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Paula Teles – “Desencanto”

 

Data: Abril/2024

Edição: Autor

Formato: EP Digital

Já todos acordámos a meio da noite com a sensação de estarmos a cair no vazio… acordamos sem saber onde estamos, sem fôlego, como se a memória e o ar tivessem eles próprios caído num espaço sem tempo. E foi esta a sensação que tive ao ouvir pela primeira vez “Desencanto”, o primeiro trabalho a solo de Paula Teles.

“Grito” foi o primeiro tema a ser lançado em videoclip e é o tema de abertura deste EP. Começa com a guitarra portuguesa de Jorge e a voz de Paula, para depois, num crescendo nos agarrar, numa combinação de fado e metal tão surpreendente como hipnótica e que se mantém ao longo dos sete temas que compõe este trabalho.

Os seguintes três temas seguem a ordem de lançamento dos singles/videoclips: “Desencanto”, “Jogo do Silêncio” e “Inocência”, onde se destaca a participação de  Björn Strid (Soilwork e Night Flight Orchestra) no tema “Jogo do Silêncio” onde o cantor sueco surpreende por cantar em português. Um dueto tão inesperado quanto intenso.

“Carta”, o último tema é como uma despedida, onde já não se sabe mais o que escrever. As palavras são nada e onde letra a letra nos despedimos… de alguém, do tempo ou do que nós próprios fomos ao longo dos seis temas antecedentes. Porque a capacidade transformadora de “Desencanto” emerge de nós um outro Eu.

“Desencanto” não é um EP, não é um disco. É um turbilhão de emoções e sentimentos, que se enreda na memória cultural, onde o passado e o contemporâneo de um povo convivem representados pelos sons tradicionais portugueses acompanhados de sonoridades mais pesadas e que nos desnuda a alma sem piedade, rasga o véu com que cobrimos as nossas profundezas e traz à superfície da pele o arrepio de quem se redescobre. Não há perdão nem culpa, céu ou inferno… há a confrontação com a nossa fragilidade, com todo o sentir que teimamos em esconder, mas que Paula Teles usa como uma adaga que nos corta sem ferir porque “Desencanto” está para lá do corpo, do físico, do palpável. Em “Desencanto” as fragilidades transformam-se em forças, as lágrimas em água que alimentam a sede da provação e a perda ganha a forma de esperança.

Para mim, os grandes da música não se medem pelo número de cópias vendidas, pelo número de concertos ou pela quantidade de público que juntam. Para mim, os grandes da música são aqueles que através do seu trabalho se exorcizam e permitem a nós, que os ouvimos, libertar os nossos demónios, juntar os estilhaços da nossa alma e renascermos a cada escuta. E nisso, Paula Teles e o seu “Desencanto” são enormes!

Rosa Soares

Nota da Review: 9,5
Nota da Equipa: 8,4