Com vinte anos de carreira, os Miss Lava estão de regresso agora com o seu quinto álbum “Under A Black Sun”, um álbum que marca não só a maturidade de uma banda que nunca parou de evoluir, mas também um novo capítulo na sua exploração emocional e sonora. Lançado a 25 de abril, o disco surge como um testemunho da resiliência e reinvenção.
Gravado nos Generator Music Studios, “Under A Black Sun” destaca-se pela clareza sonora que raramente se encontra num género habitualmente mais cru e saturado. Afinações ultra-graves, camadas adicionais de guitarra e momentos de pura experimentação conferem ao álbum uma densidade palpável, sem comprometer a coesão. O resultado é um som cheio, atmosférico e, acima de tudo, honesto.
Este é também um disco de sombras interiores. O processo de escrita, influenciado pelos efeitos psicológicos da pandemia levou o vocalista a uma expressão lírica profundamente catártica. As canções exploram temas como isolamento, desorientação e resistência pessoal, sempre carregadas de uma intensidade emocional que atravessa toda a obra.
Ao longo das suas onze faixas, “Under A Black Sun” não procura a luz, procura o caminho até ela. É um disco que parte da escuridão com paciência, sem pressas nem ilusões. Os Miss Lava entregam aqui o seu trabalho mais maduro e coeso até à data, podiam apenas manter a fórmula com provas e resultados positivos já alcançados, mas não se mostram resignados ao que alcançaram e aqui voltam novamente a arriscar e a reinventarem-se, sem medos nem receios de se atirarem no abismo do desconhecido.
“Dark Tomb Nebula” funciona quase como um eixo gravitacional. Se “Under A Black Sun” é um disco sobre atravessar a escuridão para reencontrar a luz, esta faixa representa o momento em que se aceita estar perdido e é aí que começa o caminho da transformação.
“Chaos Train”, por exemplo, destaca-se como um dos momentos mais incendiários do disco. Numa combinação de riffs arrasadores e lirismo carregado, a faixa é inspirada pela ascensão da extrema-direita e reflete uma “fúria contida”, onde a indignação social ganha corpo, é raiva sem perda de controlo.
“The Bends” um verdadeiro soco no estômago revestido de fuzz, onde a claustrofobia ganha forma, o título, uma referência ao fenómeno físico associado à descompressão rápida, funciona como metáfora perfeita para a sensação de sufoco psicológico que a canção evoca, a ideia de vir à tona demasiado depressa num mundo que já não reconhecemos. Um equilibro perfeito de peso e tensão. O riff principal é denso, arrastado e hipnótico, há um groove contido, mas permanente, que prende o ouvinte numa espécie de transe. A secção rítmica sustenta a faixa com precisão e a produção mantém tudo com um grau de saturação que nunca compromete a clareza.
A faixa-título “Under A Black Sun” faixa que dá nome ao álbum e por sua vez também o encerra, retrata com exatidão, o espírito sombrio, introspetivo e emocionalmente carregado que atravessa toda a obra. É uma peça central, quase ritualística, onde o peso instrumental encontra uma dimensão atmosférica rara no stoner rock. A guitarra desenha paisagens negras e vastas, enquanto a secção rítmica sustenta tudo, não há pressa: “Under A Black Sun” avança como um monólito, imponente.
Duas décadas depois, a banda continua a marcar pontos, emocionalmente densa e artisticamente relevante. “Under A Black Sun” não é só um excelente álbum de stoner rock, é um reflexo honesto do que significa continuar a criar.
LordSir SetePeles
Nota da Review: 8
Nota da Equipa: 8,3









