Há nomes que dispensam apresentações, mas há outros que exigem ser lembrados com o devido respeito — sobretudo quando representam a verdadeira essência da resiliência no metal nacional. Os Xeque-Mate, pioneiros do heavy metal português desde 1979, regressam com “Entrudo”, o seu quarto álbum de originais. E se foram precisos mais de 45 anos para aqui chegarem, então que fique claro: valeu cada segundo. Este é, provavelmente, o disco mais direto, feroz e urgente da sua carreira — um manifesto em forma de riffs, um grito contra a apatia e uma aula de integridade artística. Tudo em português, como sempre. Sem concessões. Sem máscaras.
E por falar em máscaras, “Entrudo” não podia ter nome mais certeiro. Inspirado na tradição carnavalesca portuguesa, onde o disfarce serve para escancarar verdades incómodas, o álbum é uma metáfora perfeita para um tempo em que a verdade anda disfarçada, e a crítica é uma necessidade. O artwork, com os icónicos Caretos de Podence, reforça essa ponte entre a cultura ancestral e a crítica social moderna. Este é um disco profundamente enraizado na terra que o viu nascer — culturalmente português, musicalmente universal.
Em termos sonoros, o álbum é um tratado de heavy metal como já poucos fazem. A produção é limpa mas musculada, a secção rítmica está no ponto certo, e as guitarras de Tiago Costa e Artur Capela debitam riffs certeiros, agressivos, com solos cheios de intenção e peso. Mas é a voz de Xico Soares, um dos fundadores, que assume aqui um papel central — convicta, crua, carregada de emoção e de verdade. Soares assina também as letras, e fá-lo com uma simplicidade única e muito própria: não há metáforas vazias, há mensagens claras, incisivas, desconcertantes até. Letras que apontam, questionam, expõem.
Com pouco mais de 40 minutos de duração, o álbum não desperdiça um único segundo. Tudo serve a narrativa. As participações especiais são mais do que colaborações — são pontes entre gerações do metal nacional. Lex Thunder (Toxikull) e Jorge Marques (Tarantula) juntam forças em “Corre, Corre” e Paulo Barros, (Tarantula) , mestre da guitarra, eleva “Não Me Lembro” com um solo que é puro feeling e técnica.
Entre os destaques, “Pequenez” é um murro no estômago contra a mediocridade instalada; “Entrudo”, a faixa-título, resume com brilhantismo o conceito do álbum, fundindo peso com crítica social de forma orgânica, depois as já referidas “Corre, corre”, “Não Me Lembro”, “Talvez No Céu” e o momento instrumental com “Trova da Memória”, que encerra o disco num registo mais introspectivo, melancólico até, mas absolutamente poderoso.
O que torna “Entrudo” tão especial não é só a música — é o que ela representa. É a prova de que se pode fazer heavy metal com identidade própria, em português, com alma, sem seguir fórmulas, sem ceder a pressões, sem perder a garra com a idade. Os Xeque-Mate continuam fiéis a si mesmos e, mais do que isso, continuam relevantes. São únicos no contexto nacional — não há outra banda em Portugal com este percurso, esta integridade e esta capacidade de transformar a sua vivência em música com conteúdo, forma e substância.
“Entrudo” é um álbum que honra o passado com os pés no presente e o olhar no futuro. Mostra-nos que o verdadeiro metal não é só barulho — é atitude, é mensagem, é resistência. E os Xeque-Mate continuam, décadas depois, a ensinar isso como ninguém. Num país onde tantos desistem, eles persistem. E ainda bem.
Miguel Correia
Nota da Review: 8
Nota da Equipa: 8,3









