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Aoidos – “Oizys”

Data: Novembro/2024

Edição: Nox Liberatio Records

Formato: Álbum

Das sombras da cena extrema, a banda portuguesa Aoidos irrompe com força com o seu álbum de estreia, “Oizys”, lançado em 2024 sob o selo Nox Liberatio Records. Formados em 2019 em Coimbra, o seu nome evoca os antigos bardos gregos, refletindo uma proposta musical que bebe tanto da mitologia como da introspeção. O título não é acaso: “Oizys”, deusa do sofrimento e da miséria na mitologia grega, antecipa a viagem emocional que nos espera ao longo das suas 11 faixas.

“Oizys” começa com uma introdução inquietante, onde as guitarras limpas tecem uma atmosfera hipnótica antes de serem devoradas por uma avalanche de distorção. Desde o primeiro instante, a produção revela-se como um dos grandes acertos do álbum: o som é robusto e bem definido, permitindo que cada instrumento mantenha a sua identidade sem sacrificar a crueza essencial do género. Este delicado equilíbrio entre brutalidade e harmonia cria uma atmosfera opressiva sem cair no incompreensível.

Um dos aspectos mais destacados de “Oizys” é o trabalho de guitarras. Ao longo do álbum, a banda transita entre o tremolo picking característico do black metal e riffs demolidores mais próprios do death metal, alternando entre mudanças de dinâmica e estruturas imprevisíveis. A afinação grave reforça a contundência dos momentos mais agressivos, enquanto, nos passagens mais atmosféricas, as guitarras limpas adicionam uma melancolia latente que potencia a carga emocional da obra.

A bateria, por sua vez, move-se com precisão cirúrgica. Nos momentos mais extremos, os blast beats e o duplo pedal golpeiam com fúria implacável, enquanto nos momentos mais pausados, o baterista demonstra uma grande mestria na gestão das dinâmicas para manter a tensão.

Embora por vezes fique submerso pela intensidade das guitarras, o baixo ganha protagonismo nas passagens mais atmosféricas, acrescentando uma profundidade que nos mergulha num vazio inquietante. Quanto à voz, a interpretação é visceral e desgarradora. O registo gutural principal, cavernoso e potente, transmite uma desesperança genuína, enquanto os gritos agudos reforçam o matiz de sofrimento. As incursões em vozes limpas, longe de suavizar o impacto, dotam o álbum de uma maior profundidade emocional.

Os teclados não estão ali apenas para ornamentar, mas sentem-se como uma presença espectral que flutua entre os riffs abrasivos e as percussões demolidoras. Em certos momentos, parecem emergir do fundo da mistura como um eco distante, trazendo uma tonalidade quase cinematográfica. A sua intervenção é subtil mas crucial: em passagens mais densas, envolvem a brutalidade com uma sensação de vazio, e nos momentos de calma, acentuam a melancolia, reforçando a narrativa do sofrimento que impregna o álbum.

Cada tema deste álbum brilha com luz própria, mantendo um equilíbrio impecável entre qualidade e emoção. No entanto, há alguns que, por diferentes matizes, merecem uma menção especial: “Thrall”, uma abertura demolidora onde um riff inicial de black metal se entrelaça com secções mais cadenciadas e pesadas, conseguindo um equilíbrio impecável entre brutalidade e melodia. “Fire”, inspirada nos incêndios de Pedrógão Grande em 2017, despliega uma estrutura dinâmica na qual as guitarras limpas contrastam com explosões de fúria sonora, tornando-a uma das peças mais memoráveis do disco. O tema principal, “Oizys”, é o epicentro conceptual do álbum. Através de uma combinação de estruturas caóticas e momentos de calma inquietante, esta faixa encarna a essência do sofrimento e da miséria que a deusa representa. Arrasta-te como uma corrente rápida e depois deixa-te suspenso num pântano sonoro, enquanto as melodias sombrias e os guturais desgarradores reforçam a sensação de angústia. No seu clímax, a intensidade instrumental transmite um sentimento de desespero absoluto antes de desvanecer-se num eco melancólico.

No meio do caos e da ferocidade de “Oizys”, “Old Ballad” surge como um interlúdio inesperado que oferece um respiro melancólico. Trata-se de uma breve peça instrumental, onde a guitarra acústica revela uma melodia nostálgica que contrasta com a densidade sonora do álbum. A sua presença não só serve como uma pausa entre a brutalidade dos temas circundantes, mas também reforça a sensação de introspeção e tragédia que atravessa toda a obra. Actua como uma ponte emocional que nos permite processar a intensidade anterior antes de nos mergulharmos novamente na tempestade.

“Black Swan” é um dos temas mais sombrios e densos do álbum. Com uma progressão lenta e opressiva, funde a pesadez do doom metal com a crueza do blackened death metal. O seu ponto alto é puro caos e desespero, levando a intensidade de “Oizys” a um dos seus expoentes.

Com “Oizys”, os Aoidos assinam uma estreia sólida e com identidade própria. Longe de se limitar a replicar fórmulas estabelecidas, a banda molda-as à sua maneira, dando forma a um som que, embora feroz, deixa espaço para a introspeção. A combinação de atmosferas envolventes, riffs afiadas e uma produção meticulosa não só impacta numa primeira audição, mas continua a revelar nuances com cada nova imersão no seu universo sonoro.

Noelia Alvariño

Nota da Review: 8,5
Nota da Equipa: 8,1