“Alameda” é o álbum de estreia dos Alameda, banda formada em 2016 por David Bitton e João Faria, nascida da insatisfação que ambos sentiam com a banda a que pertenciam na altura e a vontade de fazer algo mais sério. Apesar de “Alameda” ser o álbum de estreia, não é a estreia da banda no que respeita a lançamentos pois em dezembro de 2016 lançaram o EP “Rio”, com cinco temas em três idiomas: português, inglês e hebraico, combinação que desde então é parte da sua identidade enquanto banda. Após o EP a banda foi lançando temas, sempre acompanhados de vídeoclips, explorando várias sonoridades e testando a recetividade do público, dos quais destaco “Algema”, “Trama” e “Desvanescente”.
Composto por 10 temas nos três idiomas de Allamedah , “Alameda” apresenta-nos uma banda com uma identidade bem definida, sem barreiras ou limites , onde convivem pacificamente as mais diversas influências e que usa a música como meio de provocação e transmissão de críticas sociais e inquietudes pessoais, olhando para o mundo com um sentido de humor sarcástico, que pessoalmente me agrada imenso.
“Alameda” começa em português, com “Impermanência” um tema forte que nos faz questionar a existência onde damos tudo por certo e termina, também na nossa língua materna, com “Paz no Coração”, que mais do que um hino ao metal é um verdadeiro convite a ver os Allamedah ao vivo e aos “chamamentos” de David no palco: “quem está comigo levanta a mão!” (que na versão ao vivo pode assumir outra forma, mas que para descobrirem terão mesmo de ver um concerto da banda).
E é nos temas em português que Allamedah se destaca, com as letras a explorar de forma muito própria a língua portuguesa, num misto de respeito e malabarismo linguístico, onde a metáfora a poesia são constantes. É também nestes temas que a voz de David ganha brilho extra e revela toda a sua beleza: uma voz aveludada mas forte, que tanto nos envolve num abraço reconfortante, como nos abana à beira do precipício para nos acordar das ilusões. Porque Allamedah não é de nem para amores e desamores, é de realidades e de consciências.
Nos temas em inglês, a voz torna-se mais “padronizada”, menos assertiva, e talvez por isso estes temas tenham tido em mim o efeito semelhante a um instrumental: um momento para respirar e tornar consciente o sentir que os temas anteriores despertaram. Já a conjugação de português com hebraico, no tema “Zaharim”, é genial e traz um certo misticismo, despertando uma força interior.
“Alameda” é um álbum que nos fala da vida quotidiana com poesia, que ironiza com metáforas e que de forma subtil nos conduz à introspeção e autoconhecimento. Mais do que uma viagem sonora, somos presenteados com um guião de vida onde os instrumentos marcam o ritmo das vivências, ora mais eufóricas, ora mais melancólicas e a voz de David Bitton nos narra o que vamos vivendo, com uma proximidade de quem faz o caminho com cada um de nós.
Rosa Soares
Nota da Review: 8
Nota da Equipa: 8









