qual podemos percecionar uma breve alusão à desolação e ao vazio presentes em Limbo (2020) – “I roam in the limbo of this storm, a perpetual stranger, emotions swarm” – e que, uma vez mais, vem demonstrar uns Gaerea a abraçar diferentes elementos, de forma a enriquecer o seu leque musical. O álbum encerra com “Kingdom of Thorns”, onde podemos escutar riffs e melodias similares a As I Lay Dying ou até mesmo Killswitch Engage, que assentam na perfeição no seu registo obscuro.
Torna-se imprescindível referir a mestria com a esferográfica azul do artista Nathan Lorenzana que se tornou significante para a conceção da capa do álbum A mesma evoca-nos uma autêntica expressão visual para novamente um cenário desolador e sem esperança, onde se vislumbra o declínio social e humano. Uma alegoria ao comportamento humano e à sociedade em si, no qual no centro está representado um olho a rolar para cima, como uma espécie de estado comatoso, entre os planos astral e terrestre. Se o produto final desilude? Bem pelo contrário. Comporta um trabalho refinado, inteligente e que marca um dos ex-líbris da banda, cujo disco tem sido criticamente bem recebido dentro da comunidade de metal pela sua inovação e originalidade.
André Neves
Nota da Review: 9
Nota da Equipa: 8,7









