Num cenário musical português ainda dominado por fórmulas seguras, os Rei Bruxo insistem em trilhar caminhos de risco e descoberta. O trio portuense – Ricardo Pinto, Sofia Faria Fernandes e Marcelo Rúben Aires – apresenta com “O Quarto Fechado” um objeto artístico raro: um álbum-livro onde som, texto e imagem se entrelaçam numa mesma narrativa.
Mais do que um disco, trata-se de uma experiência pensada para ser ouvida, lida e observada, onde cada elemento amplia e transforma o outro.
Entre o som e a palavra
Inspirado em passagens da Trilogia de Nova Iorque, de Paul Auster, o projeto parte de ideias como o isolamento, a invisibilidade e o desejo – sempre frustrado – de escapar ao mundo. Há também ecos do pensamento de Byung-Chul Han, especialmente nessa sensação de exaustão e ausência de refúgio que define a contemporaneidade.
As canções constroem um universo próprio, onde o espaço fechado é tanto físico como mental, refletindo a sensação de confinamento e introspeção que perpassa toda a obra.
Música para desassossegar
Desde a sua formação, em 2017, os Rei Bruxo assumem-se como um coletivo que não busca agradar, mas provocar. “O Quarto Fechado” mantém essa premissa, mas leva-a mais longe: é o seu registo mais arrojado e coeso, equilibrando experimentação e intenção narrativa.
O grupo explora uma paleta sonora vasta e fluida – rock progressivo, eletrónica, jazz, grunge, hip-hop, MPB, stoner, noise e hardcore convivem sem fronteiras, criando texturas imprevisíveis e ambientes densos. A voz de Sofia Faria Fernandes alterna entre declamação e exposição emocional; Ricardo Pinto constrói camadas de guitarras e sintetizadores que soam ora etéreas, ora abrasivas; na bateria Marcelo Rúben Aires constrói estruturas rítmicas complexas, mas orgânicas, sustentando a vertigem sonora do trio com uma sensibilidade que nunca se sobrepõe à narrativa.
Uma viagem em onze capítulos
A viagem proposta pelo disco começa com “Longe de Errado”, faixa que estabelece um tom contemplativo e enérgico e que prepara o ouvinte para o mergulho que se segue. “Ultra-pan-óptico” explora o caos da linguagem e da perceção, com a palavra que tenta dizer e falha – uma metáfora perfeita para a comunicação fragmentada do nosso tempo.
“Botão de Pânico” e “Neurose” traduzem, com energia quase claustrofóbica, o ruído da ansiedade contemporânea. “Desaparecer dos invisíveis” investiga fronteiras entre presença e ausência. Já temas como “O quê quando palavras idas?”, “Nó cego” e “Para Este Mundo”, apresentam um cariz mais melancólico, onde a procura de sentido parece dissolver-se num eco distante.
Entre a complexidade e a clareza
“O Quarto fechado” é tudo menos um trabalho imediato. Exige escuta atenta, curiosidade e disponibilidade para o desconforto. É precisamente nessa recusa de atalhos que reside a força do projeto: a banda reafirma a arte como espaço de reflexão e resistência à superficialidade.
A componente visual e literária, com história, personagens e ilustrações que dialogam com as músicas, reforça o caráter total da obra – uma experiência onde o som não se limita a ser ouvido, mas ganha corpo e narrativa.
Conclusão
Num país onde as propostas mais experimentais continuam a mover-se nas margens, os Rei Bruxo mantêm-.se fiéis à sua visão artística: música para desassossegar. “O Quarto Fechado” não procura consenso, mas oferece uma alternativa sólida à previsibilidade. É uma das edições nacionais mais estimulantes deste ano e um exemplo de como a arte pode – e deve – desafiar o conforto.
O álbum-livro “O Quarto Fechado” encontra-se já esgotado no Bandcamp dos Rei Bruxo, mas vale a pena estar atento e aguardar por uma reimpressão desta verdadeira obra-prima.
António Mota
Nota da Review: 8,5
Nota da Equipa: 7,3









